Victor Irajá
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Victor Irajá

Com passagens por Estadão e rádio CBN, foi editor do Radar Econômico, da revista Veja. É especializado em Economia pela FGV e pelo Insper

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Análise: Novo presidente do Fed será Kevin Warkish ou Kevin Warvish?

Poucos presidentes de bancos centrais se dispõem à antipatia de impor freio brusco na economia instituindo taxas de juros proibitivas quando conjuntura se impõe

Ilustração de Kevin Warsh ao lado do prédio do Federal Reserve
Apesar da desconfiança se impor, indicação não causou sangria de credibilidade do Federal Reserve  • Ilustração gerada por IA
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Em entrevista recente ao CNN Money, o ex-diretor do BC (Banco Central) Luiz Fernando Figueiredo relembrou uma passagem durante mandato de Armínio Fraga à frente do desafio inflacionário: a necessidade de se levar os juros acima do patamar considerado suficiente para o mercado para passar um recado. As taxas de juros chegaram a 45% ao ano.

Isso aconteceu em 1999, no auge da crise cambial após o fim da âncora, quando a Selic foi usada de forma brutal para controlar a inflação e estabilizar o real.

A história se impõe.

O economista Paul Volcker (1927-2019) assumiu o comando do Federal Reserve em 1979, em meio ao segundo choque do petróleo, quando a inflação americana já havia deixado de ser um desvio conjuntural para virar um problema estrutural.

A resposta foi deliberadamente brutal: juros elevados a patamares inéditos, de até 20% ao ano, aperto monetário prolongado e a disposição de aceitar uma recessão e desemprego como custo político inevitável.

O efeito colateral foi global.

A alta dos juros nos Estados Unidos secou a liquidez internacional, encareceu brutalmente o serviço da dívida externa e empurrou países emergentes — como Brasil e México — para a crise da dívida dos anos 1980 e, mais adiante, para a moratória.

Volcker estabilizou o dólar e matou a inflação no centro do sistema, mas o fez exportando estresse para os emergentes, num lembrete incômodo de que decisões do Fed nunca são domésticas.

Claro que não se exige isso do indicado pelo presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, Kevin Warsh. Mas, sim, um choque de credibilidade.

Escolhido por Trump para suceder Jerome Powell, cujo mandato acaba em maio, o nome de Warsh demoveu parte da desconfiança do mercado de que o próximo presidente do Federal Reserve cortaria os juros do país na canetada.

Trump chegou a dizer recentemente que os Estados Unidos deveriam ter “as menores taxas de juros” do mundo — a despeito da inflação que roda a 2,7%, acima da meta de 2% perseguida pela autoridade monetária.

Kevin Warsh, foi ex-diretor do Federal Reserve entre 2006 e 2011, período que abrange a crise financeira global. Antes, atuou no Tesouro dos EUA e como assessor econômico da Casa Branca no governo George W. Bush, além de ter passagem pelo mercado financeiro. No Fed, esteve envolvido nas decisões emergenciais de 2008, o que moldou sua visão sobre risco sistêmico e atuação em crises.

Desde que deixou o banco central, tornou-se crítico da manutenção prolongada de juros muito baixos e da expansão do balanço do Fed, apontando efeitos colaterais sobre preços de ativos e credibilidade da política monetária.

Seu histórico indica um perfil institucionalista, atento à sinalização da autoridade monetária e à preservação da independência do Fed, mesmo sob pressão política.

Por isso, apesar da desconfiança se impor, não causou sangria de credibilidade do Federal Reserve.

A dúvida é simples: o novo presidente será Kevin Warkish, se topar as traulitadas de Trump e preservar sua credibilidade; ou Kevin Warvish, se escolher ancorar as expectativas do presidente dos Estados Unidos ao invés das de inflação.

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