Análise: Tornados ganham espaço no mapa de riscos do Brasil
Mudanças climáticas ampliam o risco de tempestades severas e exigem mais monitoramento, alertas e preparação
A percepção de que o Brasil está tendo mais tornados ganhou força com os números recentes. Segundo levantamentos divulgados pela PREVOTS, foram contabilizados 92 registros em 2025 e outros 81 até julho de 2026. A sequência de imagens de funis e destruição reforça essa impressão, mas é preciso distinguir a quantidade de fenômenos documentados da frequência real com que eles ocorrem.
A PREVOTS não é um órgão oficial do governo nem um serviço meteorológico estatal. É uma iniciativa técnico-científica formada por meteorologistas para documentar, pesquisar e prever tempestades severas no Brasil, com parceiros como a Universidade Federal de Santa Maria, o Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais e o Instituto Mineiro de Gestão das Águas. Seus levantamentos têm relevância científica, mas não constituem uma estatística oficial do Estado.
Tornado atinge cidade no Paraná e causa destruição; veja vídeos
Dentro dessa iniciativa funciona a PRETS, Plataforma de Registros de Tempo Severo, que também não é um serviço oficial. Trata-se de uma base criada para reunir e verificar relatos de granizo, rajadas e tornados obtidos em redes sociais e reportagens, confrontando-os com informações de radar e satélite. A coleta padronizada começou em junho de 2018, um avanço importante que, ao mesmo tempo, dificulta comparações diretas com décadas anteriores.
Celulares, câmeras de segurança, redes sociais, radares e satélites mudaram radicalmente a capacidade de observação. Um tornado que atravessasse uma região rural há 40 anos poderia terminar registrado apenas como “vendaval” ou “temporal”; hoje, pode ser filmado de vários ângulos e analisado poucas horas depois. O crescimento dos registros é, portanto, evidente, mas ainda não existe uma série longa e homogênea capaz de demonstrar com a mesma segurança que a ocorrência real de tornados também aumentou.
O estudo “Climatologia de ocorrências tornádicas no Sul do Brasil”, publicado em 2025 pela revista Ciência e Natura, da Universidade Federal de Santa Maria, reuniu 310 ocorrências na Região Sul e identificou maior frequência entre o norte do Rio Grande do Sul, o oeste de Santa Catarina e o sudoeste do Paraná. O trabalho reforça que tornado não é uma extravagância meteorológica no Brasil, mas parte da climatologia regional.
A incerteza é ainda maior quando se analisa a intensidade. O tornado que devastou Rio Bonito do Iguaçu, no Paraná, em novembro de 2025, foi classificado como F4 pelo Simepar, com ventos estimados entre 333 e 418 quilômetros por hora. O episódio confirma que o Brasil pode produzir tornados violentos, mas não demonstra que estejam ficando mais fortes. Muitos eventos antigos não possuem documentação suficiente para uma classificação confiável, enquanto os mais destrutivos sempre tiveram maior chance de permanecer no registro histórico.
As mudanças climáticas têm papel fundamental nesse cenário. Uma atmosfera mais quente retém mais vapor d’água e aumenta a energia disponível para tempestades severas, criando condições para episódios potencialmente mais destrutivos. Tornados dependem também da organização das células de tempestade e da mudança de velocidade e direção dos ventos com a altitude, o chamado cisalhamento vertical, fatores que variam regionalmente e ajudam a explicar por que o sinal não é uniforme.
A ausência de uma série histórica homogênea impede medir com precisão quanto do aumento recente decorre do aquecimento global, mas isso não elimina a influência de um clima mais quente e energético sobre os ambientes capazes de produzir tempestades capazes de produzir tornados. Na minha leitura, essa influência já deve ser considerada parte relevante da explicação para o aumento das ocorrências observadas e para o potencial de maior intensidade dos eventos.
Essa incerteza não justifica inércia. O país precisa consolidar uma base nacional permanente e padronizada, ampliar levantamentos de danos e integrar melhor radares, satélites, modelos meteorológicos e observações de campo. O objetivo deve ser reduzir o intervalo entre a identificação de uma tempestade potencialmente associada à formação de tornados e o aviso à população, especialmente nas áreas onde a climatologia já indica maior exposição.
O Defesa Civil Alerta oferece uma infraestrutura importante ao enviar mensagens diretamente aos celulares localizados em áreas ameaçadas, sem cadastro prévio. A tecnologia de comunicação já existe; o desafio é fazer a informação meteorológica chegar com rapidez e ser acompanhada de orientação clara sobre onde buscar proteção.
Diante de um clima mais quente e favorável a tempestades severas, o Brasil precisa avançar no monitoramento, nos alertas e na preparação da população. Não podemos adiar medidas de prevenção diante de um risco crescente.



