Análise: Cantareira chega à primavera com pouca reserva
Vazões ainda fracas e retiradas elevadas aumentam a dependência da próxima estação chuvosa
O Cantareira, principal sistema de abastecimento da Região Metropolitana de São Paulo, entra em setembro com 32,99% do volume útil, segundo a ANA e a SP Águas. Em apenas um mês, perdeu quase quatro pontos percentuais e permanece na faixa de Alerta. Agosto teve chuva praticamente dentro da média histórica, mas isso não interrompeu a queda dos reservatórios.
A recuperação de fevereiro e março evitou um quadro muito mais crítico. O armazenamento, que havia chegado a níveis próximos de 20%, voltou a superar 40%. Naquele momento, as vazões responderam às chuvas. Nos meses seguintes, porém, perderam força e permaneceram abaixo do comportamento histórico.
Esse é hoje o indicador que merece maior atenção. Uma chuva próxima da média durante a estação seca representa pouco em termos absolutos e pode ter efeito limitado sobre os rios. Em agosto, a precipitação ficou praticamente dentro do esperado para o mês, enquanto a vazão natural que abastece o sistema continuou deprimida.
A resposta depende da regularidade e da distribuição das chuvas, da umidade dos solos, da evapotranspiração e das condições acumuladas da bacia. Após uma sequência deficitária, precipitações isoladas podem melhorar o acumulado mensal sem recompor na mesma velocidade a água que efetivamente chega aos reservatórios.
O boletim n.º 119 do Cemaden reforça esse diagnóstico. Entre abril e julho, a chuva alcançou 90% da média do período, enquanto a vazão afluente (água que chega ao sistema) ficou em apenas 66%. Na escala dos últimos 12 meses, o órgão ainda classificava a condição como seca moderada.
O clima, contudo, conta apenas parte da história. O Cemaden destaca que as retiradas do Cantareira ao longo de 2025 ficaram aproximadamente 30% acima da média praticada entre 2016 e 2023. Quando a entrada de água diminui, retiradas maiores aceleram a perda do estoque e reduzem a margem para enfrentar períodos desfavoráveis.
As simulações do Cemaden mostram o tamanho dessa margem. Em um cenário de precipitações dentro da média histórica, o Cantareira terminaria dezembro com cerca de 41% do volume útil. Haveria recuperação, mas o sistema permaneceria na faixa de Atenção.
Esse número não é uma previsão meteorológica. É resultado de uma simulação hidrológica que testa diferentes cenários de chuva e condições de operação. Sua principal mensagem está menos no valor exato e mais na sensibilidade do reservatório ao desempenho da próxima estação chuvosa.
O Cantareira entra, portanto, no momento decisivo do ano sem ter recomposto uma reserva confortável. Fevereiro e março compraram tempo. Agora, a evolução dependerá da capacidade das chuvas da primavera de produzir vazões consistentes e da disciplina na gestão das retiradas.
Nos próximos meses — sobretudo até dezembro — teremos o teste mais importante. Se os rios responderem rapidamente, o sistema poderá reconstruir parte da margem perdida. Se as vazões continuarem fracas, o problema deixará de ser apenas o nível baixo de 2026: será a condição em que o Cantareira entrará em 2027.



