Pedro Côrtes
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Pedro Côrtes

Professor titular da Universidade de São Paulo (USP) e um dos mais renomados especialistas em Clima e Meio Ambiente do país.

Análise: meio ambiente e o custo crescente da omissão

O Dia Mundial do Meio Ambiente deveria servir menos para declarações simbólicas e mais para lembrar que os riscos ambientais já produzem consequências econômicas concretas e cada vez mais onerosas

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O Dia Mundial do Meio Ambiente chega aos seus 54 anos em um momento em que a discussão ambiental deixou de ocupar apenas fóruns especializados para ingressar definitivamente na agenda econômica global.

Quando a data foi criada pela ONU, em 1972, a preocupação central era alertar governos e sociedades para os impactos da degradação ambiental. Hoje, a realidade é diferente. A questão ambiental passou a influenciar investimentos, comércio internacional, infraestrutura, segurança energética e competitividade.

A mudança pode ser observada na crescente frequência de eventos climáticos extremos. Ondas de calor, secas prolongadas, incêndios florestais e enchentes passaram a provocar interrupções produtivas, perdas patrimoniais e aumento dos custos públicos e privados em diversas regiões do planeta.

O Brasil vivenciou essa realidade de forma dramática em 2024. As enchentes que atingiram o Rio Grande do Sul deixaram centenas de vítimas, afetaram milhões de pessoas e comprometeram estradas, aeroportos, áreas agrícolas, indústrias e sistemas urbanos.

O relatório “Avaliação dos Efeitos e Impactos das Inundações no Rio Grande do Sul”, divulgado em novembro de 2024, estimou que as enchentes produziram R$ 88,9 bilhões em efeitos econômicos totais no estado. O estudo utilizou a metodologia internacional DaLA (Damage and Loss Assessment), desenvolvida pela CEPAL e amplamente empregada por organismos multilaterais após grandes desastres.

O caso gaúcho também revelou uma transformação importante. O debate ambiental deixou de tratar apenas da redução de emissões e passou a incorporar a necessidade de adaptação. Em outras palavras, não basta discutir como evitar futuras mudanças climáticas; tornou-se igualmente necessário preparar cidades, sistemas produtivos e infraestruturas para enfrentar impactos que já estão ocorrendo.

Essa percepção avança rapidamente no setor privado. Seguradoras revisam modelos atuariais diante do aumento da frequência e da intensidade dos eventos extremos. Investidores incorporam variáveis climáticas em suas análises de risco, enquanto empresas reavaliam cadeias de suprimento, estratégias de expansão e planos de longo prazo. Em muitos casos, os gastos com prevenção e adaptação já se mostram inferiores aos prejuízos decorrentes da inação.

O comércio internacional acompanha essa tendência. Questões relacionadas ao desmatamento, à pegada de carbono e à rastreabilidade de produtos passaram a influenciar o acesso a mercados e a definição de investimentos. A agenda ambiental deixou de ser um diferencial reputacional para se tornar um elemento de competitividade.

Nesse contexto, o Brasil reúne condições raras. O país possui uma das matrizes energéticas mais renováveis do mundo, ampla biodiversidade, potencial para bioeconomia, produção de biocombustíveis e liderança em diversas cadeias ligadas à transição energética.

Mas essa vantagem não é permanente. Ela dependerá da capacidade de combinar crescimento econômico, inovação tecnológica e conservação ambiental. Países que conseguirem transformar seus ativos naturais em valor econômico sustentável ocuparão posições privilegiadas na economia das próximas décadas.

Por isso, o Dia Mundial do Meio Ambiente não deve ser visto apenas como uma data de conscientização. Ele funciona como um alerta sobre uma realidade cada vez mais evidente: os custos da degradação ambiental já estão sendo pagos no presente, enquanto os benefícios da prevenção continuam sendo subestimados.

A questão deixou de ser ambiental. Tornou-se econômica. E os países que compreenderem isso mais rapidamente estarão mais preparados para prosperar em um mundo definido, cada vez mais, pelo clima.