Pedro Côrtes
Blog
Pedro Côrtes

Professor titular da Universidade de São Paulo (USP) e um dos mais renomados especialistas em Clima e Meio Ambiente do país.

Análise: O desastre que redesenha o risco no Himalaia

Lago de barreira criado pelo colapso glacial revela uma nova cadeia de ameaças no Nepal

Compartilhar matéria

Um dia depois da inundação que devastou a fronteira entre Nepal e Tibete, as equipes de resgate passaram a trabalhar diante de outra ameaça. Entre os detritos deixados pelo desastre, surgiu um lago represado por terra e rochas, capaz de provocar uma nova inundação caso a barreira natural ceda.

O alerta ajuda a compreender melhor o que está acontecendo no Himalaia. Não estamos diante de dois desastres independentes. O segundo risco foi criado pelo primeiro.

Na manhã desta quinta-feira, autoridades chinesas estimavam que o lago acumulava cerca de 2 milhões de metros cúbicos. Outros 3 milhões poderiam chegar nos três dias seguintes. Não existe ali uma barragem construída, mas uma obstrução formada por materiais mobilizados pela própria catástrofe, sem estrutura capaz de assegurar sua estabilidade.

A nova ameaça surge quando a dimensão humana do primeiro evento ainda está sendo conhecida. Segundo balanço divulgado pela Reuters, ao menos 362 pessoas haviam morrido e quase mil continuavam desaparecidas.

Imagens de satélite ajudam a reconstruir o desastre. A porção inferior de uma geleira próxima ao Langtang Lirung se desprendeu em grande altitude e atingiu o vale, desencadeando uma avalanche de gelo e rocha seguida por um enorme fluxo de detritos. O sinal inicialmente interpretado como terremoto foi depois identificado pelo Serviço Geológico dos Estados Unidos como energia sísmica produzida pelo próprio colapso.

Essa ruptura, porém, ocorreu em uma cordilheira que perde gelo há décadas. Entre 1990 e 2020, segundo o ICIMOD, as geleiras do Hindu Kush-Himalaia perderam cerca de 12% de sua área e 9% das reservas estimadas de gelo. A retração altera o suporte das encostas, aumenta a presença de água de degelo e modifica condições que influenciam a estabilidade do gelo e da rocha.

O colapso ocorreu em uma paisagem progressivamente transformada pela perda de gelo causada pelas mudanças climáticas, processo que amplia as condições para instabilidades em regiões de alta montanha.

Depois da ruptura, a própria catástrofe passou a remodelar o vale. Gelo, lama, blocos e sedimentos alteraram canais, bloquearam rios e criaram novos represamentos. Onde surge um lago sustentado apenas por detritos instáveis, aparece a possibilidade de outra cheia.

É o risco em cascata: uma ameaça modifica o ambiente e cria as condições para a seguinte.

Simon Cox, cientista-chefe do programa Mountains to Sea, da Earth Sciences New Zealand, disse à Reuters que as mudanças climáticas estão criando condições capazes de desestabilizar rocha e gelo em altas montanhas. O aquecimento pode reduzir o suporte proporcionado pelo gelo, aumentar a água de degelo e alterar ciclos de congelamento e descongelamento, favorecendo grandes colapsos.

O desafio, portanto, não termina quando a primeira onda passa. Após um evento dessa magnitude, é preciso acompanhar também a paisagem que ele deixou para trás: encostas fragilizadas, rios desviados, grandes volumes de sedimentos e lagos recém-formados.

O desastre no Nepal mostra que uma catástrofe pode produzir a geografia necessária para a seguinte. Em um Himalaia que perde gelo e se transforma rapidamente, compreender essa sequência talvez seja tão importante quanto entender o primeiro colapso.