Empresas buscam saídas para crise com ferramentas de conferência e streaming


Matheus Prado Do CNN Brasil Business, em São Paulo
06 de abril de 2020 às 15:55 | Atualizado 07 de abril de 2020 às 10:43
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Plataforma de aulas de inglês online registrou aumento de 100% em cadastros (3.abr.2020)

Foto: English Live/Divulgação

Com o avanço da pandemia de coronavírus no Brasil, alguns estados e municípios, como São Paulo, Rio de Janeiro, Florianópolis, Brasília e Porto Alegre passaram a adotar o isolamento social como meio de frear a propagação da doença. Em São Paulo, por exemplo, a “quarentena” prevista até o dia 07 de abril, foi prorrogada até o dia 22 pelo governo estadual. Shoppings centers, comércios de rua, empresas. Todos os estabelecimentos que não configuram como “essenciais” estão temporariamente fechados, a fim de evitar a transmissão da doença. 

Para tentar mitigar os efeitos econômicos que o isolamento e a pandemia têm causado às empresas, muitas companhias passaram a ter a tecnologia como grande aliada: plataformas de vídeo, como o Teams, da Microsoft; Zoom; Hangouts do Google e, até mesmo, o WhatsApp se transformaram ferramentas oficiais de trabalho.  

E a procura pela alternativa digital já mostra resultados: segundo dados da empresa de pesquisa Apptopia, o volume diário de usuários móveis da Zoom nos EUA atingiu o recorde de 4,84 milhões na última segunda-feira (30).

Mas quem está usando esse tipo de plataformas? Primeiro as pessoas físicas, claro, para se relacionar com amigos e familiares. Depois, as empresas que transferiram suas operações para home office, com o objetivo de realizar reuniões e até mesmo revisar processos fabris através da imagem. Também está sendo testado por companhias que têm o seu core business presencial, como academias e escolas, para não paralisar suas atividades totalmente. 

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Google registrou aumento na busca por plataformas como Zoom (azul) e Teams (vermelho) entre fevereiro e março (03.abr.2020)

Foto: Google Analytics/Reprodução

Há ainda, fora destes sites ou apps mas também em vídeo, organizações que já trabalhavam essencialmente com ferramentas online e viram, durante a quarentena, um aumento significativo na sua demanda e precisaram agir com agilidade para conseguir atender os novos clientes. Ou até aqueles que já estavam no ecossistema mas não necessariamente utilizavam a plataforma regularmente.

“O que a gente vê é que muitas empresas já estavam se flexibilizando, mas ainda não estavam estruturadas para utilizar a tecnologia a este nível. Agora, estão tendo que testar na prática”, diz Claudia Santos, especialista em gestão estratégica de pessoas e diretora da consultoria Emovere You. Ela também acredita que, mesmo não tendo surgido de forma ideal, essa mudança pode deixar um legado para o futuro, tanto do ponto de vista tecnológico, como na organização das empresas.

O boom de novos usuários em plataformas de streaming, porém, tem despertado a atenção de autoridades federais e de segurança. Nos Estados Unidos, por exemplo, o aumento de usuários na plataforma Zoom foi tão grande que expôs os riscos que a internet oferece à segurança da informação. No caso da americana, a alta procura pelo aplicativo chamou a atenção de trolls, que passaram a invadir reuniões para divulgar mensagens de ódio e pornografia. O caso foi nomeado de "zoombombing" e está sendo acompanhado pela FBI nos Estados Unidos. Houve também vazamento de dados pelo aplicativo, que a empresa prometeu investigar.

Negócios “presenciais”

É impossível pensar nos efeitos da crise sem falar do setor de serviços. Obrigados a fechar as portas e com grande parte dos seus clientes confinados, as companhias desse setor vivem um momento mais do que complicado. Expoente no mercado de planos de academia, a Gympass sofreu isso na pele. A empresa está em 14 países, entre eles Itália, Espanha e Estados Unidos, alguns dos epicentros atuais do coronavírus, e rapidamente passou a não conseguir entregar seus serviços.

“Pelo menos 50% das 23 mil academias da nossa rede estão fechadas por determinação governamental. Isso sem contar as que não estão funcionando porque não têm clientes”, afirma Leandro Caldeira, presidente da operação no Brasil. Empresas parceiras cancelaram contratos – algumas até quebraram – e clientes suspenderam planos. O jeito foi se adaptar rápido.

Gympass

Professores de ginástica testam plataforma de aulas online do Gympass (3.abr.2020)

Foto: Gympass/Divulgação

A primeira solução já estava na gaveta, sendo desenvolvida: um "super aplicativo" que oferece desde exemplos de exercícios até dicas de nutrição, meditação e sono, chamado Gympass Wellness. Não estava nos planos lançá-lo tão rapidamente por estar em fase de testes – mas foi para o ar mesmo assim. 

“A gente quer que esse app ajude três públicos: quem está começando agora e tem vergonha de ir à academia; funcionários de empresas que têm operações remotas, numa plataforma de petróleo, por exemplo; e a pessoa que já tinha acesso à atividade física, mas queria algo a mais”, resume. 

O segundo artifício, pensado durante a crise, é uma plataforma de aulas ao vivo, dadas pelos próprios professores das academias e transmitidas por redes como Instagram, Facebook, Zoom ou Youtube. Os clientes entram na página dos estabelecimentos no app do Gympass e agendam sua participação nas aulas. 

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"Treino em casa", em amarelo, teve pico de buscas durante quarentena. Ginástica (azul) e exercícios físicos (vermelho) variaram pouco (3.abr.2020)

Foto: Google Analytics/Reprodução

É possível, por exemplo, fazer uma aula de uma academia de Palmas, no Tocantins, estando em São Paulo. A empresa estuda ainda como fazer essa ligação de forma internacional. “Não existe referência para o que a gente tá vivendo. Vamos sempre avaliar e ajustar rápido”, conclui.

A startup não divulga o impacto das mudanças no faturamento, apesar de ter sido obrigada a dispensar parte dos colaboradores na última semana. Caldeira diz apenas que a queda nas receitas "percentualmente não foi algo simples. Está na casa dos dois dígitos". Na rede de academias SmartFit, o buraco será de, no mínimo, R$ 150 milhões

A ClassPass, outra concorrente da Gympass, adotou medida parecida. A companhia afirma que, em dez dias, a receita caiu mais de 95%. “Corremos para lançar a tecnologia de transmissão ao vivo que permitirá que nossos parceiros obtenham receita por meio de aulas digitais, mas não sabemos quando nossos parceiros poderão reabrir suas portas”, diz a empresa.

Companhias digitais

Há também aquelas companhias que concentram seus esforços e possuem produtos nativos digitais. Nestes casos, ainda não há tantos impactos negativos. Ao contrário. Existe um redimensionamento das operações para poder atender a demanda trazida pela quarentena. 

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Busca pelo termo "cursos gratuitos" cresceu significativamente nos últimos dois meses (3.abr.2020)

Foto: Google Analytics/Reprodução

A English Live, plataforma de ensino da língua inglesa com 200 mil alunos no mundo – 100 mil deles no Brasil –, precisou se adequar. “Dobrou o número de pessoas que se cadastra diariamente no nosso site. Além disso, das pessoas que já estavam cadastradas, 40% delas voltaram a utilizar seus planos”, afirma Wagner Domingues, diretor de pessoas da English Live Brasil e América Latina.

Para dar conta da demanda, precisaram investir na robustez da plataforma, em funcionalidades mobile e também na força de trabalho. “Tivemos que contratar mais professores para dar conta do número de alunos. Sabemos também que cursos tradicionais de idioma vão tentar investir no modelo. Então temos que aproveitar que estamos na frente e continuar evoluindo”, diz.

A receita cresceu 20% comparando os meses de março de 2020 e 2019. Questionado sobre uma possível queda na demanda quanto a quarentena acabar, Domingues diz confiar na manutenção dos bons números. "As pessoas vão perceber que é mais prático estudar assim. As pessoas estão começando a experimentar, de fato, a vida online", defende.

Especializada em conteúdos online voltados para a saúde, a Sanar também viu seus números crescerem. Utilizando como base uma plataforma própria de vídeos, que custou cerca de R$ 1 milhão, a empresa criou o Sanarflix, espaço com videoaulas segmentadas para alunos de medicina. Agora, com a crise, o número de inscritos na iniciativa triplicou. "Além do consumo de streaming, a educação à distância também ficará mais prevalente mesmo em áreas mais desafiadoras como a da saúde. Acreditamos que isso é imperativo", diz o CEO Ubiraci Mercês.  

Badoo

Badoo registrou aumento na utilização de videochamadas (3.abr.2020)

Foto: Badoo/Divulgação

Outra empresa nativa digital que viu seu público crescer foi a MagicLab, donas dos apps de relacionamento Badoo e Bumble, que também possuem recursos de vídeo. “Registramos, na Europa, um aumento de 35% da utilização do recurso de chamada de vídeo nos nossos produtos desde que começou o período de isolamento”, diz Martha Agricola, diretora de marketing do Badoo Brasil.

O grupo possui ainda uma métrica chamada “Good Chats”, pela qual é possível identificar quais conversas “engataram” ou não. Sabe-se que muitas conversas se iniciam e param logo no começo, mas percebeu-se uma mudança neste dado nos países mais afetados pela COVID-19. Na Itália e na Espanha, houve o aumento de 24% e 12%, respetivamente, no volume de mensagens enviadas pelos usuários. Pesquisa com dados brasileiros deve sair nos próximos dias.

Comunicação interna

Este ponto é algo que afeta qualquer organização no mundo. Nós mesmos, do CNN Brasil Business, estamos nos comunicando diariamente através de plataformas de texto e vídeo. A Unipar Carbocloro, umas das maiores empresas químicas do Brasil, precisou mandar seus funcionários para casa, menos os fabris, e adaptar todo o seu processo de trabalho e comunicação diário.

São três fábricas e dois escritórios, com cerca de 1,4 mil trabalhadores. “Tínhamos começado esse processo de reuniões por videoconferência há quase dois anos. É mais barato e mais objetivo. Mas agora tivemos que acelerar esse processo”, diz Mauricio Russomanno, diretor-presidente da empresa.

Ele explica que, por produzir materiais essenciais como cloro e soda cáustica, a indústria não pode parar. Decidiu, então, afastar funcionários idosos e de grupos de risco das plantas produtivas. “Colocamos wi-fi nas fábricas e conectamos gestores e funcionários. Eles passam o dia todo em contato. Quando necessário, por questões processuais, utilizamos o recurso do vídeo para que os líderes vejam o que está acontecendo na fábrica”, diz.

Ele também nota diferença no campo da gestão. Reuniões mais objetivas e rápidas, comunicação a todo tempo e otimização das tarefas. O mesmo tem acontecido na PRAVALER, fintech de soluções financeiras para educação. “Já tínhamos a política de home office uma ou duas vezes por semana, mas precisamos intensificar isso”, conta Maria Siqueira, gerente de comunicação corporativa da marca.

A gestora afirma que compraram licenças de apps como o Zoom e levaram as estações de trabalho dos funcionários para as suas casas. “Intensificamos nosso processo de comunicação e acreditamos que a liderança está mais próxima dos colaboradores. O presidente da empresa faz lives semanais para falar com os funcionários”, resume. 

Na Ciena, companhia do ramo de tecnologia de rede, o uso da plataforma Zoom cresceu quase 50% e o uso de Teams cresceu 40%, mesmo com a empresa já adotando soluções do gênero para sua comunicação diária. Craig Williams, CIO da marca, afirma que têm investido em serviços em nuvem e de segurança para aplicativos há pelo menos três anos e agora complementam isso com "comunicados constantes e materiais de treinamento sobre como usar de fato as ferramentas para manter a produtividade e integração". 

Os porta-vozes explicam que, apesar disso, é preciso também cuidar da saúde mental dos funcionários. Enquanto a Unipar criou uma linha para que os funcionários possam comunicar problemas de saúde e psicológicos, a PRAVALER criou a comunidade #respirapravaler, com dicas, palestras, aulas e espaço para os trabalhadores interagirem. "Estamos recebendo uma quantidade de estímulos muito maior que o normal. No computador, no celular, na televisão. É preciso saber balancear isso", diz Russomanno.