Pedro Côrtes
Blog
Pedro Côrtes

Professor titular da Universidade de São Paulo (USP) e um dos mais renomados especialistas em Clima e Meio Ambiente do país.

Geração elétrica: reservatórios sobem, mas Sul mantém risco

Sistema melhora, mas vulnerabilidade regional limita a folga

Compartilhar matéria

Os reservatórios das hidrelétricas brasileiras encerram o verão de 2026 em condição mais robusta no agregado, mas com um desequilíbrio regional que mantém o risco elétrico no radar. Enquanto o Sudeste/Centro-Oeste — eixo central do sistema — recupera níveis e garante uma margem de segurança relevante para a estiagem, o Sul entra no período seco com armazenamento baixo, exigindo operação mais conservadora e maior dependência de geração térmica.

O resultado do verão foi, em termos nacionais, positivo. O subsistema Sudeste/Centro-Oeste, responsável pela maior capacidade de armazenamento do país, chega ao fim de março próximo de 62%, uma melhora significativa em relação ao início da estação chuvosa. O Norte e o Nordeste apresentam situação ainda mais confortável, com níveis próximos de 92% e 84%, respectivamente, refletindo afluências favoráveis ao longo do período. Esse conjunto sustenta a percepção de segurança energética no curto prazo.

O contraste está no Sul. O subsistema deve encerrar março ao redor de 33%, patamar que limita a flexibilidade operativa e exige preservação de água nos reservatórios. As afluências ficaram muito abaixo da média durante o verão, comprometendo a recomposição dos níveis e forçando o Operador Nacional do Sistema Elétrico (ONS) a adotar uma estratégia mais defensiva, com redução da geração hidrelétrica local e maior uso de térmicas e intercâmbios entre regiões.

Essa assimetria regional redefine a leitura de risco. Embora o sistema interligado nacional permita compensações entre subsistemas, a fragilidade do Sul aumenta a sensibilidade do sistema a choques climáticos e operacionais, sobretudo em um contexto de transição entre padrões climáticos globais.

No curto prazo, o outono tende a preservar parte da inércia positiva do verão, especialmente no Norte e no Nordeste, onde ainda há influência de sistemas convectivos e da Zona de Convergência Intertropical. No Sudeste/Centro-Oeste, a tendência é de estabilização seguida de queda gradual, à medida que o regime seco se estabelece. Já o Sul segue mais dependente de eventos pontuais de chuva, sem um padrão sazonal consistente de recuperação.

No inverno, o cenário se torna mais desafiador. A redução estrutural das afluências no Brasil central leva à diminuição progressiva dos níveis no Sudeste/Centro-Oeste, ainda que a partir de uma base confortável. O risco maior permanece concentrado no Sul, onde a combinação de estoques baixos e maior volatilidade climática pode prolongar a necessidade de uso de termoelétricas, com implicações diretas sobre custos de geração e tarifas.

O pano de fundo climático reforça essa leitura. A dissipação da La Niña e a transição para neutralidade do ENSO (oscilação climática do Pacífico equatorial que alterna entre El Niño, La Niña e neutralidade) reduzem a previsibilidade no curto prazo, enquanto cresce a probabilidade de formação de um El Niño no segundo semestre. Esse eventual retorno tende a favorecer chuvas no Sul e a reduzir volumes no Norte e Nordeste, alterando o equilíbrio atual entre os subsistemas. Para o Sudeste/Centro-Oeste, os impactos são menos lineares, dependendo de interações com o Atlântico e padrões regionais de circulação.

A implicação central é que o sistema entra no período seco em condição globalmente favorável, mas com vulnerabilidades localizadas que podem ganhar relevância ao longo do ano. O nível mais confortável no Sudeste/Centro-Oeste funciona como principal amortecedor de risco, enquanto Norte e Nordeste oferecem suporte adicional. Ainda assim, o baixo armazenamento no Sul limita a folga operacional e aumenta a dependência de fontes mais caras, como as termoelétricas.

O recado dos dados é inequívoco: o verão trouxe segurança, mas não uniformidade. Em 2026, o risco elétrico no Brasil não será definido pela escassez generalizada de água, e sim pela capacidade do sistema de administrar desequilíbrios regionais em um cenário climático em transição.