Priscila Yazbek
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Priscila Yazbek

Correspondente em Nova York, Priscila é apaixonada por coberturas internacionais e econômicas — e por conectar ambas. Ganhou 11 prêmios de jornalismo

Lula buscará reduzir ruídos com Trump e minimizar "factoides", dizem fontes

Se reunião em Washington for boa, Lula sairá como estadista, se for ruim, defenderá a soberania; a foto é o que importa, dizem interlocutores

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O presidente Luiz Inácio Lula da Silva buscará reduzir os ruídos na relação entre Brasil e Estados Unidos no encontro com Donald Trump, que vai acontecer nesta quinta-feira (7) em Washington. Entre eles, a possibilidade de classificação de facções criminosas brasileiras como grupos terroristas pelo governo americano e o embate envolvendo o governo de Goiás e o interesse dos EUA na exploração de minerais de terras raras.

Um interlocutor do governo brasileiro afirma que o mais importante é a foto do aperto de mãos entre Lula e Trump. Se o encontro der certo, Lula sairá como estadista; se der errado, reacenderá o debate sobre soberania que lhe rendeu pontos no ano passado em meio ao imbróglio das tarifas.

Uma fonte que acompanha os preparativos de perto afirmou à CNN que um dos grandes objetivos do encontro será afastar as fofocas e focar em questões técnicas.

Entre os rumores que devem ser combatidos, a fonte citou principalmente a discussão sobre o crime organizado, que classificou como um "balão de ensaio" criado pelo grupo liderado por Eduardo e Flávio Bolsonaro para influenciar a ala ideológica do Departamento de Estado dos Estados Unidos. O interlocutor afirmou se tratar de uma ação de opositores para fazer o governo reagir a algo que não está verdadeiramente sobre a mesa.

O Brasil estaria disposto a conversar sobre o assunto caso Trump deseje, mas, até o momento, o governo trata o tema como uma ''plantação da mesma turma que cavou o tarifaço contra o Brasil". O que pode entrar na pauta, segundo fontes, é a extensão da colaboração entre os países no combate ao crime organizado.

O governo Trump tem designado grupos criminosos de diferentes países da América Latina como organizações terroristas para combater o tráfico, mas a Casa Branca não se posicionou oficialmente sobre facções brasileiras. Segundo uma apuração do jornal The New York Times, a medida estaria sendo estudada e poderia incluir o Primeiro Comando da Capital (PCC) e Comando Vermelho (CV).

No início de março, o secretário de Estado norte-americano, Marco Rubio, comunicou ao ministro das Relações Exteriores do Brasil, Mauro Vieira, que Washington planejava incluir as facções brasileiras na lista de grupos terroristas, durante uma cúpula com líderes da América Latina.

A posição brasileira se baseia no entendimento de que há diferença entre organizações criminosas e terroristas. Uma fonte diplomática esclarece que, para o Brasil, essa é uma questão que teria várias implicações práticas: ao classificar um grupo como terrorista, os Estados Unidos teriam maior liberdade para tomar medidas contra indivíduos no Brasil e ampliariam sua atuação no sistema financeiro. Isso abriria uma margem de manobra que o país não está disposto a conceder, por questões de soberania.

Além disso, a medida poderia ter impacto político interno, fortalecendo o discurso da direita no combate ao crime.

"O nosso trabalho é defender o interesse nacional e esclarecer esses curtos-circuitos e fofocas que eles ficam criando para apostar no quanto pior, melhor", disse um diplomata.

Outro "curto-circuito", segundo ele, seria o memorando assinado em março entre o governo Trump e governador de Goiás sobre a exploração de minerais de terras raras.

Em janeiro, o governo Trump fez um aporte na empresa norte-americana USA Rare Earth, de US$ 1,6 bilhão, e passou a ser dono de cerca de 10% da companhia. A injeção de recursos possibilitou a compra da mineradora goiana Serra Verde por US$ 2,8 bilhões em abril. Nesse contexto, o governador de Goiás, Ronaldo Caiado, assinou um memorando de entendimento com os EUA para mapeamento mineral.

O governo Lula criticou veementemente a medida e afirmou que Caiado — pré-candidato à Presidência pelo Partido Social Democrático (PSD) — avançou sobre temas de competência do governo federal.

Mas a fonte minimizou a importância do tema durante o provável encontro entre Lula e Trump e afirmou que um memorando firmado com um governo estadual não tem poder institucional. "Isso é um factoide, de campanha, de quem assinou o documento", afirmou.

O interlocutor acrescentou que a competência para regulamentar o subsolo brasileiro é da União, conforme prevê a Constituição. Portanto, se o tema for levantado por Trump em Washington será tratado no nível nacional, como o presidente Lula tem feito com vários países interessados no assunto, como a União Europeia, por exemplo.

Timing da reunião

Algumas das fontes evitaram dizer de quem partiu o ajuste fino para que a reunião fosse marcada justamente na semana seguinte à rejeição da indicação de Jorge Messias ao Supremo Tribunal Federal, uma derrota histórica para o governo Lula. Elas argumentam que o encontro estava marcado em março e, com a guerra, foi postergado e finalmente remarcado nesta semana, por uma questão de agenda.

Mas um interlocutor afirma que a pressão partiu do governo brasileiro, sem dúvidas, e a prova disso é a divulgação do encontro por fontes próximas a Lula, antes da confirmação formal da Casa Branca, que aconteceu na noite desta terça-feira. Um diplomata lembra que a praxe é que as visitas sejam informadas inicialmente pelo país anfitrião e, posteriormente, confirmadas pelo país convidado.

Na visão desse diplomata, no fim das contas, o que importa é a foto. Se a reunião for boa e render boas imagens e algum documento assinado, Lula sai como um Estadista sendo recebido na Casa Branca, o que reforça a imagem de líder forte e respeitado no mundo. Se for um desastre — o que ele vê como pouco provável, mas com Donald Trump sempre há risco — Lula pode puxar a corda da soberania, um discurso que já rendeu pontos de popularidade no passado.

Na prática, é uma situação de "ganha-ganha", diz o diplomata. "Não tem como dar errado essa viagem. Mesmo que dê muito errado, vai acabar dando certo por outro lado", comentou.

Fontes avaliam ainda que a guerra no Irã não interfere na pauta da bilateral. Como Lula costuma evocar conflitos externos, em defesa do diálogo, e o Brasil é um importante parceiro comercial do Irã, o assunto pode surgir. Mas o tema não é visto como central ou algo com potencial para atrapalhar a conversa. Trump disse recentemente que poderia taxar países que comercializam com o Irã, mas não levou a medida adiante.

Tarifas e Pix

As tarifas, por outro lado, são um tema importante, que criou grande tensão na relação bilateral no ano passado. A percepção é de que o problema foi superado em boa medida, mas ainda há pontos a serem discutidos. 

Segundo apuração do analista Lourival Sant'Anna, o governo Trump estaria estudando impor tarifas de 30% sobre o Brasil, sob alegação de práticas comerciais desleais, no âmbito da Seção 301 da Lei do Comércio de 1974. Seria uma alternativa para seguir com as taxas, já que a Suprema Corte revogou o tarifaço aplicado anteriormente, sob a Lei de Poderes Econômicos de Emergência Internacional (IEEPA).

Em meados de abril, o Escritório do Representante do Comércio dos EUA (USTR) fez um post no X com uma imagem de Trump com uma pá na mão e a legenda: “Cavando práticas comerciais injustas que prejudicam trabalhadores americanos”. A publicação citava práticas supostamente ilegais no Brasil relacionadas ao meio ambiente, argumento que tem sido usado pelo governo americano para impor tarifas aos produtos brasileiros.

Segundo interlocutores do governo, o presidente Lula não vai "entrar na pilha das redes sociais" e esse assunto já foi tratado no nível técnico. A fonte afirmou, porém, que se houver dúvidas no nível político, o presidente buscará esclarecer e deve reforçar que a área desmatada no Brasil caiu pela metade desde 2022. Ela acrescentou que a posição do Brasil é muito cômoda nesse aspecto, que isso tem sido tratado com o USTR e se o assunto for suscitado, é só uma questão de dialogar. "Não vamos discutir coisas dessa importância por rede social", concluiu.

Posição parecida foi expressada em relação ao Pix. Se o assunto surgir, o governo vai lidar de forma técnica.

As fontes também minimizam o temor de que o encontro traga algum tipo de embate, como aconteceu na visita de Volodymyr Zelensky, que leve a um eventual endosso de Trump a Flávio Bolsonaro — pré-candidato pelo Partido Liberal (PL) — a poucos meses das eleições.

Um interlocutor afirmou que esse não é um assunto da agenda diplomática e que, se algo acontecer, o governo lidará no momento.