Pedro Côrtes
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Pedro Côrtes

Professor titular da Universidade de São Paulo (USP) e um dos mais renomados especialistas em Clima e Meio Ambiente do país.

Tornado no Sul: trégua não elimina novo risco

Tempo firme até sexta antecede o retorno de temporais com granizo e rajadas acima de 90 km/h no sábado

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Dois dias de estabilidade não encerram o risco evidenciado pelo tornado que atingiu o Noroeste gaúcho. Quinta-feira (30) e sexta-feira (31) devem ter predomínio de tempo firme, mas uma nova rodada de tempestades poderá alcançar o Rio Grande do Sul no sábado.

O tornado passou por áreas rurais de Giruá, Sete de Setembro e Senador Salgado Filho por volta das 18h25 de terça-feira. Segundo a Defesa Civil gaúcha, o fenômeno esteve associado a uma supercélula, tempestade organizada em torno de uma corrente ascendente com rotação. O alerta para tempestade severa, granizo e rajadas intensas havia sido emitido às 17h14.

De acordo com a Defesa Civil, o radar instalado em Chapecó estava a cerca de 200 quilômetros da tempestade — distância que não deve ser confundida com a separação entre os centros urbanos. Nessa posição, o feixe mais baixo do radar passava a mais de 4,5 quilômetros de altura sobre a região atingida. O equipamento acompanhava as partes superiores da supercélula, mas tinha dificuldade para identificar a circulação próxima à superfície.

 

A limitação não impediu o aviso geral de tempo severo, mas reduziu a possibilidade de transformá-lo em uma advertência específica para tornado. Em fenômenos que evoluem em minutos, observar os níveis mais baixos da atmosfera pode ampliar o tempo disponível para buscar proteção. Na quinta-feira, o INMET prevê estabilidade no Rio Grande do Sul e em grande parte de Santa Catarina. As instabilidades devem se concentrar no oeste do Paraná, alcançando uma faixa limitada do extremo oeste catarinense.

A Defesa Civil de Santa Catarina apresenta cenário ainda mais estável e não identifica risco significativo de ocorrências no estado. A diferença decorre de modelos, escalas territoriais e critérios de alerta distintos. Na sexta-feira, o tempo firme continuará predominando, embora o fortalecimento do Jato de Baixos Níveis possa elevar a velocidade das rajadas em áreas dos três estados. Vento forte, porém, não significa tornado. Vendavais podem atingir áreas extensas, enquanto o tornado depende de uma circulação concentrada dentro da tempestade e conectada à superfície. A mudança mais importante começa no sábado.

A Defesa Civil gaúcha prevê chuva forte, granizo e rajadas que podem superar 90 quilômetros por hora. O risco alcança Oeste, Campanha, Sul, Centro, Missões, Noroeste, Norte, Vales e Costa Doce. Em Santa Catarina, as instabilidades devem avançar à tarde e, principalmente, à noite, começando pelas áreas próximas à divisa gaúcha. Nenhum boletim prevê um novo tornado. As condições indicam potencial para tempestades perigosas, mas não confirmam que haverá rotação suficiente para formar outro vórtice. A meteorologia consegue antecipar regiões favoráveis ao tempo severo.

Determinar com dias de antecedência o local e o horário exatos de um tornado continua sendo muito mais difícil. Essa diferença deve orientar a comunicação. Tratar possibilidade como certeza produz alarmismo; interpretar a ausência de previsão específica como risco zero cria falsa segurança. Radares e sistemas rápidos de aviso também são infraestrutura econômica. Tempestades severas interrompem energia, estradas, telecomunicações e cadeias produtivas, além de atingir moradias, lavouras e rebanhos.

As próximas horas oferecem uma janela para preparação. Prefeituras, concessionárias, cooperativas, propriedades rurais e serviços de emergência precisam revisar protocolos e assegurar que os alertas cheguem às comunidades mais afastadas. O risco diminui na quinta e na sexta-feira, mas volta a exigir vigilância no sábado. A trégua não elimina a ameaça; oferece tempo para que o próximo alerta encontre uma população mais preparada.