Raia Drogasil não vê desabastecimento de cloroquina e mantém plano de expansão


André Jankavski do CNN Brasil Business, em São Paulo
22 de maio de 2020 às 12:05 | Atualizado 22 de maio de 2020 às 14:10

A Raia Drogasil tem experiências em pandemias. No início do século passado, por exemplo, a empresa já existia no meio da crise da gripe espanhola e mesmo assim não fechou as lojas. Por isso, na visão do executivo Marcílio Pousada, que é o presidente da empresa desde 2013, não será a Covid-19 que mudará os planos da empresa para o longo prazo.

A empresa que é resultante da fusão da Droga Raia com a Drogasil, ocorrida em 2011, é a maior rede de farmácias do Brasil, com mais de 2 mil unidades espalhadas pelo país. O plano de expansão ano a ano da empresa é ousado: abrir mais de 200 farmácias por ano. A meta é estar em cada esquina do brasileiro.

Mesmo com a Covid-19 atrapalhando as aberturas desde março, já que diversos órgãos públicos e até mesmo empresas de construção estão parados, Pousada acredita que será possível manter o plano de repetir o mesmo número de inaugurações do ano passado, que foi de 240. 

“Estamos com dificuldades nas aberturas, seja por problemas regulatórios ou quarentena de cidades, mas o nosso guidance (previsão) continua a mesma”, diz Pousada.

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Mas a quarentena mudou a forma como o consumidor se relaciona com a farmácia. Isso ficou claro nos resultados já do primeiro trimestre, especialmente a partir de março. Na primeira quinzena daquele mês, as vendas da Raia Drogasil deram um salto. O motivo: as pessoas estavam se preparando para ficar mais tempo em casa e fizeram estoques. 

O movimento não deu um susto, pois a empresa tinha estudado e percebido esse movimento ao estudar outros mercados na fase inicial da pandemia. Por isso, não chegou a ocorrer o desabastecimento, apesar de em alguns momentos itens como álcool em gel e máscaras terem faltado em algumas unidades. 

Medicamentos como hidroxicloroquina e a cloroquina, apostas do presidente Jair Bolsonaro para a cura, apesar da falta de estudos sobre a real eficácia, também foram bastante procurados, mas a falta de receita de diversas pessoas não fez o remédio, indicado para lúpus e malária, faltar nas prateleiras.

“Houve uma corrida às lojas e o governo acertou em colocar a cloroquina como medicamento controlado, por receita”, diz Pousada. “Por enquanto, temos estoques, mas a indústria está trabalhando para manter o tempo inteiro.”

Logo, as vendas da última semana março e em abril deram uma reduzida, mas voltando para perto dos volumes que eram esperados para um período normal, sem quarentena. As vendas de maio, segundo Pousada, estão em patamar similar de abril. Atualmente, 95% das farmárcias do grupo estão abertas – as que fecharam estão localizadas dentro de shoppings.

Vendas pela internet (e telefone)

A Raia Drogasil também precisou acelerar bastante o seu plano de digitalização com a pandemia. Não que isso era ignorado antes. Ao contrário. Em 2019, por exemplo, a empresa comprou a concorrente Onofre, que era controlado pela empresa americana CVS, que decidiu abandonar o país. O forte da Onofre era, exatamente, as vendas à distância.

Mas não só o e-commerce tradicional passou a ser foco da empresa. Até maneiras que hoje podem ser consideradas “rudimentares”, como as vendas por telefone, começaram a ganhar espaço. Obviamente, o aplicativo WhatsApp também entrou na jogada. 

Não por acaso, as vendas à distância deram um salto na pandemia. Se antes representavam 2,3%, atualmente estão em 5,7%. Pousada diz não poder falar qual é a meta que a empresa quer alcançar. “Mas não queremos ceder esse patamar e ele só tende a crescer. O cliente é cada vez mais multicanal e quer ser atendido em todos os lugares.”

Nas lojas, a Raia Drogasil passou a criar uma maneira de atender. O cliente fica sempre a mais de um metro de distância do atendente – até mesmo na hora de realizar o pagamento. Na entrada, sempre há funcionários oferecendo álcool em gel. 

A empresa também tenta fazer a sua parte para ajudar e anunciou a doação de R$ 25 milhões para o Fundo Emergencial para a Saúde. O dinheiro será destinado para 50 hospitais sem fins lucrativos que atendem, principalmente, pequenas e médias cidades.

Vale a pena comprar ações da RaiaDrogasil?

O resultado do primeiro trimestre foi visto como positivo e acima das expectativas por analistas de mercado. A empresa apresentou uma receita líquida de R$ 4,9 bilhões de janeiro a março de 2020, 25% maior do que o número registrado no mesmo período de 2019. O lucro subiu ainda mais: 44,7%. 

Nos últimos 12 meses, a ação da Raia Drogasil teve um salto de 67%. De janeiro até o fechamento da quinta-feira (21%), o papel teve perdas, mas bem menores do que comparado ao Ibovespa: queda de 2,1%, ante redução de 29% do principal índice da bolsa.

Porém, alguns analistas são receosos com os ganhos que o papel da empresa pode ter no futuro. Em relatório assinado pelos analistas Pedro Galdi e Fernando Bresciani, da Mirae Asset, há boas expectativas com o crescimento da Raia Drogasil. 

Mas, como o preço alvo da ação é de aproximadamente R$ 120 (atualmente está em R$ 109), o baixo percentual de potenciais ganhos o fez colocar a recomendação para a ação como “neutra”. Ou seja, manter o papel na carteira, mas não indica comprar mais ações por agora.

O Banco do Brasil classificou a ação da Raia Drogasil como “outperform”, o que significa que o valor de mercado da empresa está acima ao superior ao esperado pela instituição financeira anteriormente. O Itaú acredita que a ação pode chegar ainda a R$ 130 até o fim do ano, o que daria um retorno de quase 20%. 

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