Ministério das Cidades atualiza manual sobre mapeamento de riscos
Publicação aproxima ciência, planejamento e investimento público; o desafio agora é impedir que o diagnóstico envelheça antes do próximo extremo

Um mapa de risco pode estar tecnicamente correto e, ainda assim, deixar de representar o território. Esse é um dos desafios que acompanham a nova metodologia brasileira, justamente quando o país se prepara para um El Niño potencialmente muito forte.
Um mapa de risco pode estar tecnicamente correto e, ainda assim, deixar de representar o território. Esse é um dos desafios que acompanham a nova metodologia brasileira, justamente quando o país se prepara para um El Niño potencialmente muito forte.
A mudança mais importante, porém, não é tecnológica. Está na maneira de construir o risco. Ameaça, exposição e vulnerabilidade passam a integrar uma mesma leitura do território. Uma encosta instável sem ocupação e outra tomada por moradias frágeis podem compartilhar o mesmo problema geológico, mas não representam o mesmo risco.
A metodologia organiza essas situações em diferentes graus. R2 identifica o risco médio, que exige acompanhamento e prevenção, mas ainda apresenta danos potenciais mais limitados. R3 corresponde ao risco alto, quando existe possibilidade concreta de danos significativos e são necessárias medidas de mitigação e preparação. R4 representa o risco muito alto, com possibilidade de perdas severas ou colapso e necessidade de intervenção em curto prazo, que pode incluir a remoção preventiva de moradores.
O manual procura transformar essa gradação em critério de decisão. Para inundações, alagamentos e enxurradas, o grau de perigo é cruzado com a vulnerabilidade, que considera o padrão das edificações, as condições de acesso, os serviços urbanos e a presença de equipamentos institucionais. Nos deslizamentos, entram sinais de instabilidade, possibilidade de evolução ou ruptura, alcance potencial e fragilidade das estruturas expostas.
A classificação deixa, assim, de ser apenas descritiva. Ela estabelece diferentes graus de urgência e ajuda a definir que tipo de resposta será necessário em cada área.
É nesse ponto que o mapa encontra o orçamento. Classificar risco ajuda a estabelecer onde drenagem, contenção de encostas, habitação, monitoramento e defesa civil devem receber prioridade. Em um país que ainda destina grandes esforços à resposta depois das tragédias, melhorar a capacidade de decidir antes delas tem valor humano, social e econômico.
O El Niño será um teste importante para essa lógica. A NOAA estima em 95% a probabilidade de o fenômeno alcançar intensidade muito forte no trimestre outubro–novembro–dezembro. Isso não significa que seus impactos terão intensidade equivalente, nem que uma área R2 deva ser automaticamente reclassificada como R3.
O mapa mostra as condições estruturais de risco do território. Chuva acumulada, nível dos rios, saturação do solo e novos sinais de instabilidade acrescentam outra dimensão: indicam quando aquela condição pode estar se tornando crítica. E, após um evento extremo, o próprio território que sustentava o diagnóstico pode ter mudado.
O manual reconhece esse problema. Adverte que alterações no ambiente urbano podem tornar classificações hidrológicas desatualizadas sem revisões periódicas e apresenta métodos quantitativos capazes de simular eventos que não aparecem no histórico observado, inclusive em cenários de mudanças climáticas.
O maior avanço, portanto, não é decidir se uma área é R2, R3 ou R4. É criar uma linguagem comum capaz de transformar risco em decisão pública. Isso aproxima ciência, planejamento urbano e investimento.
A questão que permanece é a velocidade. Se cidades e clima estão mudando, produzir mapas melhores não será suficiente. Será preciso atualizá-los antes que o território mude de novo.



