Investir em tempos de instabilidade: quais as melhores alternativas?


Luís Lima do CNN Brasil Business, em São Paulo
14 de março de 2020 às 18:48

As incertezas em torno do coronavírus e a recente “guerra” do petróleo entre Rússia e Arábia Saudita têm levado as bolsas globais aos piores patamares da história e intensificado o cenário de volatilidade no mercado financeiro. Em Wall Street, por exemplo, investidores assistiram, na segunda semana de março, a pior derrapada da história desde 1987, com uma queda acumulada em 20% em relação seu pico mais recente. Como resposta ao cenário de queda livre, os principais índices acionários da Bolsa de Nova York entraram em território de bear market e a situação só não ficou pior porque o Federal Reserve (FED) interveio.

No mercado brasileiro a situação não foi diferente. A onda de aversão à pandemia e às incertezas econômicas fizeram com que  o Ibovespa, principal indicador da bolsa, somasse quatro circuit breakers (quanto os negócios são interrompidos temporariamente) em quatro dias. Mais que isso: a bolsa brasileira chegou a registrar 72.582,53 pontos, uma baixa de 14,78% - o terceiro pior pregão do Ibovespa desde o início do plano Real. 
 
Diante de tanta incerteza e caos nas bolsas, investidores recém chegados à renda variável, ou que nunca vivenciaram uma instabilidade dessa magnitude no mercado financeiro, tentam se blindar aos prejuízos - e até a procurar ativos mais seguros.
 
Perfil mais conservador: como investir em tempos de crise 
 
Aos investidores que possuem um perfil mais conservador e têm mais cautela na hora de investir: há luz no fim do túnel. Para se proteger dos picos de volatilidade da renda variável, é possível recorrer a ativos menos expostos e, que ao mesmo tempo, podem gerar ganhos interessantes no longo prazo. 
 
“Recentemente, o Tesouro Direto ficou mais vantajoso e é uma opção mais conservadora, aos que buscam por estabilidade”, aconselha César Caselani, professor de finanças da Fundação Getulio Vargas (FGV). “De qualquer maneira, em situações de instabilidade como essa, a recomendação é manter a calma e não desistir facilmente da renda variável”, diz o especialista. 
 
A recomendação de Caselani não é à toa: o Tesouro Direto sofreu uma leve alta em sua rentabilidade: a taxa de retorno dos títulos públicos foi revisada para cima, equiparando-se a taxas de setembro de 2019, por exemplo. O Tesouro Prefixado com juros semestrais e vencimento em 2031 fechou a semana oferendo um prêmio de 8,19% ao ano, taxa que superou os 9% na quinta-feira (12). 

Além disso, entre opções que oferecem mais segurança, principalmente em tempos de volatilidade, estão o ouro, fundos cambiais e títulos do Tesouro americano. 
 
Para decifrar as vantagens e riscos de algumas dessas alternativas, o CNN Brasil Business conversou com especialistas. Saiba o que evitar e onde investir para minimizar possíveis perdas.

Coronavírus tem afetado Bolsas de Valores e a cotação das moedas pelo mundo

Coronavírus e petróleo mais barato têm afetado Bolsas de Valores e a cotação de moedas  

Foto: Marcello Casal Jr./Agência Brasil

Ouro 

O ouro é um dos ativos mais buscados em tempos de crise. Por se tratar de recurso natural, ele é um ativo com pouco risco e de alto valor, já que não é possível produzi-lo de maneira artificial. 

"Em turbulências, todos fogem para ativos indexado na moeda americana, incluindo metais preciosos. É quase como um referencial em dólar", explica Álvaro Bandeira, economista-chefe do banco digital MoldaMais.

A opção pelo ouro costuma ajudar a proteger quem já tem esse investimento, mais do que quem recorre a ele após as crises. Um ponto a se observar, também, é que durante momentos de instabilidade em rendas variáveis, o valor do ouro aumenta, pela alta demanda. 

De janeiro a março desse ano, por exemplo, a busca pelo metal precioso fez com que seu preço tivesse um acréscimo de quase 30%, passando a custar R$ 236,60. 

"É seguro, mas pode ser 'tarde demais' (pensar em comprar ouro), depois de um acidente", pontua Marcelo Giufrida, CEO da Garde Asset. “Além disso, operar ouro é difícil para um nível de investidor mais simples”, acrescenta André Perfeito, economista-chefe da Necton. 

Renda fixa 

Títulos públicos pós-fixados, como os do Tesouro Selic (que acompanha a variação da taxa básica de juros), podem render menos em relação a investimentos de renda variável, mas são opções mais seguras e estáveis. 

Na renda fixa, o empréstimo é feito ao governo (como o Tesouro Direto) ou a uma instituição financeira, e recebe em troca uma remuneração relacionada ao prazo da aplicação. O retorno é estabelecido no momento da aquisição do ativo (préfixado) ou no resgate (pós-fixado), conforme a variação de índices como a Selic ou o IPCA, por exemplo.

Mesmo com os juros em patamares baixos, o Tesouro Direto tem garantido rendimentos acima da inflação, além de serem seguros e estáveis. Exemplo disso é: se uma pessoa fizer um aporte inicial de R$ 1.000 no Tesouro Prefixado com juros semestrais com vencimento em 2023, com investimentos mensais de R$ 200, ao final, poderá resgatar um valor líquido de R$ 8.195,42 -- um rendimento de quase R$ 600.

Neste caso, o prêmio é de 6,12% ao ano, maior do que o atual patamar do IPCA, de 4% em 12 meses.   

“Os juros estão em patamar baixo e assim deve seguir, com potenciais novos cortes pelo Banco Central (BC). Ainda assim, é uma opção sem surpresas, com um rendimento garantido”, diz Perfeito. Outras tipos de investimento de renda fixa são os CDBs, letras de crédito (LCI e LCA) e outros títulos públicos, como o IPCA+ e o Pré-fixado. 

Fundos cambiais e multimercados 

Comprar em dólar é uma forma de criar proteção contra solavancos dos mercados, sobretudo em países emergentes, como o Brasil. Neste caso a opção seria por fundos cambiais. "O dólar é moeda forte, que se valorizou. Quem esteve em um fundo com exposição ao dólar, se beneficiou", diz Thomaz Fortes, gestor de fundos da Warren. 

Já quem considerar fundos multimercados, deve admitir a gestão ajuda de um profissional. Isso porque é um tipo de investimento mais arriscado, mas que pode ter rendimentos maiores do que a renda fixa, por exemplo. Neste caso, a preferência deve ser por fundos que não tenham relação com a Bolsa, para reduzir volatilidades.   

Títulos do Tesouro americano 

Para quem tem reservas em dólar e quer diversificar a carteira de investimentos para além do Tesouro Direto brasileiro, outra opção são os títulos do tesouro americano. 

Os treasuries americanos são emitidos pelo Departamento do Tesouro dos Estados Unidos e negociados no mercado financeiro americano. São reconhecidos como um dos investimentos mais seguros por terem a chancela da maior economia do mundo. Trata-se de uma referência em renda fixa, já que o risco do governo dos EUA quebrar e dar calote nos credores é praticamente nulo. 

“Em momentos de crise, o mercado geralmente sai de ativos de riscos, como ações e dívida privada, e tende a ir a moedas fortes, principalmente o dólar, ouro, e títulos do Tesouro americano", cita Erminio Lucci, CEO da operação brasileira da gigante americana BGC Partners. 

A compra, no entanto, é menos simples do que o equivalente nacional. "Não é tão acessível como o Tesouro Direto, brasileiro, e demanda, entre outras coisas, ter uma conta bancária no exterior", lembra Thiago Salomão, analista de investimentos da Rico.

COE 

Os chamados Certificados de Operações Estruturadas (COE) combinam a proteção da renda fixa com ganhos potenciais da variável. 

Eles são emitidos por instituições financeiras, como bancos e corretoras, e funcionamento lembra o de um fundo de investimento, com algumas diferenças, como a exigência de um aporte mínimo e um indexador definido - como ações, juros, inflação, moedas e etc. Além disso, tem data de vencimento e cenários diferentes de perdas e ganhos.

Um dos pontos que torna o COE seguro é o fato de que ele é comercializado - em 95% dos casos - com um mecanismo chamado capital protegido. Essa medida faz com que o investidor garanta a mesma quantia que ele aplicou de volta, caso o cenário buscado não seja atingido. Ou seja: em termos nominais, o investidor não porde nada. 

Mas, atenção: embora o investidor não tenha perdas em termos nominais, em termos reais ele pode sair no prejuízo. Primeiro, pois ele deixou de aplicar em um produto que daria rendimento. Segundo, pela própria inflação.

Outro ponto a ser avaliado é a liquidez: o COE não conta com liquidez diária. Nesse caso, se o investidor optar por desistir, ele correrá o risco de ter que vender para a instituição por um valor menor do que foi aportado no início. 

Ações de setores menos expostos   

Se a intenção é continuar apostando em renda variável, mas sem se preocupar com a alta volatilidade do mercado, a indicação é buscar companhias de setores menos impactados pelo cenário atual.

Ações de empresas ligadas aos setores elétrico, da saúde e ligadas ao consumo obrigatório (como alimentação) são alguns exemplos. São companhias com fluxo de caixa mais garantido, diferentemente de empresas do setor aéreo ou ligadas a commodities, como Petrobras e Vale, que têm sofrido fortes perdas nos pregões recentes. 

"Empresas mais ligadas ao mercado interno, em linhas gerais, sentem menos (os efeitos de crises internacionais)", diz Álvaro Bandeira, do MoldaMais. "No caso do setor elétrico, são ações mais defensivas, pois são empresas com fluxos de caixa mais previsíveis e bons pagadores de dividendos", avalia Fortes, da Warren.