Umidade e correntes de vento formaram tornado no RS
Analista de Clima e Meio Ambiente da CNN, Pedro Côrtes, explica, ao CNN Novo Dia, como fenômeno que atingiu ao menos quatro municípios se formou
Um tornado atingiu ao menos quatro cidades no noroeste do Rio Grande do Sul na tarde de terça-feira (28), deixando um rastro de destruição e feridos. O fenômeno não foi identificado previamente pelo sistema de monitoramento da Defesa Civil estadual, surpreendendo moradores das localidades afetadas. O analista de Clima e Meio Ambiente da CNN, Pedro Côrtes, explicou, ao CNN Novo Dia, como ocorreu a formação do tornado.
O tornado ocorreu por volta das 18h30 e atingiu principalmente o município de Giruá (RS), além de Sete de Setembro (RS) e Senador Salgado Filho (RS). Moradores das regiões gravaram a formação do fenômeno, que destruiu casas e causou danos a outras edificações. O balanço parcial apontou ao menos quatro pessoas feridas em decorrência da passagem do tornado.
Supercélula e ventos cisalhantes
Segundo informações da Defesa Civil, o tornado ocorreu associado a uma "supercélula", um tipo de tempestade caracterizado por uma corrente ascendente giratória. O órgão explicou que esse tipo de tempestade comumente provoca granizo de grande porte e rajadas de vento, mas que, nesse caso, também gerou um tornado.
O analista de Clima e Meio Ambiente da CNN, Pedro Côrtes, explicou que a combinação de umidade e ventos cisalhantes — ventos que sopram em diferentes camadas e direções — favoreceu a formação da "supercélula" e, consequentemente, do tornado.
"A gente tem a entrada de umidade e ventos que sopram em diferentes camadas, em diferentes direções, e isso pode favorecer o que a gente chama de 'supercélula', que acaba gerando o tornado", afirmou Pedro Côrtes.
Em Giruá (RS), as comunidades mais afetadas foram Rincão dos Coimbras, Rincão dos Melos, Rincão dos Ribeiros, Amaral e Melgarejo. As defesas civis estadual e municipais foram acionadas para prestar apoio à população e contabilizar os danos, que ainda estavam sendo levantados na manhã seguinte ao ocorrido, já que o fenômeno aconteceu no início da noite.
Intensidade ainda a ser avaliada
Pedro Côrtes destacou que a intensidade do tornado na Escala Fujita só poderia ser determinada após a avaliação do rastro de destruição deixado pelo fenômeno. "Dificilmente durante a ocorrência do tornado a gente tem uma real dimensão da intensidade", explicou.
Ainda assim, com base nas imagens registradas, o analista avaliou que "não foi algo pequeno, foi algo de média a alta intensidade".
Pedro Côrtes alertou ainda que a ocorrência de tornados no Sul do Brasil tem se tornado cada vez mais frequente, associada às mudanças climáticas e à condição de El Niño.
Para o período entre esta quarta-feira (29) e quinta-feira (30), está prevista uma linha de tempestades no oeste do Rio Grande do Sul, com possibilidade de avanço para o oeste de Santa Catarina e o Paraná, com risco de novos tornados ou chuva forte com granizo.
Cidades brasileiras sem preparo para o fenômeno
O analista de Clima e Meio Ambiente também ressaltou a vulnerabilidade das construções brasileiras diante desse tipo de evento. "Muitas construções, tradicionalmente no Sul do país, são construções de madeira. Elas não estão preparadas, obviamente, para esse tipo de evento", afirmou Pedro Côrtes.
Ele citou o exemplo dos Estados Unidos, onde sistemas de alerta e abrigos no subsolo das residências são comuns nas regiões sujeitas a tornados, e defendeu que o Brasil precisa internalizar esse tipo de ocorrência para que os alertas possam ser emitidos com maior antecedência.
Além do tornado, outros municípios gaúchos registraram ocorrências por causa dos temporais dos últimos dias. Em Porto Alegre (RS), árvores e postes caíram em diferentes pontos da cidade.
Em Lajeado (RS), o Rio Taquari atingiu a cota de inundação, e a previsão era de mais 150 milímetros de chuva para esta quarta-feira (29), mantendo o estado em situação de alerta para deslizamentos e alagamentos.