Como o homem mais rico da Ásia tenta construir o próximo gigante de tecnologia


Sherisse Pham, Da CNN
20 de maio de 2020 às 13:53
Mukesh Ambani

Sob a liderança de Ambani, a Reliance Industries passou de uma empresa de petróleo e energia para um conglomerado em expansão com lojas de varejo, operadora de banda larga e móvel, plataformas digitais e outros negócios.

Foto: Rajanish Kakade/AP

O bilionário indiano Mukesh Ambani quer erguer a próxima gigante mundial de tecnologia. Se ele jogar direitinho as cartas que tem hoje nas mãos, sua operadora de celular e empresa de tecnologia JioPlatforms pode estar em breve ao lado de empresas como Google (GOOGL), Amazon (AMZN), Alibaba (BABA) e Tencent (TCEHY).

A JioPlatforms já possui um ecossistema de aplicativos (que inclui tudo, desde compras de supermercado on-line a streaming de vídeo) que serve 388 milhões de assinantes através da rede móvel Reliance Jio na Índia.

O próximo passo do homem mais rico da Ásia é ainda mais ambicioso. Em apenas quatro semanas, ele conseguiu angariar um fundo de US$ 9 bilhões [aproximadamente R$ 51 bi] guardado para emergências pelo Facebook (FB) e por uma enxurrada de investidores norte-americanos da primeira linha. Com essa injeção de investimento, Ambani quer alimentar a próxima fase de seu domínio da internet da Índia, a que mais cresce no mundo.

O magnata indiano "com toda certeza [quer que a JioPlatforms] seja mais do que uma empresa de telecomunicações – ele quer que ela vire o próximo Google ou Tencent da Índia", disse Wylie Fernyhough, analista da Pitch Book.

De acordo com Tarun Pathak, analista de pesquisa da Counterpoint, o "objetivo final” do negócio é se levar tudo para todos os indianos e construir uma plataforma indispensável para as centenas de milhões de clientes da internet no país.

Jio Platforms cards.

O bilionário Mukesh Ambani quer que a Jio Platforms seja um lugar onde os indianos possam fazer tudo, de serviços bancários móveis e de mensagens a interação nas mídias sociais.

Foto: Indranil Mukherjee/AFP via Getty Images

Um novo tipo de gigante da tecnologia

Sob a liderança de Ambani, a Reliance Industries passou de uma empresa de petróleo e energia para um conglomerado em plena expansão que inclui lojas de varejo, operadora de banda larga e móvel, plataformas digitais e outros negócios.

Mas, para levar seus planos para o nível seguinte, o magnata precisava da adesão do Vale do Silício - daí sua parceria de US$ 5,7 bilhões [aproximadamente R$ 32,4 bi] com o Facebook e seu serviço global de mensagens WhatsApp. Quando o acordo foi anunciado no mês passado, a escala de sua ambição ficou clara.

“Essa receita vencedora será estendida para atender a outros stakeholders da sociedade indiana. “Nossos kisans [lavradores]. Nossas pequenas e médias empresas. Nossos alunos e professores. Nossos profissionais de saúde", declarou Ambani.

O acordo, que ainda aguarda aprovação regulatória, sinalizou que Ambani e o Facebook estão tentando criar "algum tipo de plataforma na qual você pode fazer tudo, incluindo serviços bancários móveis, trocas de mensagens, uso de mídias sociais até qualquer coisa basicamente construída em apenas uma plataforma”, como contou o analista Fernyhough. Em outras palavras, uma versão do popular serviço WeChat da Tencent na China.

No entanto, ao contrário da Tencent, a JioPlatforms também possui uma rede móvel imensa na qual pode confiar para criar uma base de clientes.

“Nos últimos tempos, empresas de comércio eletrônico, conteúdo, nuvem e tecnologia vêm substituindo as empresas de telecomunicações tradicionais", explicou Pathak. 

Como exemplo, ele lembrou da Rakuten (RKUNF) do Japão, uma empresa de comércio eletrônico que agora trabalha para construir uma rede 5G, e para as operadoras de telefonia móvel dos EUA - que estão se tornando "casas de conteúdo" à medida que cresce o número de norte-americanos que abandonam os cabos e linhas fixas. (A CNN é de propriedade da AT&T (T)).

“De uma hora para outra, as empresas não podem apenas vender dados, elas precisam de muito mais que isso", opinou.

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O Facebook se esquivou de confirmar que está ajudando Ambani a criar um "super aplicativo", observando que as duas empresas continuarão operando separadamente na Índia com seus próprios serviços.

Ao invés de se unirem como uma, as duas empresas estão fornecendo "blocos facilitadores para as pequenas empresas ficarem online, o que permite que muitos outros negócios continuem trabalhando na tecnologia", disse Ajit Mohan, vice-presidente e diretor-gerente do Facebook, na Índia.

Mas mesmo esse nível de colaboração já dá ao magnata indiano uma grande influência na Índia, permitindo que ele encontre novos clientes, oferecendo serviços online e ferramentas digitais exigidas pelos indianos.

Lojas de esquina dominam

As compras online de suprimentos são o primeiro alvo da parceria. Segundo Bernstein, elas representam 70% do mercado de varejo indiano -- e mais de 90% dessa fatia é desorganizada e impulsionado por pequenas lojas familiares de bairro, as lojinhas, muitas vezes de esquina, conhecidas como kiranas na Índia. O mercado geral de varejo deverá dobrar de US$ 676 bilhões [aproximadamente R$ 3 850 bi], em 2018, para quase US$ 1,3 trilhão [aproximadamente R$ 7,4 tri] em 2025, segundo Bernstein.

Já o mercado de compras online da Índia é pequeno em comparação, valendo cerca de US$ 3 bilhões [aproximadamente R$ 17 bi] este ano, segundo a empresa de pesquisa Forrester. A companhia lembra, no entanto, que esse número está crescendo rapidamente, pois a pandemia está mudando de forma acelerada os hábitos de compra das pessoas.

Quando a plataforma JioMart foi lançada no final do ano passado, sua meta era convencer 30 milhões de pequenos comércios a fazer negócios a partir dela.

A pandemia da Covid-19 e o respectivo lockdown na Índia aceleraram a necessidade de colocar as kiranas online rapidamente. Para pôr esse plano em ação, a ajuda do WhatsApp será fundamental, já que mais de 400 milhões de indianos o usam como seu principal aplicativo de mensagens. É comum que as pessoas enviem mensagens de texto diretamente às empresas e lojas para comprar mercadorias ou perguntar sobre produtos e serviços.

A JioMart e o WhatsApp "tornarão a vida mais complicada para a Amazon (AMZN) e FlipKart, empresa do Walmart (WMT). Afinal, o lockdown provou que a Amazon e a FlipKart não estão equipadas para fornecer mantimentos na Índia em seu formato atual", disse Satish Meena, analista da Forrester.

Foi exatamente essa a experiência de Sambit Mohanty, 40 anos, executivo de vendas e marketing. Preocupado com os pais idosos, Mohanty encomendou itens básicos como folhas de chá e sopa para eles pela Amazon -- mas a entrega demorou 10 dias. Para completar, Mohanty também não conseguiu comprar brinquedos para a filha na Amazon, porque a empresa parou de receber pedidos de itens não essenciais.

Mohanty passou, então, a recorrer às mercearias locais - muitas das quais negociam no WhatsApp. “Bastou um comunicado do governo para a Amazon colocar um [aviso] online dizendo que os produtos não seriam entregues", contou. “Mas as lojas locais, as kiranas, estão sempre disponíveis."

Há algumas desvantagens em confiar nas lojinhas familiares: as kiranas podem ter problemas para acompanhar o próprio estoque, pois muitos proprietários registram o inventário à mão, escrevendo os itens em um livro e riscando-os quando são vendidos.

Se a JioMart puder angariar as milhões de kiranas que deseja, e com isso também organizá-las e ajudá-las a manter o controle do estoque, o jogo pode virar. A Reliance também possui o maior número de mercados de varejo da Índia, que poderiam atuar como fornecedores parceiros.

Pathak, da Counterpoint Research, disse que será mais fácil convencer os comércios familiares a se juntarem à JioMart porque o WhatsApp está envolvido na transação -- assim, os donos não precisariam baixar e aprender a usar outro aplicativo.

Bom para os resultados da Ambani

A onda recente de captação de recursos vai além das perspectivas do crescimento digital da Índia. O magnata Ambani também precisa de dinheiro para pagar a dívida crescente da Reliance Industries.

Logo após o anúncio do acordo com o Facebook, a JioPlatforms revelou mais três grandes fontes de investimentos: recebeu US$ 750 milhões [aproximadamente R$ 4 272 milhões] da Silver Lake, US$ 1,5 bilhão [aproximadamente R$ 8,5 bilhões] da Vista e US$ 870  milhões [aproximadamente R$ 4 955 milhões] da General Atlantic.

Ao todo, Ambani garantiu cerca de US$ 9 bilhões [aproximadamente R$ 51 bi] em menos de quatro semanas. Analistas dizem que o empresário está sob pressão para quitar dívidas, compensar as quedas massivas que vem enfrentando no petróleo e em outros setores, além de provar o valor da JioPlatforms.

O bilionário disse em uma assembleia geral no ano passado que deseja que a Reliance Industries se torne uma "empresa com dívida líquida zero" até março de 2021. Em março de 2020, a Reliance possuía cerca de US$ 44 bilhões [aproximadamente R$ 250 bi]  em dívidas.

“A Reliance também precisa de tecnologia para mudar de uma empresa de comércio e petróleo para uma empresa de software", opinou Meena, da Forrester. A pandemia prejudicou seriamente o negócio de petróleo. A demanda global de petróleo caiu devido a fortes quedas nas atividades de transporte, industrial e comercial.

Provavelmente há mais dinheiro vindo do caminho de Ambani.

Os investidores veem o potencial "da versão indiana do WeChat e de centenas de bilhões de dólares que isso pode valer um dia. Ser capaz de colocar esse negócio nas ruas é algo muitíssimo interessante para muita gente", disse Fernyhough, da Pitchbook.

No mês passado, a Reliance Industries disse que está adiantada e atingirá sua meta de dívida zero até o final do ano.

— Swati Gupta, da CNN, contribuiu para esta reportagem.