Por crise, shoppings da Multiplan dão R$ 300 milhões em isenções a lojistas


André Jankavski, do CNN Brasil Business, em São Paulo
29 de maio de 2020 às 14:33 | Atualizado 29 de maio de 2020 às 15:15
Shopping Morumbi, em São Paulo

Shopping Morumbi, em São Paulo: Ainda não há previsão para reabertura das unidades da Multiplan na capital paulista

Foto: Multiplan/Divulgação

O setor de shoppings foi um dos mais afetados pela crise do novo coronavírus. Por não serem considerados serviços essenciais, quase que todos foram fechados (e muitos se mantêm dessa forma). A Multiplan, que é uma das maiores companhias do setor, sentiu um impacto milionário por causa dessa decisão.

Não que os executivos da empresa não concordem com a quarentena. Ao contrário. Até mesmo com as reaberturas programadas em algumas regiões, a companhia diz prezar pela saúde e cuidado com os clientes. Mas os lojistas diminuíram seu faturamento a zero com os portões fechados – e a pressão sobre os aluguéis começou a partir daí.

A solução da Multiplan foi diminuir a praticamente zero o valor dos aluguéis. Em março, o corte foi de 50% no condomínio, mas o valor da locação foi mantido. Já em abril, a Multiplan deixou de cobrar os aluguéis e permaneceu com as cobranças pelos condomínios, que com o fechamento das unidades ficaram mais baratos. Isso deve ser repetido no mês de maio.

A questão foi o rombo nas contas da empresa. Somente em março e abril, com as isenções, a empresa deixou de ganhar R$ 300 milhões – dinheiro esse que não volta mais. Como as isenções de maio não foram contabilizadas, o impacto deve ser ainda maior no balanço do segundo trimestre.

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“Tivemos que ir aprendendo com o translatântico em movimento”, diz Vander Giordano, vice-presidente institucional da Multiplan. “Foi uma ajuda que tivemos que dar para os nossos parceiros atravessar essa crise.

Nos resultados do primeiro trimestre, a companhia apresentou um aumento das vendas de 3,8%, assim como o lucro foi 93%, a R$ 178 milhões, mais alto do que o apresentado no mesmo período do ano passado. Logo, esses R$ 300 milhões representam perto de 70% de todo o lucro da empresa de janeiro a março. 

Além disso, também houve aumento de gastos em outras áreas. Pensando em reaberturas futuras, a empresa contratou infectologistas e profissionais da saúde para criar uma espécie de manual com protocolos de segurança para o esperado “novo normal”. 

“Também chamamos de momento ‘anormal’, pois é totalmente diferente, atípico, do que vivíamos”, diz Giordano. “Isso que nos orientou no ponto de vista de operações nesse momento de retomada.”

Atualmente, apenas quatro shoppings dos 19 que a empresa possui estão abertos – três na região Sul do país e um em Brasília. Os quatro, segundo Giordano, estão com protocolos como controle de entrada, distanciamento de mesas em restaurantes e praças de alimentação, diversos pontos com álcool em gel e limpezas constantes.

Em São Paulo, estado em que a empresa possui unidades como o Shopping Morumbi e o Shopping Anália Franco, ainda não há um prazo para reabertura. A empresa ainda espera os decretos estaduais e municipais para planejar o cronograma. 

“Nossa preocupação é com uma reabertura serena e bem controlada”, diz ele.

A questão é que os clientes também estão controlados. Segundo relato dos lojistas dos shoppings reabertos, o movimento está entre 40% e 50% do normal. O tempo médio deles dentro do estabelecimento também diminuiu. Por outro lado, o cliente é mais assertivo: ele vai sabendo que vai gastar, segundo Giordano. Logo, a recuperação das vendas pode ser mais rápida.

Saída digital

No momento de crise, o setor de shoppings também tentou ser mais digital para tentar abocanhar uma fatia do comércio eletrônico – que tem feito a alegria dos investidores de empresas como Magazine Luiza, Via Varejo e Mercado livre nas bolsas.

O movimento aconteceu somente por causa da pandemia, mas foi acelerado. A empresa é uma das sócios da startup Delivery Center, juntamente com a concorrente brMalls e também conta com José Galló, ex-presidente da Lojas Renner, como um dos sócios. Em janeiro, a Multiplan e a brMalls fizeram um aposrte de R$ 69 milhões na empresa. Até agora, a empresa já recebeu cerca de R$ 100 milhões em investimentos.

Entre os serviços prestados pela Delivery Center estão entregas de compras realizadas no e-commerce de shoppings no mesmo dia. Isso ocorre por meio de motoboys parceiros, modelo similar ao adotado por aplicativos como Uber Eats e Rappi.

Giodarno diz que houve um aumento de 30% nos serviços da empresa nos shoppings da Multiplan com a pandemia, mas não dá o número base e nem a representatividade nas vendas no período. A empresa também adotou vendas no estilo “drive-thru”, em que o cliente passa de carro para pegar a compra.

Ações baratas?

O setor de shoppings foi um dos mais atingidos na bolsa por causa da pandemia. O motivo é óbvio: pouquíssimos se mantiveram abertos com as medidas de quarentena adotadas pelo Brasil. 

A Multiplan sofreu menos que as concorrentes brMalls, Aliansce, mas também levou um tomo: queda de cerca 35% no valor dos papéis desde janeiro, de acordo com o fechamento da quinta (28). A companhia Iguatemi também teve desvalorização similar.

Nesse momento de reaberturas, vale a pena investir em ações de shoppings? Analistas se dividem, pois ainda há muito risco da pandemia, que não demonstra redução até o momento, durar mais do que o previsto por especialistas e economistas.

“As ações do setor podem ter chegado ao fundo do poço e tem boas oportunidades de ganhos, mas ainda há o risco da pandemia levar a um novo fechamento de estabelecimentos”, diz Pedro Galdi, analista da corretora Mirae Asset. 

Porém, como se sabe no mercado financeiro, riscos também podem significar maiores ganhos. A questão é saber se o investidor está disposto a enfrentar tal volatilidade. 

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