Pedro Côrtes
Blog
Pedro Côrtes

Professor titular da Universidade de São Paulo (USP) e um dos mais renomados especialistas em Clima e Meio Ambiente do país.

Energia: ondas de calor pressionam Europa e São Paulo

Na Europa, temperaturas extremas reduzem a oferta nuclear e elevam preços; em São Paulo, a pressão deverá aparecer sobretudo no aumento da demanda por climatização

Compartilhar matéria

Duas ondas de calor, em continentes e estações diferentes, expõem duas faces de um mesmo desafio para o setor elétrico. Na Europa, o calor já reduz a geração justamente quando aumenta o consumo. Em São Paulo, onde as temperaturas podem chegar a 40°C no interior até o dia 19, o principal impacto tende a surgir inicialmente do lado da demanda.

A quinta onda de calor deste verão europeu encontrou rios com níveis baixos e águas muito quentes. Para países que dependem desses cursos d’água para resfriar usinas nucleares, a situação passou a interferir diretamente na oferta de eletricidade.

Na França, dados da Électricité de France (EDF), estatal que opera o parque nuclear francês indicam que as restrições provocadas pelo calor podem retirar até 9,4 gigawatts da produção nuclear nesta sexta-feira, distribuídos por nove reatores. Seis deles deverão ficar completamente fora de operação, o equivalente a cerca de 15% da capacidade nuclear instalada do país. O impacto chegou ao mercado. Segundo dados do London Stock Exchange Group (LSEG), citados pela Reuters, o preço francês da eletricidade para entrega no dia seguinte alcançou €154,50 por megawatt-hora, o maior valor desde o pico anterior do verão, em junho.

O Danúbio expõe outra dimensão do problema. Na Hungria, a usina nuclear de Paks chegou a operar com apenas uma de suas oito turbinas ativas, pouco acima de 10% da capacidade. Uma recuperação gradual começou após pequena elevação do nível do rio. Na Romênia, a falta de água suficiente para resfriamento levou ao desligamento do último reator que permanecia em operação em Cernavodă.

O calor europeu atua, portanto, nas duas pontas. Eleva o consumo de eletricidade com o uso mais intenso de ar-condicionado e outros sistemas de resfriamento, ao mesmo tempo em que reduz parte da oferta. Essa é uma combinação capaz de pressionar preços e ampliar a necessidade de outras fontes.

Em São Paulo, a situação é diferente. A Defesa Civil prevê temperaturas até 7°C acima da média no Norte, Noroeste e Oeste do estado. Na Grande São Paulo e em regiões como Campinas e Sorocaba, o desvio poderá chegar a 5°C. A Empresa de Pesquisa Energética identifica as ondas de calor como fator capaz de produzir picos de demanda pela maior necessidade de climatização. Residências, comércio, escritórios, hospitais e centros de dados ampliam simultaneamente o uso de equipamentos de refrigeração.

O desafio não está apenas na energia consumida ao longo do dia, mas na potência que o sistema precisa oferecer quando milhões de equipamentos são acionados ao mesmo tempo. Ondas de calor podem alterar rapidamente a curva de carga e exigir maior capacidade nos horários críticos. Há, entretanto, uma diferença decisiva em relação à Europa. O Brasil entra neste episódio sem um choque equivalente de oferta. Segundo o ONS, os reservatórios do Sudeste e Centro-Oeste devem receber em agosto um volume de água equivalente a 91% da média histórica. Isso indica uma situação relativamente confortável para o sistema elétrico e, neste momento, sem sinais de que a onda de calor possa comprometer o abastecimento de energia.

O ONS também prevê crescimento de 4,1% da carga do Sistema Interligado Nacional em agosto, para pouco mais de 81 mil megawatts médios. Temperaturas excepcionalmente altas poderão modificar o perfil diário dessa demanda, sobretudo nos períodos de maior uso de climatização.

O Sistema Interligado Nacional oferece ao Brasil uma vantagem estrutural ao combinar diferentes fontes e permitir intercâmbios de energia entre regiões. Essa diversidade não elimina riscos, mas amplia a capacidade de acomodar oscilações de oferta e consumo.

A experiência europeia, porém, deixa uma advertência. Planejar o setor elétrico apenas pela capacidade instalada tornou-se insuficiente. É preciso considerar quanto dessa geração continuará efetivamente disponível sob temperaturas extremas, secas prolongadas e mudanças no regime dos rios — e quanto a demanda crescerá para manter residências, empresas e infraestrutura funcionando.

As ondas de calor transformam o clima em variável econômica do sistema elétrico. São Paulo poderá mostrar nos próximos dias como temperaturas atípicas alteram a curva de consumo. A Europa já mostra algo mais grave: quando o calor aumenta a demanda e reduz a geração, a meteorologia passa a influenciar diretamente a disponibilidade, preço e segurança energética.