A recessão global do coronavírus já começou


Julia Horowitz do CNN Business
17 de março de 2020 às 09:30 | Atualizado 19 de março de 2020 às 11:16
bolsa xangai

Homem de máscara caminha pela Bolsa de Xangai (28.fev.2020)

Foto: Aly Song/Reuters

Enquanto restaurantes, lojas, aeroportos e fábricas interrompem suas atividades ao redor do mundo, desde Nova York até Paris e Madri, economistas afirmam que a recessão global já não é apenas uma ameaça. É um fato.

Dados divulgados pela China, nesta segunda-feira (16), mostram que o país sofreu fortes consequências do surto de coronavírus, alastrado entre janeiro e fevereiro. A segunda maior economia do mundo não vai se recuperar tão cedo, ao que parece.

Agora, com governos e bancos centrais da Europa e da América do Norte adotando medidas drásticas para tentar controlar a pandemia, a Ásia ainda em alerta, e os mercados financeiros em colapso, um número cada vez maior de especialistas afirma que uma retração global está começando.

"Considerando que, 10 dias atrás, haviam questionamentos sobre a possibilidade de um processo de recessão na economia global, 10 dias depois, não há dúvida de que isso é real", disse David Wilcox, ex-chefe de pesquisa e estatística do Federal Reserve (Fed) à CNN Business.

O cenário muda rápido

As últimas semanas mostraram mudanças drásticas no cotidiano das pessoas, à medida em que o número de casos de coronavírus ultrapassam os 175 mil e os países aumentam as medidas de contenção, declarando quarentenas e fechando locais públicos. Essas ações, que certamente causam um sério choque econômico, ocorrem quando a magnitude dos danos na China se torna cada vez mais clara.

Essas alterações na rotina afetaram todos os setores da economia chinesa durante os dois primeiros meses do ano. As vendas no varejo caíram 20,5% em janeiro e fevereiro, em comparação a 2019, a produção industrial caiu 13,5% e o investimento em ativos fixos caiu quase 25%, segundo o Escritório Nacional de Estatísticas da China (NBS). A queda na produção industrial foi a maior já registrada na história.

"Estamos observando o impacto desses bloqueios na China", disse Ben May, diretor de macro-pesquisa global da Oxford Economics. Segundo ele, as condições podem ser diferentes em outros países, mas ainda devem ser "severas com o crescimento".

Com a China ainda tentando se recuperar, a situação na Europa e nos Estados Unidos está se deteriorando rapidamente. A Itália, atual epicentro da pandemia, apresenta mais de 24 mil casos. A Espanha tem pelo menos 9 mil e os Estados Unidos registraram mais de 4 mil casos.

No domingo, o Goldman Sachs rebaixou suas expectativas para o PIB dos EUA, citando como causas a redução nos gastos, interrupções na cadeia produtiva e o impacto das quarentenas locais. O banco acredita que a economia dos EUA agora encolherá 5% entre abril e junho, após um crescimento de 0% entre janeiro e março. A previsão de crescimento para o ano é de apenas 0,4%, ante 1,2%.

"Essas paralisações e a crescente ansiedade da população provavelmente vão levar a uma acentuada deterioração da atividade econômica no restante de março e durante o mês de abril", disse o economista-chefe Jan Hatzius.

Economistas do ING disseram, neste domingo (15), que esperam que a economia dos EUA encolha 8% no segundo trimestre, a exemplo da queda sofrida durante a crise financeira de 2008. Considera-se que há uma recessão quando o PIB sofre uma queda de dois quartos ou mais, um resultado que o economista-chefe da IHS Markit, Joel Prakken, prevê para a maior economia do mundo em 2020.

Turbulência no mercado

Enquanto isso, as condições financeiras se deterioraram, facilitando a precificação de ativos para investidores, já que os mercados estão extremamente voláteis. O esperado é que isso afete a economia, à medida que os investidores ficam ansiosos com suas carteiras de ações cada vez mais afetadas e dificulta o cenário para as empresas que precisam de empréstimos. As ações dos EUA caíram 27% em relação aos recordes registrados há menos de um mês.

“O mais preocupante neste momento é que agora os mercados financeiros parecem estar se tornando um amplificador dessa dinâmica adversa", disse Wilcox, que agora é membro sênior não-residente do Peterson Institute for International Economics (PIIE).

Ele citou o estresse nos mercados de empréstimos de curto prazo como um dos principais pontos de preocupação.

"Esses mercados precisam continuar funcionando para que a macroeconomia não sofra uma parada cardíaca", disse Wilcox.

Neste domingo (15), o Fed tomou medidas emergenciais para abrandar os efeitos da crise, cortando a taxa de juros para perto de 0% e anunciando que favoreceria empréstimos mais baratos em bancos de todo o mundo. Na segunda-feira (16), a instituição também disse que injetaria até US$ 500 bilhões nos mercados financeiros, além das operações programadas anteriormente.

Isso mostra a preocupação dos bancos centrais em relação ao tumulto no mercado financeiro e suas consequências ainda mais amplas. À medida que ações continuam derretendo, os mercados de crédito permanecem instáveis ??e a liquidez seca, o consenso aumenta: estamos entrando em uma recessão global; é apenas uma questão de entender quão feia ela será.

"As chances de uma recessão global estão perto de 100% agora", disse Kevin Hassett, ex-economista do governo Trump, à Poppy Harlow, da CNN, na segunda-feira.