Pedro Côrtes
Blog
Pedro Côrtes

Professor titular da Universidade de São Paulo (USP) e um dos mais renomados especialistas em Clima e Meio Ambiente do país.

Antibióticos no Rio Piracicaba expõem lacuna regulatória

Estudo da USP identifica contaminação recorrente e reacende debate sobre poluentes emergentes, limites do saneamento e riscos sanitários de longo prazo

Compartilhar matéria

A presença de antibióticos no Rio Piracicaba, confirmada por pesquisa da USP (Universidade de São Paulo), recoloca no centro do debate um problema menos visível — e potencialmente mais persistente — da agenda ambiental: a incapacidade dos sistemas atuais de saneamento de lidar com contaminantes de nova geração.

O estudo, conduzido pelo Centro de Energia Nuclear na Agricultura, identificou resíduos de diferentes classes de antibióticos em amostras de água, sedimentos e organismos aquáticos ao longo do rio. As concentrações variam conforme o regime hidrológico, com tendência de maior detecção em períodos de menor vazão, quando a capacidade de diluição é reduzida.

Não se trata de um evento isolado. A literatura científica já aponta que compostos farmacêuticos vêm sendo continuamente introduzidos em sistemas hídricos por múltiplas vias — do esgoto doméstico ao uso veterinário. O que o caso do Piracicaba evidencia, com maior nitidez, é a escala e a persistência desse processo em um contexto real.

O risco associado é bem estabelecido, mas frequentemente mal dimensionado. A exposição ambiental a antibióticos pode favorecer a seleção de microrganismos resistentes, um fenômeno reconhecido globalmente como ameaça crescente à saúde pública.

No estudo paulista, foram observados efeitos biológicos em organismos aquáticos expostos a determinados compostos, em condições controladas, o que reforça a necessidade de cautela na extrapolação para o ecossistema como um todo.

É nesse ponto que a discussão deixa de ser estritamente ambiental. A resistência antimicrobiana carrega implicações econômicas diretas — do aumento de custos hospitalares à perda de eficácia de tratamentos — e tende a ganhar relevância regulatória à medida que os impactos se tornam mais mensuráveis.

O trabalho da USP também explora uma via alternativa de mitigação: o uso da macrófita aquática Salvinia auriculata para remoção de parte desses contaminantes. Ensaios indicaram redução significativa de alguns antibióticos e atenuação de efeitos biológicos em organismos expostos. Mas o resultado, embora promissor, está longe de ser uma solução universal.

A eficiência varia entre compostos, e o próprio processo altera a dinâmica química do sistema, exigindo monitoramento rigoroso. Além disso, a biomassa vegetal contaminada precisa ser adequadamente manejada para evitar reintrodução dos poluentes. Em outras palavras, trata-se de uma ferramenta potencial, não de um substituto para infraestrutura.

O ponto mais sensível, portanto, é institucional. Antibióticos integram o grupo dos chamados poluentes emergentes — substâncias ainda pouco contempladas por padrões regulatórios e rotinas de monitoramento. Isso cria uma zona cinzenta: mede-se pouco, regula-se menos e, na prática, responde-se de forma fragmentada.

No Brasil, o avanço recente do saneamento ampliou a cobertura e os investimentos, mas não necessariamente incorporou tecnologias capazes de remover micropoluentes. Estações convencionais foram projetadas para carga orgânica e patógenos, não para compostos farmacêuticos de baixa concentração e alta persistência.

A consequência é um descompasso crescente entre o que se trata e o que de fato se precisa tratar. Esse hiato regulatório tende a se estreitar nos próximos anos, pressionado por três vetores.

O primeiro é a incorporação de novos parâmetros de qualidade da água. O segundo envolve a atualização tecnológica das estações de tratamento, com impactos sobre custos e tarifas. O terceiro, mais sensível, recai sobre a origem do problema: o controle do uso e descarte de antibióticos em cadeias urbanas e agropecuárias.

O caso do Piracicaba não é, portanto, uma anomalia. É um indicativo. Ele sugere que a próxima fronteira da gestão hídrica não estará apenas na expansão da infraestrutura, mas na sua sofisticação — e na capacidade de antecipar riscos que ainda não estão plenamente refletidos nas normas, nos preços ou na percepção pública.