Pedro Côrtes
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Pedro Côrtes

Professor titular da Universidade de São Paulo (USP) e um dos mais renomados especialistas em Clima e Meio Ambiente do país.

COP30

COP30: Conferência de Bonn foi só o aquecimento. Embate real será em Belém

Negociações técnicas avançaram em temas-chave, mas os impasses políticos que definem o futuro do clima foram apenas adiados

Terceiro dia da Conferência Climática de Bonn  • Credit: Isabela Castilho | COP30 Brasil Amazônia
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Realizada entre 16 e 26 de junho de 2025, a Conferência de Bonn (SB62) funcionou como etapa preparatória da COP30, marcada para ocorrer em Belém. O encontro reuniu os dois principais órgãos técnicos da Convenção-Quadro das Nações Unidas sobre a Mudança do Clima (UNFCCC), o SBI, responsável pela implementação prática dos acordos, e o SBSTA, que oferece suporte científico e tecnológico.

A reunião teve como foco avançar em temas operacionais pendentes da COP29, realizada em Bacu, buscando consensos e bases técnicas para as negociações políticas do segundo semestre. Embora sem caráter decisório, a SB62 foi essencial para preparar bases técnicas que poderão ser aprovadas na COP30, vista como um possível marco do novo ciclo global de ação climática.

Vista como prévia da COP30, a SB62 avançou em temas técnicos, mas adiou os principais embates sobre mitigação e transição justa, que devem ser enfrentados em Belém.

Obras para COP30 Brasil Amazônia, na Cidade de Belém, no Pará. Foto: Rafa Neddermeyer/COP30 Brasil Amazônia/PR
Obras para COP30 Brasil Amazônia, na Cidade de Belém, no Pará. Foto: Rafa Neddermeyer/COP30 Brasil Amazônia/PR

Mitigação: impasses entre países e proposta brasileira

O Programa de Trabalho de Mitigação (Mitigation Work Programme – MWP) continuou sendo um dos temas mais polarizadores da conferência. Países do grupo LMDC (Like-Minded Developing Countries ou Países em Desenvolvimento com Pensamentos Semelhantes) e da coalizão árabe resistiram a qualquer tipo de imposição de métricas obrigatórias que pudessem implicar novos encargos legais.

O grupo LMDC defende o princípio das responsabilidades comuns, porém diferenciadas, e pressiona para que os países desenvolvidos arquem com a maior parte das ações de mitigação e do financiamento climático. Em contraste, pequenos Estados insulares (AOSIS), países latino-americanos e desenvolvidos defenderam a inclusão de metas mais ambiciosas com parâmetros mensuráveis.

Apesar da divergência, foi aprovada uma proposta brasileira que cria uma plataforma digital para conectar projetos de mitigação a oportunidades de financiamento, considerada uma inovação pragmática no tema. O uso de métricas, porém, segue em debate.

Global Stocktake: diagnóstico sem acordo político

O Global Stocktake (GST) – ou Balanço Geral – é um instrumento da ONU que avalia regularmente o progresso das metas do Acordo de Paris. Durante a reunião em Bonn, a intenção era traduzir os resultados do GST, que indicam que o planeta está fora da trajetória necessária para limitar o aquecimento global a 1,5 °C, em medidas concretas nos campos da mitigação, adaptação, perdas e danos e apoio à implementação.

Contudo, os países não chegaram a um acordo sobre o formato ou escopo dessas ações. Com isso, a proposta de oficializar compromissos foi retirada e as discussões foram adiadas para a COP30, revelando a dificuldade de transformar diagnósticos técnicos em decisões políticas.

Financiamento: nova meta pode chegar a US$ 1,3 trilhão

A SB62 representou um avanço importante na construção do chamado “roteiro de Bacu a Belém” — uma trajetória que busca definir um novo compromisso financeiro internacional a partir de 2025. Durante as discussões, ainda sem uma decisão final, foi sugerida a meta de mobilizar US$ 1,3 trilhão por ano até 2035, com pelo menos US$ 300 bilhões vindos de recursos públicos de países desenvolvidos.

A ideia é que esse volume de recursos seja destinado, de maneira equilibrada, a reduzir emissões (mitigação), fortalecer a adaptação aos impactos climáticos e lidar com perdas e danos já causados. Um entendimento comum entre os países é que esse novo compromisso precisa ser mais ambicioso, previsível e transparente do que o anterior (a meta dos US$ 100 bilhões anuais, que foi anunciada há mais de uma década, mas jamais cumprida integralmente).

Adaptação: indicadores avançam, mas ainda sem consenso

Um dos principais avanços da SB62 foi o desenvolvimento de uma metodologia para medir o progresso da Meta Global de Adaptação (GGA), como previsto no Acordo de Paris. Um grupo de especialistas propôs até 100 indicadores, que ajudam a avaliar a capacidade de adaptação, a redução da vulnerabilidade, a resiliência das populações e a eficácia das políticas públicas voltadas ao clima.

Esses indicadores também devem considerar, de forma integrada, questões como gênero, justiça climática, saberes indígenas e participação das comunidades. As propostas ainda passarão por revisão técnica e política durante a COP30, com a meta de aprovar um modelo de acompanhamento que seja global, mas flexível, respeitando as realidades de cada país.

UNFCCC: alerta sobre insuficiência das ações atuais

Segundo Simon Stiell, da UNFCCC, os avanços atuais não bastam para manter a meta de 1,5 °C. Ele reconhece progressos técnicos, mas alerta que os grandes impasses, como mitigação e financiamento, seguem sem solução.

Para ele, o sucesso da COP30 depende de decisões realmente transformadoras, capazes de alinhar os compromissos nacionais ao que foi diagnosticado no Balanço Global e de viabilizar ações concretas com impacto real. O recado final é claro: a conferência de Belém precisa ser mais que um evento simbólico, ela deve se tornar o novo ponto de virada da diplomacia climática global. A mensagem reforça o papel da COP30 como possível “nova Paris”.