Em alta na Bolsa, WEG cogita ampliar medidas anticrise na pandemia


Luís Lima, do CNN Brasil Business, em São Paulo
27 de maio de 2020 às 07:43 | Atualizado 27 de maio de 2020 às 08:59
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Hoje presente em 12 países, a catarinense WEG foi fundada em 1961 em Jaraguá do Sul (SC)

Foto: Amanda Perobelli/Reuters

A fabricante de motores elétricos e automação WEG vive em um mundo à parte na bolsa de valores em 2020. Enquanto a grande maioria das companhias listadas na B3 sofre com a insegurança dos investidores e os efeitos da pandemia da Covid-19, a empresa catarinense é uma das únicas que pode comemorar um aumento do valor de suas ações este ano.

Para efeitos de comparação, as ações da WEG subiram 17,1% desde janeiro até a última terça-feira (26), enquanto o Ibovespa, que é o principal índice da Bolsa, amarga uma queda de 26% no mesmo período.

A alta acumulada não significa que empresa esteja blindada dos efeitos da pandemia. Pelo contrário – os impactos devem ser precificados de forma mais concreta nos balanços dos dois próximos trimestres.

Para minimizar potenciais perdas e, de quebra, preservar a boa reputação no mercado, a companhia tem feito a lição de casa, que inclui a renegociação de prazos de pagamentos, postergação de investimentos, redução de jornadas e salários, entre outras medidas. 

Com o objetivo de proteger o caixa e evitar demissões, a companhia está disposta, inclusive, a ampliar ações anticrise, disse André Luís Rodrigues, diretor administrativo e financeiro da WEG, em entrevista exclusiva ao CNN Brasil Business

Na semana passada, a empresa catarinense anunciou a redução em 25% da jornada de trabalho e, consequentemente, os salários de cerca de 12 mil profissionais da unidade motores de Jaraguá do Sul e Itajaí, em Santa Catarina, de junho a agosto de 2020, após recorrer à Medida Provisória (MP) 936 do governo federal.

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Se necessário, diz Rodrigues, a companhia tem condições de ampliar esse prazo, a partir de recursos próprios. “É uma das alternativas que temos para evitar demissões, porque sabemos que pagaremos por isso (eventuais demissões) lá na frente”, defende.

Desde o início de maio, a WEG já estava operando com redução de jornada de 25% na unidade de Tintas e Vernizes, em Guaramirim (SC), bem como redução de jornada de 50% na unidade de Motores Comerciais e Appliance, em Linhares (ES).

Como exemplo anterior, Rodrigues citou a crise política de 2016, quando a empresa já havia optado pela redução de jornadas e salários, por seis meses. “Gostamos muito do modelo de redução de jornada (...) Quando a economia volta, você já está com sua equipe mobilizada e rapidamente consegue retomar os patamares de produção do passado”, argumenta.

Uma das justificativas para não demitir é o elevado grau técnico dos colaboradores da empresa, o que implicaria na perda de investimentos em treinamento e formação. No total, a WEG emprega mais de 30 mil colaboradores no mundo todo. 

Impactos nos negócios 

No primeiro trimestre, os reflexos da crise ainda não foram incorporados nos resultados financeiros. De janeiro a março, a empresa teve um lucro líquido de R$ 440 milhões, alta de 43% sobre o mesmo período do ano passado. Já a receita cresceu 27% na mesma base de comparação, para R$ 3,71 bilhões. Segundo Rodrigues, no entanto, os números “não representam a realidade do resto do ano.”

“Devemos ter um impacto maior no segundo e terceiro trimestres, e tomara que, no quarto e último, uma parte relevante disso tenha ficado para trás. Tudo depende de onde estará a curva de contaminação”, explica o diretor financeiro.

André Luís Rodrigues

André Luís Rodrigues, diretor administrativo e financeiro da WEG

Foto: Divulgação

Para minimizar os impactos potenciais no futuro, a WEG também tem adotado a renegociação de prazos de pagamentos com “bons clientes”, no Brasil, “dentro de um patamar administrável e similar a crises anteriores”. Também decidiu reduzir pela metade o investimento previsto para este ano, originalmente de R$ 700 milhões.

“Não são cancelamentos, mas postergações (de investimentos). Preferimos ser mais conservadores, verificar como será a retomada, para decidir qual o melhor momento de começar esses investimentos. Tudo isso voltado na preservação de caixa.”

Com fábricas em 12 países, a China, epicentro da pandemia, foi o primeiro onde a WEG sentiu reflexos da Covid-19, com uma queda acentuada da demanda asiática, que, posteriormente foi compensada por encomendas dentro da própria China. No gigante asiático, a WEG tem quatro unidades de produção, incluindo uma de motores elétricos, e emprega cerca de 2 mil pessoas, que já trabalham regularmente.

Entre os tipos de produtos, os mais afetados são os chamados de ciclo curto, como motores usados em máquinas de lavar roupa e ar condicionado, por exemplo, e que respondem por até 65% do faturamento.

Já os de ciclo longo, como transformadores, motores de alta tensão e turbinas eólicas, os impactos foram praticamente nulos. Isso porque cada produto implica em um grande projeto de engenharia, que pode levar até dois anos, e que é mais difícil de suspender. 

“A nossa carteira de produtos de ciclo longo está muito positiva (…) Se não tivermos postergações ou cancelamentos, isso já ajuda a amenizar os impactos da Covid-19”, diz Rodrigues.

Valorização na Bolsa 

Na contramão da maioria das empresas, a ação WEG na B3 (WEGE3) tem valorização de 1,2% no mês, e de 17,14% no ano, considerando dados de fechamento desta terça-feira (26). Na Bolsa desde 1971, e no Ibovespa desde 2016, o papel terminou cotado R$ 40,42 na véspera. Na máxima do ano, no fim de fevereiro, chegou perto dos R$ 50.

Na avaliação de Rodrigues, os números positivos são reflexos de um conjunto de fatores, que guiam a empresa desde o seu fundamento, em 1961. Entre oturos, cita a boa governança, inovação tecnológica em áreas como eficiência energética e energias renováveis, e diversificação geográfica, com quase 60% da receita baseada em operações no exterior.

Segundo o executivo, a presença global da empresa se torna ainda mais estratégica em tempos de dólar valorizado, o que ajuda a turbinar receitas, e de atenuação da pandemia em outras regiões, como Europa e China. “A exposição da WEG lá fora ajuda neste momento”, sustenta.

Ação está cara?

A maior resiliência para atravessar a instabilidade atual no mercado de renda variável faz da ação da WEG uma opção de investimento estratégica durante a crise. Analistas do mercado financeiro reforçam que a exposição da companhia é relativamente menor a de outras empresas devido a vários motivos: presença global com portfólio amplo de produtos; baixa concorrência; parte da receita em dólar (em momento de alta da moeda norte-americana); e operações de médio e longo prazo em setores mais resistentes, como o de energia.

“É uma ação que o mercado vê como defensiva de uma empresa que tem investimentos que não são definidos, e tampouco suspensos, do dia para a noite. Portanto, não vemos tanto impacto nas receitas”, avalia Luis Sales, analista da Guide Investimentos.

Analistas ouvidos pela Bloomberg esperam que o papel da WEG termine o ano cotado entre R$ 37 e R$ 42, dentro do patamar em que o está o preço atual (a R$ 40,42, segundo valor de fechamento desta terça-feira). Ainda que essa previsão mude, Henrique Esteter, também analistas da Guide, recomenda a compa da ação.

“Ainda que o brasileiro médio não saiba nem que exista, é uma empresa que faz sentido ter na carteira. É eficiente, resiliente, com diversificação tanto em segmentos como em mercados de atuação”, justifica Esteter.

Agentes de mercado ainda destacam a boa governança, inovação e capacidade de gestão, além da imagem positiva na sociedade. Apesar do diagnóstico positivo, a recomendação de compra não é unânime. Mais cauteloso, Daniel Herrera, analista da Toro Investimentos, pondera que a empresa deve sofrer impactos mais concretos nos próximos trimestres, na esteira da desaceleração econômica do país.

“Entendemos que o preço da ação não está tão atrativo. Gostamos muito da empresa, que tem diversificação, caixa, resultados consistentes. Mas, por melhor gerida que seja, está atrelada ao ciclo econômico, vulnerável aos impactos da crise”, diz Herrera.

Segundo os analistas, os resultados financeiros do segundo e terceiro trimestres ajudarão a dimensionar melhor os impactos da crise da Covid-19, assim como a capacidade e a velocidade com que a WEG terá para superar o momento atual.

“Apesar de impactos de curto prazo, temos uma visão positiva no médio e longo (prazos). A recuperação da empresa deve ser mais rápida, já que dispõe de oportunidades de crescimento e aquisição recente de novas empresas e produtos”, defende Sales, da Guide.

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