Pedro Côrtes
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Pedro Côrtes

Professor titular da Universidade de São Paulo (USP) e um dos mais renomados especialistas em Clima e Meio Ambiente do país.

Petróleo e a aritmética da guerra

O Brent pode estabilizar perto de US$ 80; três dígitos exigem escassez real — e um erro de cálculo

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O petróleo raramente espera pela confirmação dos fatos. O Brent era negociado ao redor de US$ 72 antes da escalada entre Estados Unidos, Israel e Irã. Bastaram horas para que o mercado passasse a precificar não barris perdidos, mas a possibilidade de que deixem de circular. O prêmio geopolítico já está embutido. A dúvida agora é sua persistência.

Cerca de 20% do petróleo global atravessa o Estreito de Hormuz. Uma interrupção ali não seria apenas logística; seria estratégica. Ainda assim, a história recomenda cautela contra o alarmismo. Em 1973 e 1979, o choque foi estrutural: pouca capacidade ociosa e demanda rígida ampliaram o impacto. Em 1990, após a invasão do Kuwait, os preços dispararam — e recuaram quando novas fontes compensaram o déficit. Em 2022, o barril superou US$ 110 após a invasão da Ucrânia, mas voltou a níveis mais baixos quando fluxos comerciais se reorganizaram e a demanda desacelerou.

O pano de fundo atual é menos frágil do que o imaginado. A produção americana segue elevada. Brasil e Guiana ampliam oferta. A Opep dispõe de alguma capacidade ociosa. A demanda global cresce menos do que no ciclo anterior. A elasticidade-preço continua baixa no curtíssimo prazo, mas se torna relevante em meses.

Em torno de US$ 80, o impacto é sobretudo distributivo: renda é transferida de consumidores para produtores, sem necessariamente comprometer o crescimento global. Acima de US$ 100, o efeito passa a ser macroeconômico: a inflação ressurge, juros permanecem elevados por mais tempo e a atividade começa a desacelerar.

Se o conflito permanecer intenso, porém contido — ataques e retaliações sem bloqueio prolongado do estreito — o Brent dificilmente retornará à casa dos US$ 70 enquanto persistir a incerteza. Um patamar em torno de US$ 80 parece plausível: alto o suficiente para refletir risco, mas não para sinalizar escassez sistêmica. Esse é o cenário central.

Uma escalada indireta — perda temporária de cerca de 1 milhão de barris por dia ou danos recorrentes à infraestrutura regional — deslocaria o equilíbrio. Estoques começariam a cair. Refinarias competiriam por suprimento. O Brent poderia migrar para US$ 85–95, reacendendo pressões inflacionárias e forçando bancos centrais a reconsiderar cortes de juros. Nesse ponto, o petróleo deixaria de ser apenas um indicador geopolítico e passaria a condicionar o ciclo monetário global, fortalecendo o dólar e tensionando economias emergentes importadoras.

Somente uma ameaça persistente ao tráfego no Golfo — ou retirada duradoura de oferta regional — empurraria o barril decisivamente acima de US$ 100, talvez para US$ 105–110. Esse cenário exigiria disrupção prolongada, não apenas retórica militar. Importante mencionar que algumas das maiores companhias do setor de petróleo e importantes tradings já interromperam o transporte de petróleo bruto e derivados pelo Estreito de Ormuz em meio aos ataques na região. A economia global, mais diversificada energeticamente do que há meio século, tenderia a reagir: produtores fora da região ampliariam oferta; consumidores reduziriam demanda.

O risco mais provável não é a escassez permanente, mas o erro de duração. Mercados extrapolam a primeira semana para o trimestre seguinte. Um prêmio sustentado por manchetes pode evaporar se os navios continuarem navegando. Por outro lado, a complacência pode custar caro se a capacidade ociosa se revelar menos acessível do que suposto.

O petróleo oscila entre medo e balanço físico. O medo move os preços primeiro. Os barris — ou a falta deles — decidem depois.

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