Governo vê pressão bolsonarista em debate dos EUA sobre facções terroristas
Lula buscará outras formas de discutir o crime organizado em reunião com Trump para evitar afronta à soberania e constrangimentos diplomáticos
Integrantes do governo Lula avaliam que a discussão sobre a possibilidade de os Estados Unidos classificarem facções criminosas brasileiras como organizações terroristas surgiu por pressão do grupo liderado por Eduardo e Flávio Bolsonaro junto à ala mais ideológica do governo Donald Trump.
Fontes ouvidas pela CNN afirmaram que o presidente Lula está disposto a discutir o combate ao crime organizado com os Estados Unidos, inclusive ampliando mecanismos de cooperação entre os países no encontro com Trump nesta quinta-feira (7). Mas o governo brasileiro não vê sinais concretos de que a Casa Branca tenha tomado uma decisão sobre designar facções criminosas como o PCC (Primeiro Comando da Capital) e o CV (Comando Vermelho) na lista de grupos terroristas.
Um interlocutor classificou o debate como um “balão de ensaio” lançado para provocar tensões entre os dois governos. A principal estratégia da diplomacia brasileira para a reunião entre Trump e Lula é "reduzir ruídos" e reparar "curto-circuitos" na relação Brasil-EUA.
Na avaliação do governo, o assunto sobre a designação de facções como terrorismo foi pautado pelo mesmo grupo bolsonarista que pressionou o governo Trump a aplicar o tarifaço mais duro sobre o Brasil em julho de 2025, em meio ao julgamento do ex-presidente Jair Bolsonaro.
Historicamente, o Brasil considera que há diferenças importantes entre organizações criminosas e grupos terroristas, tanto do ponto de vista jurídico quanto diplomático.
Segundo fontes do Itamaraty, uma eventual classificação dos grupos como terroristas pelos EUA abriria espaço para uma atuação mais agressiva de Washington no sistema financeiro brasileiro e para punições contra indivíduos ligados às facções, o que gera preocupação no governo brasileiro por questões de soberania. Se a medida fosse levada adiante, poderia ser interpretada como uma afronta.
Além disso, interlocutores avaliam que a medida teria impacto político interno, fortalecendo o discurso da direita na pauta de segurança pública.
O governo Trump tem ampliado o uso da classificação de terrorismo contra grupos criminosos na América Latina dentro da estratégia de combate ao narcotráfico. Segundo uma apuração do jornal americano New York Times, autoridades americanas estudaram incluir facções brasileiras nessa política, mas a Casa Branca ainda não anunciou qualquer medida oficial.
Em março, o secretário de Estado Marco Rubio comunicou ao chanceler Mauro Vieira que Washington pretendia incluir facções brasileiras na lista de organizações terroristas durante uma cúpula com líderes latino-americanos.
Apesar da preocupação, auxiliares de Lula buscam minimizar o assunto e dizem acreditar que o tema pode ser tratado de maneira técnica, caso seja evocado na reunião em Washington.
Uma das estratégias de Lula seria propor uma outra abordagem no âmbito das discussões sobre crime organizado.
Segundo apuração do diretor da CNN em Brasília, Daniel Rittner, o presidente brasileiro deve pedir a Trump ajuda dos Estados Unidos na prisão do empresário brasileiro Ricardo Magro. O dono do grupo Refit controla a refinaria de Manguinhos (RJ) e é acusado pela Polícia Federal de liderar fraudes bilionárias no mercado de combustíveis, Magro vive em Miami desde a década passada.



