Pedro Côrtes
Blog
Pedro Côrtes

Professor titular da Universidade de São Paulo (USP) e um dos mais renomados especialistas em Clima e Meio Ambiente do país.

Guerra no Golfo gera crise ambiental e sanitária

Ataques a petróleo e água no Irã provocam poluição, “chuva negra” e risco à segurança hídrica regional

Compartilhar matéria

A escalada da guerra envolvendo Estados Unidos, Israel e Irã começa a produzir efeitos ambientais que vão além do campo militar e atingem diretamente a qualidade do ar, a segurança hídrica e a saúde pública no Oriente Médio.

Incêndios em instalações energéticas e ataques a infraestruturas críticas ampliam o risco de contaminação atmosférica, escassez de água e degradação ambiental em uma região já marcada por forte estresse hídrico.

Um dos episódios que intensificaram essa preocupação foi a denúncia feita pelo governo iraniano de que forças dos Estados Unidos teriam atacado uma usina de dessalinização na ilha de Qeshm, no Golfo de Omã.

Segundo autoridades iranianas, a instalação abastece cerca de 30 aldeias da região. Embora não haja confirmação independente do ataque, especialistas alertam que usinas de dessalinização representam uma infraestrutura crítica no Oriente Médio, responsável por grande parte do abastecimento de água potável em países áridos do Golfo.

A vulnerabilidade dessas instalações é particularmente sensível porque a região concentra cerca de um quarto da capacidade global de dessalinização. Caso ataques ou danos se tornem recorrentes, o impacto pode ir além do Irã e afetar toda a segurança hídrica regional, ampliando tensões sociais e humanitárias.

Paralelamente, a intensificação de ataques contra instalações petrolíferas e depósitos de combustíveis produziu incêndios de grandes proporções e liberou grandes volumes de fumaça e compostos tóxicos na atmosfera. Esse cenário levou a OMS (Organização Mundial da Saúde) a emitir um alerta sobre os riscos à saúde associados à chamada “chuva negra”, fenômeno observado em algumas áreas afetadas pelo conflito.

A “chuva negra” ocorre quando partículas de fuligem, hidrocarbonetos e outros poluentes liberados por incêndios industriais se misturam à umidade atmosférica e retornam ao solo por meio da precipitação. Esse processo pode transportar substâncias potencialmente tóxicas para áreas urbanas, solos agrícolas e corpos d’água. A fuligem e os resíduos da combustão também podem ser transportados pela chuva para rios, reservatórios e áreas costeiras, ampliando o alcance ambiental do conflito. Em regiões costeiras do Golfo, esse tipo de poluição também pode atingir ecossistemas marinhos sensíveis.

De acordo com o alerta da OMS, a exposição a esse tipo de precipitação pode provocar irritação respiratória, agravamento de doenças pulmonares, problemas oculares e efeitos tóxicos decorrentes da inalação de partículas finas e compostos químicos liberados na queima de combustíveis fósseis. Crianças, idosos e pessoas com doenças respiratórias estão entre os grupos mais vulneráveis.

Conflitos envolvendo infraestrutura energética frequentemente deixam passivos ambientais duradouros. A experiência histórica da Guerra do Golfo, no início da década de 1990, mostrou que incêndios em campos de petróleo e danos a instalações industriais podem gerar poluição persistente por anos ou mesmo décadas.

No cenário atual, o risco ambiental ganha uma dimensão adicional porque petróleo e água passaram a integrar diretamente o teatro estratégico da guerra. Instalações energéticas e sistemas de abastecimento hídrico deixaram de ser apenas infraestrutura civil e passaram a representar ativos estratégicos capazes de influenciar a dinâmica do conflito. Esse deslocamento amplia significativamente o custo ambiental da guerra.

Com isso, a guerra no Golfo começa a revelar uma nova frente de impactos: a ambiental. Ainda que os combates eventualmente diminuam, a degradação do ar, do solo e da água pode permanecer como um legado duradouro do conflito, afetando a saúde pública, os ecossistemas e a estabilidade ambiental da região por muitos anos.