Vendaval: El Niño cobra um plano urbano à altura do risco
Pacote federal protege estoques e reforça o combate ao fogo, mas ainda não enfrenta a vulnerabilidade exposta no Rio e em São Paulo
O Brasil anunciou R$ 1,335 bilhão para enfrentar os efeitos do El Niño no mesmo dia em que ventos violentos deixaram mortos, derrubaram árvores e comprometeram energia e transportes no Rio de Janeiro e em São Paulo. A coincidência expôs uma contradição: o governo começou a se antecipar ao fenômeno, mas nossas cidades continuam estruturadas para um clima que já não existe. No Rio, a rajada chegou a superar 100 quilômetros por hora no Galeão.
A interrupção de energia atingiu bairros, paralisou metrô e trens e afetou aeroportos. Em São Paulo, os ventos superaram 120 quilômetros por hora em Itaporanga e Itaí, provocando mortes, destelhamentos e quedas de árvores. A frente fria foi o gatilho meteorológico.
Na leitura climatológica que sustento, porém, a intensidade do evento não pode ser dissociada do El Niño. O aquecimento do Pacífico Equatorial reorganiza a circulação atmosférica, fortalece o jato subtropical e altera a trajetória dos sistemas que avançam pelo centro-sul do Brasil. Isso não significa que o El Niño tenha provocado isoladamente cada dano, mas que ajudou a criar condições para o sistema frontal ganhar intensidade.
As mudanças climáticas atuam em escala mais ampla, alterando o ambiente sobre o qual esses extremos se desenvolvem. A meteorologia explica a ventania. A vulnerabilidade urbana explica por que ela se transformou em crise sistêmica. Quando uma árvore derruba a rede elétrica, a falta de energia paralisa transportes, compromete aeroportos e afeta hospitais e empresas. O dano se propaga por serviços interdependentes. O pacote federal tem direção correta.
Dos R$ 1,335 bilhão anunciados, R$ 850 milhões financiarão a compra de 180 mil toneladas de milho e 310 mil toneladas de arroz. Outros R$ 337 milhões serão destinados à fiscalização ambiental e ao combate aos incêndios florestais. Também haverá recursos para cestas de alimentos, agricultura familiar, saúde e monitoramento dos rios. Essas medidas reduzem riscos de desabastecimento, pressão sobre os preços e crises humanitárias. Não são, entretanto, suficientes para proteger as cidades.
O plano não apresenta uma frente proporcional para redes elétricas resilientes, manejo de árvores, drenagem, contenção de encostas, geradores para serviços essenciais ou fortalecimento das Defesas Civis municipais. O novo pacote não representa todo o esforço federal.
Desde 2023, o governo contabiliza R$ 8,9 bilhões destinados à Defesa Civil. Há ainda R$ 521 milhões do Fundo Amazônia para prevenção e combate a incêndios e R$ 10,2 bilhões do Novo PAC para segurança hídrica no Nordeste. Esses valores, porém, atendem a objetivos distintos e não podem ser tratados como recursos disponíveis para a adaptação urbana ao atual El Niño.
Prejuízo financeiro e ambiental
Segundo o Relatório sobre Clima e Desenvolvimento para o Brasil, do Banco Mundial, as perdas reportadas por eventos climáticos entre 1995 e 2019 superaram, em média, R$ 13,33 bilhões por ano. É necessário considerar que o custo real é provavelmente maior, porque nem todos os prejuízos chegam aos registros federais. Também seria incorreto atribuir toda a responsabilidade à União. Estados administram estruturas regionais; prefeituras cuidam do uso do solo, da drenagem e da arborização; concessionárias operam energia e transportes. O problema está na fragmentação: cada instituição administra sua parte, enquanto o cidadão enfrenta uma única crise.
Cabe ao governo federal coordenar essa estrutura, estabelecer padrões de resiliência, financiar os municípios mais vulneráveis e condicionar repasses a mapas de risco, cronogramas e resultados verificáveis. Concessionárias precisam demonstrar que suas redes e protocolos são compatíveis com a nova realidade climática.
O pacote é um começo responsável, mas não constitui uma política urbana à altura do El Niño e das mudanças climáticas. O país recebeu da ciência algo raro na gestão de desastres: antecedência. Há tempo para reforçar redes, limpar drenagens, preparar hospitais e proteger comunidades vulneráveis. O próximo evento extremo virá. A dimensão de seus danos dependerá das decisões tomadas agora.



