Pedro Côrtes
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Pedro Côrtes

Professor titular da Universidade de São Paulo (USP) e um dos mais renomados especialistas em Clima e Meio Ambiente do país.

COP30: impasses, avanços e o teste político decisivo em Belém

A conferência entra na semana decisiva cercada por obstáculos no financiamento climático e metas de redução, enquanto o Brasil tenta costurar convergência entre blocos

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A primeira semana da COP30 expôs as dissonâncias que estruturam a governança climática global. Os avanços registrados, especialmente em tecnologia, saúde e proteção florestal, revelam capacidade de cooperação quando há interesses alinhados.

Mas os grandes temas que determinam o ritmo e a escala da transição climática expõem discordâncias importantes relacionadas ao financiamento climático e ampliação das ambições de redução de emissões. É um quadro que não surpreende observadores experientes, mas que ressalta a magnitude dos desafios enfrentados pela conferência sediada em Belém.

O bloqueio mais sensível recai sobre o financiamento climático. Na prática, discute-se quem pagará a conta da adaptação climática e da transição energética e em que velocidade. Os países em desenvolvimento insistem na interpretação rígida do artigo 9.1 do Acordo de Paris, que obriga nações ricas a prover recursos para mitigação e adaptação.

Os países desenvolvidos, por sua vez, preferem uma abordagem gradual, com instrumentos híbridos, metas flexíveis e integração de capital privado. O desacordo reflete não somente divergências técnicas, mas visões distintas sobre justiça climática, responsabilidade histórica e prioridades econômicas.

 

A presidência da COP reconheceu a dimensão do impasse ao propor um programa de trabalho de três anos, um indicativo de que o consenso está distante. A segunda tensão envolve ambição, transparência e periodicidade das metas nacionais. Países desenvolvidos pressionam por ciclos mais rígidos de atualização de NDCs e por sistemas de monitoramento mais detalhados.

Países em desenvolvimento, por sua vez, alertam que metas aceleradas sem financiamento adequado apenas ampliam desigualdades e podem comprometer agendas domésticas de crescimento. Essa assimetria é antiga, mas retorna com força nesta COP, justamente ao completarmos dez anos do Acordo de Paris.
O protecionismo climático também foi tema da primeira semana.

O “EU Deforestation Regulation”, por exemplo, procura garantir que os produtos consumidos na União Europeia não sejam oriundos de áreas desmatadas ilegalmente ou que tenham sofrido processo de degradação florestal, algo nem sempre fácil de determinar. Há o temor de que esse tipo de mecanismo possa ser usado como uma forma de protecionismo disfarçado.

Os países em desenvolvimento argumentam que têm dificuldade em receber recursos para o financiamento climático e, com esses mecanismos, podem também ser impedidos de acessar mercados importantes. Isso criaria dificuldades ainda maiores para o desenvolvimento de projetos de adaptação climática.

Segunda semana

Apesar desses impasses, a segunda semana oferece uma janela política para avanços. A chegada de ministros de Estado desloca o centro de gravidade das negociações: sai o tecnicismo das propostas e entra a diplomacia de alto nível, um ambiente onde articulações e compromissos passam a ser possíveis.

Em conferências anteriores, foi esse momento que permitiu destravar consensos improváveis. Se o passado servir de guia, a presença dos ministros pode reposicionar temas como financiamento e ambições climáticas.

O Brasil tenta aproveitar essa transição para exercer um papel de ponte. Ao propor uma reflexão sobre o Acordo de Paris e a distância entre ambição e implementação, busca oferecer um ponto de convergência.

A estratégia é coerente com a tradição diplomática brasileira: moderar tensões Norte-Sul, abrir espaço para diálogo e fortalecer a legitimidade do processo multilateral. Mas o êxito dependerá de até que ponto os grandes emissores — e possíveis financiadores — estão dispostos a ajustar posições.

Há dois indicadores claros para acompanhar nos próximos dias. O primeiro é a qualidade dos novos rascunhos: textos mais objetivos sinalizam avanço real, enquanto versões vagas revelam paralisia.

O segundo é a chegada de anúncios concretos sobre aportes financeiros e metas de redução de emissões. Sem esses sinais, a COP30 pode encerrar seus trabalhos repetindo a distância crônica entre discurso e entrega.

Belém se torna, portanto, o palco de um teste decisivo. A conferência precisa demonstrar que consegue produzir convergência política em um mundo fragmentado. O saldo desta segunda semana dirá muito sobre o futuro da governança climática e sobre a capacidade coletiva de enfrentar a maior crise do nosso tempo.