Análise: Petrobras perde preço, não capacidade de gerar caixa
Reeleição amplia risco percebido; preços do diesel e dividendos testarão a disciplina financeira da estatal.

As ações preferenciais da Petrobras chegaram a cair 12,8% nesta segunda-feira (26) e fecharam em baixa de 9,95%, a R$ 52,84, após a reeleição de Lula. O Ibovespa acionou o circuit breaker pela primeira vez desde março de 2020. A produção não mudou; aumentou o retorno exigido pelos investidores.
Parte da valorização recente embutia a expectativa de troca de governo. Após o primeiro turno, o Citi apontara a possibilidade de novos desinvestimentos, cortes de custos e preços dos combustíveis mais próximos dos internacionais. A vitória de Lula desfez essa aposta. Dólar e juros subiram; a Bolsa despencou.
O Bradesco BBI traduziu essa reavaliação em números: reduziu de R$ 62 para R$ 55 seu preço-alvo de PETR4 para o fim de 2027, sem alterar as projeções operacionais e mantendo a recomendação de compra. O rendimento em dividendos exigido em seu modelo passou de 8% para 10%. A revisão decorreu do risco, não de uma perspectiva de lucro menor.
Os resultados, porém, mostram que a operação segue sólida. No segundo trimestre, a Petrobras lucrou R$ 52,4 bilhões, alta de 96,8% em relação a um ano antes, e produziu 2,689 milhões de barris diários de petróleo no Brasil, avanço de 15,2%. Parte dessa força decorre do ciclo favorável do petróleo, sustentado pela crise no Golfo e pelas tensões no Estreito de Ormuz. Nesta segunda-feira, o Brent para dezembro recuou 0,8%, para US$ 115,81. O barril elevado favorece o caixa, mas não assegura rentabilidade permanente.
O diesel representa o teste mais imediato. Segundo a Associação Brasileira dos Importadores de Combustíveis (Abicom), a defasagem em relação ao custo de importação atingiu R$ 3,53 por litro em 22 de outubro, ante uma subvenção federal de R$ 3,52. Essa diferença não representa automaticamente prejuízo para a Petrobras, mas revela a pressão sobre o mecanismo, que vale apenas até o fim de 2026.
Desde 2023, a política comercial da estatal dispensa reajustes automáticos conforme a paridade internacional. Essa flexibilidade permite amortecer choques, mas descontos persistentes podem comprometer margens. Segundo a Broadcast, o Conselho de Administração discutiria a defasagem nesta segunda-feira; até a última apuração, não havia decisão anunciada.
A remuneração dos acionistas completa a equação. Em agosto, o Conselho aprovou R$ 17,4 bilhões em dividendos e juros sobre capital próprio referentes ao segundo trimestre. Sustentar pagamentos expressivos enquanto crescem os investimentos e a pressão sobre os combustíveis será um teste de disciplina financeira.
A Margem Equatorial oferece potencial de crescimento, não receitas imediatas. As descobertas no poço Morpho, anunciadas em agosto e outubro, ainda dependem da avaliação dos volumes recuperáveis, custos, viabilidade comercial e autorizações ambientais para novas atividades. Por ora, não constituem reservas comerciais comprovadas.
À Reuters, a presidente da Petrobras, Magda Chambriard, classificou a queda das ações como um movimento especulativo que não reflete os fundamentos da companhia. Os balanços sustentam parte desse argumento, mas não eliminam os riscos. O desconto das ações frente às concorrentes pode representar oportunidade ou compensação pelo risco associado ao controle estatal.
A eleição não retirou petróleo dos reservatórios nem eficiência dos ativos. Retirou do preço das ações uma expectativa política. Recuperar confiança exigirá demonstrar que a geração de caixa continuará acompanhada de disciplina financeira.



