Coronavírus acelera recessão mundial e processo de desglobalização, diz Eurasia


Paula Bezerra Do CNN Brasil Business, em São Paulo
19 de março de 2020 às 10:31 | Atualizado 19 de março de 2020 às 11:36
Homem caminha pela Wall Street, em Nova York

Homem caminha pela Wall Street, em Nova York, em meio ás preocupações com o avanço do coronavírus nos EUA

Foto: Lucas Jackson - 18.mar.2020/ Reuters

Se as análises econômicas e geopolíticas para 2020 não eram das mais otimistas em janeiro, depois do avanço da pandemia coronavírus, a situação degringolou. É o que mostra o relatório “Top riscos de 2020, edição coronavírus”, da Eurasia Group, consultoria americana de análise de risco. Desde 1998, o grupo publica, em janeiro, um levantamento dos 10 principais riscos para ser acompanhado ao longo do ano. Em 2020, porém, em apenas dois meses, o relatório foi revisado e as projeções agravadas. O motivo? Os duros efeitos causados pelo COVID-19.

O cenário para 2020, antes do avanço global da pandemia, até podia gerar preocupações em termos geopolíticos e econômicos, mas não era “catastrófico”. Em termos políticos, além da crise entre Estados Unidos e Irã, que gerou em muitos a dúvida de uma possível nova guerra de escala global, o país norte-americano vinha estremecendo as relações com a China, trazendo dúvidas para o comércio internacional. Mesmo com as tensões políticas, a economia americana encerrou o ano passado com alta de 2,3% em seu PIB. 

Na europa, as incertezas provocadas pelo Brexit, instabilidade política na Turquia e desaceleração da economia alemã, davam o tom de “preocupação”. No caso da Alemanha, por exemplo, embora tenha sofrido uma forte desaceleração em seu PIB, o país manteve o cenário de crescimento econômico em 2019 - o décimo consecutivo - com acréscimo em seu PIB em 0,6%. 

Agora, diante da pandemia, os efeitos ainda são incalculáveis. Há apenas um consenso: a recessão mundial, antes especulada para meados de 2021, passou a ser uma realidade para 2020. E os efeitos desta crise já podem ser vistos - e sentidos. Na China, o Escritório Nacional de Estatísticas (NBS) apontou queda nas vendas do varejo, com retração de 20,5% nos dois primeiros meses do ano ante 2019. A produção industrial registrou a primeira queda em quase 30 anos, com contração de 13,5%.

Já no mercado brasileiro, bancos como JP Morgan e Goldman Sachs já preveem um PIB recessivo para o Brasil em 2020, com uma forte retração no primeiro semestre - queda de 3,5% no primeiro trimestre e 10% no segundo. Para o acumulado do ano, porém, a retração é esperada em até 1%. 

“É importante reconhecer a natureza sem precedentes desse ambiente no contexto de nossa experiência nas últimas décadas”, diz o relatório. “Nas próximas semanas, o mundo terá um controle muito melhor da pandemia de coronavírus, mas a fragmentação e fraqueza em ordem geopolítica refletem um cenário radicalmente diferente experimentado nas crises mundiais das últimas décadas” conclui a Eurasia.

EUA x China

Antes mesmo da disseminação da pandemia, a primeira versão do relatório já apontava tensões inéditas. Isso porque pela primeira vez desde a elaboração do estudo, três, dos principais riscos para o ano estavam a cargo dos Estados Unidos - considerada uma das instituições mais sólidas e resilientes do mundo. 

As preocupações não cresciam só pela incerteza frente às eleições presidenciais em novembro, mas, também, com o distanciamento e crises diplomáticos com a China. Antes da revisão por conta do COVID-19, a Eurasia citava que além dos setores estratégicos, como semicondutores, computação em nuvem e 5G, a atividade econômica mundial seria afetada de forma abrangente. “A tensão pode criar uma divisão comercial, econômica e cultural cada vez mais profunda, com riscos permanentes, lançando um profundo calafrio geopolítico sobre os negócios globais”, diz o relatório.

Agora, com o impacto da pandemia, os efeitos podem ser ainda mais profundos. Principalmente porque a dissociação entre os países passou a ser agravada por discussões políticas. Com o avanço da doença,  o presidente americano, Donald Trump passou a se referir ao coronavírus como “vírus chinês”, ou “vírus de Wuhan.” A fala agravou a crise diplomática entre os países, que passaram a trocar farpas em citações públicas. 

Em um dos trechos do relatório, a Eurasia aponta que “além do coronavírus aumentar a pressão sobre as cadeias de suprimentos, ele vai acelerar a tendência de dissociação entre os Estados Unidos e a China.” 

Impactos na América Latina 

Segundo o relatório, a falta de preparação da América Latina para o coronavírus deixará ainda mais intenso o sentimento de descontentamento público. 

Se na edição publicada em janeiro a consultoria já espera um aumento de protestos nos países da região, decorrente ao descontentamento político e da deterioração em saldos fiscais, agora a expectativa de crise é ainda maior.  

“Todos os problemas que previmos se tornarão mais prováveis: os saldos fiscais se deteriorarão, as moedas cairão, a raiva do governo aumentará, os serviços públicos se desgastarão e os fluxos de investimentos diminuirão”, diz o relatório. 

Para a Eurasia, o descontentamento público minará ainda mais a capacidade dos governos de tomar medidas de austeridade. Como resposta, alguns países reduzirão ainda mais o espaço fiscal para apaziguar os manifestantes. Como exemplo, eles citam o Chile. 

Somado a essas questões, eles acrescentam a guerra de preço do petróleo. De acordo com o grupo americano, líderes de países produtores de petróleo, como Brasil, Colômbia, Equador e México terão de se esforçar para impedir que seus índices sejam impactados - principalmente porque os quatro países enfrentam restrições fiscais. 

“As perspectivas são particularmente ruins para o Equador (e a Argentina, por razões além do petróleo); no Brasil, as reformas ainda avançavam, embora em um ritmo mais irregular, enquanto no México, um governo com mau funcionamento piorará a crise”, conclui a análise. 

Confira, abaixo, os 10 riscos citados pela Eurasia e que devemos acompanhar em 2020, e o que mudou com o COVID-19: 

1º Eleições americanas

Efeito coronavírus: “Como uma crise extremamente politizada de grave escala, e ao complicar o ato físico de votar, a pandemia intensifica medos e dúvidas sobre a legitimidade das eleições presidenciais.”

2º “Rompimento” comercial  entre EUA e China

Efeito coronavírus: “COVID-19 aumenta a pressão sobre as cadeias de suprimentos, acelerando a tendência de dissociação.”

3º Crise diplomática entre EUA e China 

Efeito coronavírus: “As tentativas de Washington e Pequim de explicar o coronavírus e sua contenção aos respectivos públicos domésticos intensificarão as recriminações entre os dois governos.”

4º Multinacionais não vão preencher lacuna deixada por governos ruins

Efeito coronavírus: "O coronavírus atingirá as multinacionais de várias direções, mas os governos, mesmo sobrecarregados, tentarão criar oportunidades para conter o problema." 

5º Mudanças na Índia

Efeito coronavírus: "A Índia administrou o coronavírus de forma relativamente eficaz, mas as vulnerabilidades contínuas colocadas por seu sistema de saúde fraco intensificarão as tensões entre os cidadãos, que já estão no limite."

6º Geopolítica europeia

Efeito coronavírus: "A pandemia ocupará totalmente os líderes europeus em um momento em que eles gostariam de se tornar muito mais assertivos em relação aos EUA e à China em muitas áreas."


7º Política x economia da mudança climática

Efeito coronavírus: "A doença desviará a atenção e os recursos globais da abordagem da mudança climática, colocando a questão em segundo plano."

8º Oriente médio em ebolição

Efeito coronavírus: "Diminuirá os riscos de falha da política americana no Irã, mas os ampliará no Iraque e na Síria."

9º Descontentamento político na América Latina  

Efeito coronavírus: "A falta de preparação da América Latina para o coronavírus aumentará o descontentamento público."

10º Turquia 

Efeito coronavírus: "O coronavírus na Turquia e nos seus arredores enfraquecerá Erdogan."