Pedro Côrtes
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Pedro Côrtes

Professor titular da Universidade de São Paulo (USP) e um dos mais renomados especialistas em Clima e Meio Ambiente do país.

Análise: El Niño impulsiona cheias no RS e cobra prevenção

Órgãos oficiais confirmam a influência do fenômeno, enquanto vulnerabilidades ampliam os prejuízos no Rio Grande do Sul

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Mais de 200 milímetros de chuva em 72 horas nas cabeceiras do Taquari ajudam a explicar por que o rio permaneceu elevado mesmo após a redução das precipitações. Segundo o Serviço Geológico do Brasil, o SGB, a água acumulada no Planalto e na Serra continuou avançando pelos afluentes. Em uma cheia, a trégua no céu não produz alívio imediato nos vales.

A Defesa Civil do Rio Grande do Sul alertou que os volumes registrados nas nascentes dos rios Guaporé, Carreiro e da Prata continuariam alimentando o Taquari. O órgão também projetou elevação gradual do Guaíba, resultado do tempo necessário para a água percorrer as bacias e alcançar a Região Metropolitana.

O Taquari ultrapassou a cota de inundação em diferentes municípios, enquanto o Caí apresentou comportamento semelhante. Nos trechos superiores, alguns pontos começaram a estabilizar ou recuar; mais abaixo, a onda de cheia ainda avançava. Esse deslocamento confirma que a redução da chuva não encerra imediatamente o risco hidrológico.

A sequência atual de chuvas não pode ser dissociada do El Niño. O fenômeno funcionou como o principal propulsor climático do episódio, ao reorganizar a circulação atmosférica e favorecer a repetição e a permanência de sistemas de chuva sobre o Rio Grande do Sul.

O Instituto Nacional de Meteorologia, o Inmet, informou em 14 de julho que já observava a consolidação de padrões atmosféricos típicos do El Niño, favorecendo as chuvas na Região Sul. Entre esses padrões está o fortalecimento dos jatos de baixos níveis, correntes de vento que transportam umidade das áreas tropicais para o Sul do país.

Frentes frias, áreas de baixa pressão e corredores de umidade são os mecanismos meteorológicos imediatos. O El Niño atua em escala maior, criando condições para que esses sistemas se tornem mais frequentes, persistentes e carregados de vapor. Chamá-lo de propulsor não reduz seu peso causal; apenas evita tratá-lo como agente único.

O Cemaden também advertiu que o El Niño de 2026 e 2027 tende a elevar o risco de chuvas extremas, enchentes, enxurradas e deslizamentos no Sul. Em nota técnica específica sobre o Rio Grande do Sul, o órgão ressaltou que o fenômeno não provoca sozinho um desastre, mas aumenta significativamente a probabilidade de eventos extremos, especialmente em áreas vulneráveis.

A situação atual materializa esse risco. O El Niño produziu o ambiente climático favorável às chuvas persistentes; a sucessão de frentes, o transporte de umidade e as áreas de baixa pressão transformaram esse potencial em precipitação; e o solo saturado acelerou o escoamento para rios e arroios.

Essa hierarquia causal é importante. Negar a influência decisiva do El Niño levaria a uma leitura incompleta do episódio. Atribuir tudo exclusivamente ao fenômeno, por outro lado, esconderia o papel da ocupação das margens, da drenagem urbana insuficiente, das encostas instáveis e de uma infraestrutura ainda pouco adaptada ao novo padrão de extremos.

Depois da catástrofe de 2024, o Rio Grande do Sul não pode medir sua preparação apenas pela velocidade dos alertas, pela abertura de abrigos ou pelas retiradas emergenciais. Essas ações salvam vidas, mas pertencem à resposta ao desastre. A prevenção começa antes da sirene.

O custo econômico aparece rapidamente. Rodovias bloqueadas atrasam cargas, propriedades rurais ficam isoladas, indústrias perdem insumos e municípios desviam recursos para socorro e reconstrução. Famílias e empresas acumulam prejuízos nem sempre cobertos por seguros. A recorrência das enchentes afeta crédito, investimento, arrecadação e o valor de imóveis em áreas expostas.

A resposta estrutural precisa ser organizada por bacia hidrográfica. Monitoramento, uso do solo, proteção de encostas, manutenção de pontes e planos de evacuação devem funcionar de forma integrada. Os dados produzidos pelo SGB, pelo Inmet, pelo Cemaden e pela Defesa Civil precisam estar ligados a protocolos objetivos para fechar estradas, suspender aulas, retirar pacientes e remover famílias.

O fortalecimento previsto do El Niño indica que o episódio atual pode não ser isolado. Isso não significa que todas as próximas chuvas produzirão desastres da mesma dimensão, mas exige planejamento para novas sequências de precipitação intensa ao longo dos próximos meses. O fenômeno produz a ameaça; as escolhas humanas determinam quanto dela será convertido em desastre.