Análise: BC não é mais “do Lula”
Decisão do Copom de levar os juros a 15% decreta separação do governo

A decisão do BC de elevar a taxa de juros para 15% ao ano decreta a separação do que o governo vinha chamando de “BC do Lula”, com a indicação do presidente Gabriel Galípolo e da maioria da diretoria do Comitê.
O gesto com a taxa básica também alivia, ou pode até eliminar, a desconfiança sobre como seria esse BC escolhido pelo petista depois da guerra que o presidente Lula travou com Roberto Campos Neto.
Este pode ter sido o último movimento da taxa Selic neste ano, com a sinalização do Copom de que a decisão desta quarta-feira (18) é uma interrupção no ciclo de aperto dos juros. A taxa não deve mais subir, mas também não vai cair tão cedo.
O cenário mais provável é que o ciclo que queda da taxa comece apenas em meados do ano que vem.
O Copom deixou uma retaguarda aberta no comunicado diante da intensidade das incertezas sobre o que vai acontecer com a economia global, com a política comercial de Donald Trump, e com a economia brasileira, que teima em continuar crescendo mesmo com juro tão alto graças ao empurrão contínuo dos gastos públicos.
Com o fim do “BC de Lula”, a lua de mel do governo com Galipolo também deve terminar. O primeiro sinal veio com a declaração do deputado Lindbergh Farias , líder do PT na Câmara.
“A taxa de 15% é indecente, proibitiva e desestimula investimentos produtivos. É a transformação do Brasil no paraíso dos rentistas: quem vive de juros ganha, quem trabalha perde”, escreveu na rede social X.
A posição do deputado petista certamente é compartilhada pelo Palácio do Planalto, especialmente pelos ministros políticos Gleisi Hoffmann e Rui Costa. Sem falar do próprio presidente Lula que chamou Galipolo de “menino de ouro”, que segue agora os passos do seu antecessor no BC para contragosto dos petistas que acolheram o economista nas eleições de 2022.
Com popularidade baixa e fragilidade na relação com o Congresso (que também contribui para deterioração fiscal), Lula deve dobrar a aposta no aumento dos gastos, alimentando as distorções provocadas pela atuação do BC puxando o freio da economia enquanto o governo pisa mais fundo no acelerador.



