BC está entre a cautela com exterior e com Brasil
Presidente do Banco Central listou as incertezas com juros nos Estados Unidos, o crescimento da China, a reorganização das cadeias produtivas e o endividamento global maior
Em apresentação a empresários em São Paulo, Roberto Campos Neto elencou o que definiu como os quatro grandes temas da economia. Nenhum deles está ligado ao Brasil, pelo menos não diretamente.
O presidente do Banco Central listou as incertezas com juros nos Estados Unidos, o crescimento da China, a reorganização das cadeias produtivas e o endividamento global maior.
Sobre Brasil, Campo Neto demonstrou certa tranquilidade e até uma clara satisfação de ter acertado o prognóstico e a estratégia para lidar com as turbulências nacionais.
A inflação está em queda, ainda enfrenta alguma resistência e os preços dos serviços demandam atenção. Mercado de trabalho está “apertado”, ou seja, com pressão sobre oferta de mão de obra, mas até agora numa dinâmica aceitável do ponto de vista inflacionário.
A fala do chefe do BC coincide com a divulgação da ata da última reunião do Copom, que decidiu pela queda da Selic para 11,25% e sinalizou continuidade no ritmo de redução.
No papel, o BC apertou um pouco mais o botão da cautela. Apesar da tranquilidade em seu discurso, Campos Neto também não deixou nenhuma brecha que alimente expectativa de aceleração nos cortes dos juros ou pressa do BC em entregar o IPCA na meta de 3%.
Ele relembra que as expectativas para inflação futura seguem longe do objetivo central e é prudente não se empolgar.
Essa preocupação casa com outra dúvida comum, a atividade econômica.
Levantamentos feitos diariamente por bancos brasileiros indicam que o crescimento segue num bom ritmo e uma alta de 2% do PIB em 2024 já é quase cenário base, não um otimista.
Andre Braz, da FGV, avalia que isso não implica necessariamente em pressão inflacionária.
“Isso seria um desafio maior se houvesse restrição de oferta na economia, e não há. O BC tem muita gordura para queimar e não deve mudar ritmo de queda dos juros porque o país vai crescer mais. A maior fonte de pressão viria dos alimentos por causa dos efeitos do El Nino. Hoje vemos que eles não serão na magnitude que se suspeitava”, disse o economista em entrevista a CNN.
No relatório Focus divulgado nesta terça-feira (6) tudo ficou como estava há uma semana para todos os indicadores acompanhados. O piso para Selic em 2024 ficou em 9% e nada indica que ele será furado até dezembro.
A cautela é alimentada pela preocupação com o que vai fazer o FED nos Estados Unidos. Se nem eles entendem o que ser passa por lá, o BC brasileiro é que não vai elucidar o enigma americano.
Há um ano, Campos Neto não sabia o quanto governo Lula atrapalharia seu trabalho. Agora, ele já sabe que os maiores riscos foram superados com a definição da meta de inflação contínua em 3%, e um controle, mesmo que frágil, das contas públicas.
Tanto assim que o “risco fiscal” aparece como desafio constante, mas mais ao lado, do combate à inflação.
Em seu último ano à frente do BC, o banqueiro se auto prescreve cautela continuada com o cenário externo e uma tranquilidade serenamente alimentada com o Brasil.
