Pedro Côrtes
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Pedro Côrtes

Professor titular da Universidade de São Paulo (USP) e um dos mais renomados especialistas em Clima e Meio Ambiente do país.

Petrobras: uma verdade inconveniente

Em meio à substituição de Jean Paul Prates por Magda Chambriard, uma importante discussão não é realizada

Sede da Petrobras, no Rio de Janeiro  • 16/10/2019 REUTERS/Sergio Moraes
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Grandes empresas de mineração trabalham com planejamento de longo prazo. Em muitos casos, o retorno sobre o investimento (ROI) ocorre em mais de uma década. É usual, portanto, que essas empresas procurem trabalhar com reservas medidas (aquelas com elevado grau de confiança em relação à sua quantidade, qualidade e viabilidade econômica) para várias décadas. As petroleiras se enquadram nessa perspectiva.

Estima-se, entretanto, que as reservas medidas da Petrobras sejam pouco superiores a uma década, período que poderá ser ampliado – mas não muito – com investimentos em revitalização de poços. A perspectiva é de que a exploração da Margem Equatorial poderia ampliar consideravelmente as reservas atuais, segundo os mais otimistas. Entretanto, nada ainda é conclusivo sobre as reservas eventualmente lá existentes.

No conselho da Petrobras, há quem defenda que a Petrobras deva transformar-se em uma empresa de energia, investindo também em fontes renováveis e em processos de captura de carbono. Jean Paul Prates procurava seguir esse caminho. No conselho, contudo, há quem defenda que a empresa deva concentrar-se tão somente no segmento de petróleo e gás.

Não se trata, aqui, de uma defesa desta ou daquela solução. Alerto para a necessidade de uma discussão que não se estabelece. Pessoalmente, considero que precisamos de um plano nacional de transição energética que indique, com metas, para onde caminhamos e com qual velocidade. Defendo que somente com um plano nacional será possível avaliarmos o quanto necessitaremos de combustíveis fósseis no futuro próximo.

Há quem afirme, ainda no conselho, que os custos operacionais de uma Petrobras atuando no segmento das energias renováveis tende a ser maior do que os dos players já estabelecidos. Isso porque a indústria do petróleo e gás tem, naturalmente, processos operacionais com um nível elevado de segurança. A Petrobras tenderia, até por uma cultura organizacional, a transpor esse padrão para a geração de novas energias (eólica, solar, hidrogênio verde) cujos requisitos são menores.

Adicionalmente, há uma questão relacionada à rentabilidade. Arredondando os números, a Petrobras extrai petróleo a US$ 10/barril, valor que sobe para US$ 30/barril com impostos e royalties. Em um mercado que tem operado com uma cotação internacional acima de US$ 80/barril, isso representa um alto retorno, bem maior do que aquele obtido pela operação de plantas eólicas e solares ou investimentos em hidrogênio verde e captura de carbono. Além de membros do conselho, essa visão de que as fontes renováveis são investimentos pouco atraentes para o perfil da empresa é assumida por setores técnicos da empresa.

A atuação no setor de fertilizantes, defendida por setores do governo, não é algo que possa determinar o futuro da empresa. A grande questão que se coloca, embora seja pouco discutida possivelmente por ser incômoda, é se a Petrobras vai continuar sendo uma empresa de petróleo e gás ou vai ser uma empresa de energia.

Ainda não é possível afirmar que Magda Chambriard seguirá este ou aquele caminho, qual a posição do conselho em relação a essas alternativas ou mesmo qual a posição do governo, seu principal acionista. É uma discussão que pode até ser inconveniente, pois trata do futuro da maior empresa nacional e tudo o que ela representa. Mas é um assunto que precisa ser pautado com a devida relevância.

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