Livrarias de rua fazem vendas online e parceria com autores para não fecharem


Anne Barbosa e Paula Forster, da CNN em São Paulo
30 de abril de 2020 às 23:10

De um lado, a queda no número de vendas e no faturamento do varejo de livros. Do outro, a ascensão do mercado online. A pandemia do novo coronavírus tem levado muitos comerciantes a se reinventarem. Com as livrarias não tem sido diferente.

"Nós rapidamente nos organizamos, porque não tínhamos um comércio online. Então, a gente foi percebendo que havia uma oportunidade e necessidade nesse momento em que as pessoas estão em casa de oferecer um carinho", afirma Mônica Carvalho, proprietária da Livraria da Tarde, localizada em Pinheiros, zona oeste de São Paulo. 

A livraria fechou as portas um dia antes de completar três meses de funcionamento. A inauguração foi no dia 21 de dezembro e no dia 20 de março teve de fechar para cumprir a quarentena. A alternativa foi começar a receber pedidos pela internet e, junto a uma empresa de consultoria, disseminar o movimento #EmCasaComLivros, que incentiva as pessoas a se presentearem com livros, levando mais literatura e suavidade para o isolamento social.

"Aquilo me tocou, porque veio com um bilhete dizendo que fazia parte de um movimento. No dia seguinte, já comprei outro livro e presentei um amigo meu", disse a consultora de empresas Selma Fukushima, que participou da campanha.

Na Livraria Mandarina, também em São Paulo, além das vendas online, a escolha foi por parcerias com escritores e editoras. Com isso, as vendas ultrapassaram os limites do bairro. "Para fora do Brasil, a gente não conseguiu entregar ainda, mas tem gente procurando. A gente tem enviado para vários estados e isso é novo. A pessoa não tem que vir até aqui, mas ela pode receber nossos livros", afirma a livreira Daniela Amendola.

O escritor Milton Hatoum também decidiu fazer parte dessa corrente do bem e está escrevendo dedicatórias nos livros vendidos por essa livraria. "Espero que essa solidariedade não vá embora depois da pandemia. Que ela fique e seja uma herança positiva de todo esse desastre", afirmou. 

Números

O setor, que em janeiro mostrou uma tímida melhora depois de três anos de recessão (2015, 2016 e 2017) e da recuperação judicial de duas grandes redes de livrarias do país (Saraiva e Cultura), registrou queda de 18,3% no faturamento no mês de março, em relação ao mesmo período do ano passado. Já a queda no número de unidades vendidas foi de 15,7%. Os dados são do levantamento mensal realizado pela GFK, em parceria com a Associação Nacional de Livrarias (ANL), e já refletem o fechamento das lojas devido à quarentena.  

Segundo o presidente da ANL, Bernardo Gurbanov, a pandemia também tem impulsionado as vendas online, chegando a atingir o pico de 40% a 45% no faturamento de algumas empresas. “Logicamente, as grandes têm vantagem nisso, mas também as pequenas vêm inovando, promovendo eventos online com os clientes e fazendo as vendas também dos livros físicos pela internet”, explica.

Em meio a este contexto, as livrarias também têm oferecido mais descontos e promoções aos consumidores. O levantamento da ANL/GFK mostra que a média dos descontos foi maior no mês de março deste ano em relação ao ano passado, 15,1% contra 13,8%. 

Com as livrarias fechadas, a produção do mercado editorial também é impactada. A Abigraf (Associação Brasileira da Indústria Gráfica) fala em queda no faturamento da produção do setor que varia entre 40% e 50% no mês de março em comparação com fevereiro, por conta do cancelamento de pedidos de revistas setoriais, jornais tabloides e lançamentos de livros. Não há, por enquanto, previsão de retomada.