Poupança e Tesouro rendem menos com corte da taxa Selic: o que fazer?


Juliana Elias do CNN Business, em São Paulo
06 de maio de 2020 às 20:09 | Atualizado 06 de maio de 2020 às 21:52
Cofre de porquinho
Foto: Unsplash/Freerange Stock

A redução da taxa Selic, anunciada nesta quarta-feira (6) pelo Banco Central (BC), reduz ainda mais os rendimentos dos dois investimentos preferidos do brasileiro: a poupança e o Tesouro Selic (a única opção de título pós-fixado do Tesouro Direto).  

O BC cortou a taxa de 3,75% para 3% ao ano, e tanto a remuneração da poupança quando do Tesouro Selic são diretamente vinculadas a elas. A poupança é livre de impostos e paga atualmente 70% da Selic – com isso, o rendimento dela passa a ser de 2,1% ao ano. Já o Tesouro Selic remunera exatamente a Selic, mas tem desconto de Imposto de Renda (IR) sobre o rendimento, que varia de 22,5% a 15% de acordo com o prazo. Seu ganho líquido, portanto, passa a variar de 2,1% a 2,3% ao ano.

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A “boa notícia” é que a inflação também deve despencar neste ano, o que abre uma pequena folga nos lucros. Ainda assim, a margem fica muito próxima de zero: a projeção de mercado para a inflação em 2020 está em 1,97%, o que deixaria o ganho líquido da poupança e o Tesouro Selic entre 0,1% a 0,3% em um ano, já subtraída a perda com a inflação. 

As margens espremidas tornam ainda mais difícil a tarefa do investidor de manter o mesmo ritmo de ganhos de sua carteira. Buscar títulos públicos e privados com prazos mais longos e fora dos bancos é um caminho para encontrar remunerações melhores sem precisar sair da renda fixa, de acordo com especialistas consultados pelo CNN Business

Para os mais arrojados e mesmo os conservadores fica cada vez mais latente a necessidade de migrar uma parte da carteira para a renda variável. “Uma pessoa muito, muito conservadora e avessa a oscilações pode ter 5% dos investimentos em renda variável, não é um problema”, disse a planejadora financeira Viviane Ferreira, certifica pela Planejar.

Reserva de emergência: sem opção

De acordo com Ferreira, para os investimentos de curto prazo, não tem como fugir das opções básicas, e a poupança e o Tesouro Selic continuam sendo as principais alternativas para isso – nesses casos, conseguir empatar com a inflação já é bônus em um cenário de juros baixos. 

Esta é a parte da carteira em que ficam a reserva de emergência e os investimentos com menos de um ano de duração. É aquele dinheiro que a pessoa precisa ter a mão para usar à hora que quiser, sem amarras. 

“As pessoas acham que vão ficar ricas com essa rentabilidade, não é o caso, é um dinheiro de curto prazo”, diz. “Para objetivos de mais longo prazo, de dois, cinco, dez anos, já começam a haver opções melhores de vencimentos mais longos, e aí esse investidor vai ter que começar a olhar para elas.”

Opções dentro do Tesouro

O Tesouro Selic é a opção mais negociada do Tesouro Direto e a única pós-fixada – isso significa que os juros variam mês a mês, de acordo com a Selic, diferentemente daqueles pré-fixados, que têm uma taxa determinada desde o início e que não muda. 

Ele é o mais indicado como reserva de emergência e substituto direto da poupança porque remunera um pouquinho mais e é o único dos títulos públicos que pode ser resgatado a qualquer momento, antes do vencimento, sem perdas. Os demais têm preços que flutuam ao longo da vida de acordo com o mercado (embora quem segure o título até o vencimento sempre receba exatamente o rendimento que contratou).

O Tesouro IPCA+ (título que remunera a inflação somada a um juro adicional fixo) é uma das opções mais indicadas por todos os especialistas para os investimentos de longo prazo. “Para os perfis conservadores é uma das opções mais seguras e é muito confortável, porque não importa o que acontecer nos próximos anos, o investidor tem sempre a garantia de que ganhará mais do que a inflação”, disse Bernardo Pascowitch, fundador da plataforma de comparação de investimentos Yubb. 

O Tesouro tem títulos com vencimentos que vão de 2023 até 2050. As datas e remunerações podem ser checadas na página do Tesouro Direto

Prazos mais longos

A maneira de turbinar a rentabilidade, ainda dentro da renda fixa, passa necessariamente por buscar títulos com vencimentos mais longos. Quanto maior o prazo, maiores tendem a ser os juros pagos. CDBs, LCAs e LCIs, além dos próprios títulos públicos, são as principais opções nesse caso.

O problema é que, na grande maioria das vezes, são títulos que não têm liquidez, isto é, que não podem ser resgatados antes do vencimento ou que podem, mas ficam sujeitos ao preço de recompra do dia, que pode ser menor do que o valor originalmente investido. Por isso é importante ter um bom planejamento para qual parte do dinheiro vai para o que. 

Pascowitch, da Yubb, também reforça que títulos dentro dos grandes bancos costumam remunerar menos que similares oferecidos por bancos médios e corretoras. “Os bancos grandes têm CDBs remunerando até 85% ou 80% do CDI”, disse. Para uma Selic de 3%, isso é 2,5% ao ano, ainda sujeito ao desconto de IR, o que os coloca próximo ou abaixo da poupança. 

“Há no mercado opções que pagam 120%, 130% e até mais de 140% do CDI, e com a mesma garantia do FGC”, disse, referindo-se ao Fundo Garantidor de Crédito, que cobre perdas de até R$ 250 mil em títulos como CDBs, LCAs e LCIs em caso de quebra do banco emissor.

ETFs: porta de entrada para a bolsa

Em um cenário de juros cada vez mais baixos, a saída pela renda variável se torna um caminho inevitável. Ela é recomendada mesmo em uma pequena fatia do portfolio no caso dos investidores mais conservadores, e com o foco no longo prazo. 

Viviane Ferreira, da Planejar, menciona os ETFs como uma boa porta de entrada para a bolsa de valores, tanto para os que têm receito quanto para os que conhecem pouco o mercado. Os ETFs são espécies de fundos que replicam as ações que compõem índices da bolsa de valores, como o Ibovespa ou mesmo o S&P, da bolsa de Nova York.

“Cada índice desses tem muitas empresas e a pessoa não tem que ser ‘expert’ para tê-los”, disse Ferreira. “Se uma empresa fica muito ruim, ela sai do índice; se ela estiver muito bem, ela entra para índice.” 

Os ETFs são comercializados na B3, a bolsa brasileira, de maneira muito similar a ações, por códigos próprios, e podem ser comprados por valores a partir de cerca de R$ 100. Também possuem uma taxa de administração, que varia de ETF para ETF e deve ser checada antes. A lista de ETFs disponíveis no mercado brasileiro atualmente pode ser checada no site da B3.

Fundos de investimentos especializados em ações também são outra alternativa para entrar na bolsa de valores por meio de uma carteira já diversificada e administrada por gestores profissionais.