Moderna pode ser alvo de investigação em Wall Street após alta nas ações


Matt Egan e Robert Kuznia, do CNN Business
02 de junho de 2020 às 10:14
vacina Covid-19
Com protocolo acelerado, Moderna realizará fases 2 e 3 da pesquisa até o mês de julho; entenda próximos passos até a aprovação da vacina para o mercado
Foto: Dado Ruvic/Ilustração/Reuters

A farmacêutica Moderna desencadeou um alvoroço em Wall Street no início deste mês ao anunciar resultados preliminares positivos de seu teste de vacina contra o novo coronavírus. À medida que o furor aumentava, a jovem empresa de biotecnologia e seu principal investidor não perderam tempo, aproveitando o aumento momentâneo do valor das ações.

Mesmo quando críticos acusaram a Moderna de exagerar nos resultados divulgados em 18 de maio, uma série de transações foi executada antes que a cotação das ações despencasse na semana seguinte. De acordo com ex-diretores da SEC, a agência federal dos EUA responsável pelo mercado de capitais, o momento para as transações parece ser "altamente problemático" e elas devem ser investigadas quanto à possível manipulação ilegal do mercado.

Poucas horas depois de revelar os promissores resultados da vacina, a Moderna vendeu 17,6 milhões de ações ao público. Divulgada após o fechamento do mercado em 18 de maio, a venda foi realizada ao preço médio de US$ 76 por ação, bem superior à cotação de US$ 48 em 6 de maio. A transação levantou instantaneamente US$ 1,3 bilhão.

Leia também:
Covid-19: vacina da farmacêutica Moderna tem resultado positivo; ações disparam
Moderna anuncia início de vacinas testes e Sanofi interrompe uso de cloroquina
Novavax anuncia testes de vacina contra Covid-19 em humanos; ações disparam

Dois dos principais executivos da Moderna também lucraram com o boom da empresa, que subitamente acumulou um valor de mercado de US$ 29 bilhões, apesar do fato de não possuir produtos comercializados.

O diretor financeiro e o médico-chefe da Moderna venderam quase US$ 30 milhões em ações combinadas em 18 e 19 de maio. Essas vendas, divulgadas pela CNN Business, foram feitas por planos automatizados geralmente usados em negociação com informações privilegiadas, ou seja, insider trading. Tais planos, conhecidos como planos 10b5-1, estabelecem negociações futuras a preços definidos ou em datas definidas para proteger os executivos das acusações de que estão lucrando com informações confidenciais – a Moderna diz que os planos estão alinhados com suas políticas.  

Dias depois, em 21 e 22 de maio, o principal acionista da Moderna, a empresa de capital de risco Flagship Pioneering, vendeu 1 milhão de ações a um preço médio de US$ 69,47, segundo documentos revisados pela CNN Business. As vendas arrecadaram US$ 69,5 milhões para a empresa de capital de risco.

A Flagship Pioneering foi fundada por Noubar Afeyan, cofundador e chairman da Moderna. A empresa de capital de risco possuía quase 51 milhões de ações Moderna no final de março, de acordo com os registros mais recentes.

As vendas da Flagship Pioneering não foram feitas usando os planos automatizados 10b5-1, embora a empresa esteja listada como insider da Moderna. Os insiders não são necessariamente obrigados a negociar com esses planos automatizados, embora muitos optem por fazê-lo.

Quando a venda foi divulgada ao público pelos registros de valores mobiliários, o preço das ações da Moderna havia caído de volta aos valores terrenos.

A Moderna fechou em US$ 55,54 na quinta-feira, dia 28 de maio, uma queda de 36% em relação ao seu pico em 18 de maio, quando os resultados da vacina foram anunciados.

“Altamente problemáticos”


O momento das transações – somado às preocupações de alguns especialistas da área médica de que a Moderna tenha exagerado na importância de seu teste de vacina na Fase 1 – deve ser investigado pelas autoridades, como revelaram ex-diretores da SEC à CNN Business.

“A confluência cria uma aparência, que pode ser imprecisa, de que as pessoas estavam com pressa de tirar proveito de um teste clínico positivo logo no início de um processo que é em geral longo e atormentado, que é o desenvolvimento de um medicamento", explicou Harvey Pitt, ex-presidente da SEC, em entrevista.

Pitt, que liderou a SEC de 2001 a 2003, considerou o momento das vendas de ações da Moderna e seu principal acionista "altamente problemáticos". Ele sugeriu que as autoridades emitissem intimações para ter acesso a e-mails, anotações e outros documentos que possam esclarecer as vendas de ações.

“A soma desses fatos nos deu uma vontade irresistível de pelo menos descobrir o que estava acontecendo na mente das pessoas antes dessas transações".

Thomas Gorman, outro ex-diretor da SEC, disse que a agência deveria investigar "totalmente" a situação na Moderna.

“Isso não é realmente informação privilegiada, mas manipulação do mercado", opinou Gorman, atualmente sócio do escritório de advocacia Dorsey & Whitney. “Parece que estavam exagerando nas ações para poder vendê-las."

A CNN enviou um e-mail à sede da SEC na quarta-feira, dia 27 de maio, mas um porta-voz da agência recusou-se a comentar. Dois dias depois, a CNN fez um pedido de entrevista ao escritório da SEC em Boston, que não respondeu. A Flagship Pioneering, principal acionista da Moderna, também não respondeu aos pedidos de comentários.

Afeyan não respondeu a um e-mail do dia 28 solicitando comentários.

A justificativa da Moderna para a venda

CEO da Flagship e chairman da Moderna, Nouber Afeyan defendeu, em uma entrevista ao The New York Times, a decisão de levantar capital no dia do comunicado de imprensa da vacina. Afeyan disse que o conselho da empresa de biotecnologia estava considerando uma oferta antes do anúncio daquela segunda-feira, 18 de maio, mas finalizou a decisão apenas no final do dia.

“[A decisão] foi baseada na análise dos dados e na conclusão de que precisávamos ter nossos próprios recursos para desenvolver esta vacina e não simplesmente esperar por subsídios do governo", detalhou o executivo ao jornal.

Em um comunicado, a Moderna disse que "por uma questão de prática" a empresa "não comentará litígios ou investigações; nem sobre compras ou vendas de investidores ou grupos individuais".

Um porta-voz da Moderna respondeu a perguntas sobre preocupações com manipulação de mercado, dizendo que a empresa planeja usar os recursos provenientes da venda de ações em grande parte para atender às "necessidades urgentes da pandemia de Covid-19".

A empresa também afirmou que as vendas feitas por seus executivos seguiram planos de negociação automatizados "de acordo com a política de insider trading da empresa".

Especialistas disseram à CNN Business que só haveria um problema legal com essas vendas se os executivos tivessem criado ou modificado os planos de negociação enquanto possuíam informações relevantes.

“Vale a pena investigar para entender a natureza dos planos e como eles foram elaborados", opinou Pitt, ex-presidente da SEC.

“Os mercados engolem de tudo"


Não é segredo que Wall Street e o público em geral anseiam por uma solução para a pandemia de coronavírus.

Notícias sobre possíveis vacinas e tratamentos mexem frequentemente com os mercados – mesmo que os fatores implícitos sejam mais sutis do que as manchetes iniciais sugerem.

Tal situação está no histórico da Moderna, como explicou à CNN Business um ex-executivo da própria farmacêutica.

“O comportamento padrão [da Moderna] é emitir informações muito escassas e não científicas. E de alguma forma, esse é o pó mágico da empresa – já que os mercados engolem de tudo", explicou o ex-executivo, que falou sob condição de anonimato.

Peter Hotez, especialista em doenças infecciosas e desenvolvimento de vacinas da Baylor College of Medicine, disse que os resultados do comunicado de imprensa da Moderna são "ininterpretáveis".

“Eles não contêm dados", disse. “Então basicamente é opinião. É distorção e opinião".

Os investidores reagiram com euforia, pelo menos inicialmente. Em 18 de maio, após o comunicado à imprensa, o preço das ações da Moderna subiu 30%, para US$ 87.

A venda de ações da Moderna, que levantou US$ 1,3 bilhão, ocorreu no auge da excitação com a nova vacina.

“O momento é lamentável", disse Pitt. “É claro que cada um deseja fazer sempre o melhor negócio. Mas é também costume deixar um anúncio público vazar antes de começar a fazer ofertas".

Em abril, a Moderna recebeu até US$ 483 milhões da Biomedical Advanced Research and Development Authority (BARDA, a Autoridade Federal de Pesquisa e Desenvolvimento Biomédico norte-americana) para desenvolver e fabricar uma vacina.

Perguntas sobre o comunicado à imprensa


O comunicado sobre os resultados preliminares da Fase 1 do teste clínico da vacina da Moderna foi examinado em detalhes pela comunidade médica.

Por um lado, os testes clínicos de vacinas geralmente ocorrem em três fases, quanto à segurança e eficácia, num processo que geralmente leva anos. A Moderna divulgou resultados parciais da primeira fase, iniciada em meados de março.

“Emitir um comunicado à imprensa sobre os dados da Fase 1 é muito incomum", disse o ex-executivo da Moderna, aqui anônimo, que saiu da empresa em 2016. “Emitir um comunicado à imprensa sobre dados parciais de menos da metade dos pacientes é muito, muito incomum – é algo praticamente inédito."

O ex-executivo acrescentou que muito do trato dado ao comunicado à imprensa pela Moderna será revelado quando todos os resultados da primeira fase do teste forem conhecidos na conclusão da primeira dessa etapa. Se os resultados finais da Fase 1 forem tão promissores quanto os resultados intermediários, o comunicado de imprensa parecerá melhor, de acordo com a fonte.

Na primeira fase do teste, liderada pelo National Institute of Allergy and Infectious Disease (NIAID, Instituto Nacional de Alergia e Doenças Infecciosas), 45 voluntários receberam doses variadas da vacina. Quando o comunicado de imprensa foi divulgado, oito resultados estavam disponíveis relacionados à produção de anticorpos neutralizantes para o vírus pela vacina. Para todos os oito, a resposta foi sim: as pessoas desenvolveram anticorpos neutralizantes em níveis que excederam ou estavam a par dos níveis medidos em pessoas que se recuperaram naturalmente da Covid-19.

Em uma declaração escrita à CNN, um porta-voz da Moderna enfatizou que o comunicado de imprensa da empresa foi redigido com a ajuda de funcionários do NIAID.

“A empresa trabalhou em cooperação com o NIAID para caracterizar adequadamente os dados provisórios fornecidos pelo NIAID", disse a Moderna.

A CNN procurou o NIAID para comentar, mas a agência não respondeu.

A Moderna afirmou que seu lançamento "deixou claro quais dados estavam disponíveis" nos 45 primeiros indivíduos testados, bem como o que estava disponível nos "primeiros oito sujeitos-sentinelas". A empresa acrescentou ter comunicado aos investidores em uma ligação posterior que os resultados completos são esperados em uma data futura.

Preocupações com o tamanho da amostra


Ainda assim, alguns cientistas expressaram frustração com o fato de a declaração de Moderna não revelar níveis específicos de anticorpos. A métrica (medida em "títulos") é importante em parte porque os níveis de anticorpos nos pacientes recuperados da Covid-19 variam amplamente.

“Não é algo que deveríamos fazer por adivinhação", opinou Hotez, cujo laboratório também está trabalhando em uma candidata a vacina para a Covid-19 usando uma tecnologia de proteína recombinante. “Por um tempo eu estava tentando ler a bola de cristal no meio da declaração deles, mas acabei desistindo."

Hotez acrescentou que outros desenvolvedores de vacinas foram mais precisos sobre seus dados da Covid-19, citando, por exemplo, a Universidade de Oxford, que publicou suas descobertas em um site de acesso aberto, e pesquisadores chineses, que publicaram um artigo sobre seu candidato a vacina no The Lancet, uma publicação acadêmica.

“Todo mundo fez isso, exceto a Moderna", disse ele.

Paul Offit, diretor do Centro de Educação sobre Vacinas do Children’s Hospital of Philadelphia, disse que o tamanho da amostra revelado no comunicado da Moderna – oito pessoas – é muito pequeno para tirar conclusões significativas.

“Você está prestes a dar uma vacina para dezenas de milhões. Eu não divulgaria um comunicado à imprensa sobre um número de pessoas suficiente apenas para lotar um churrasco no quintal".

Pitt, o ex-comissário da SEC, disse que o episódio ressalta um déficit dos mercados financeiros modernos.

“Faz parte do problema de nossos mercados de valores mobiliários que, principalmente devido à sua volatilidade, seja possível que as pessoas obtenham enormes lucros e ganhos com base em relativamente nada substancialmente duradouro", disse Pitt.

Antiga empresa de biotecnologia de Afeyan deturpou resultados


Antes de abrir a empresa de capital de risco Flagship Pioneering, Afeyan atuou como CEO da PerSeptive BioSystems, uma fabricante de equipamentos de biotecnologia fundada por ele mesmo.

Em dezembro de 1994, com a Afeyan à frente da empresa, a PerSeptive BioSystems admitiu distorcer os resultados financeiros por quase dois anos fiscais, de acordo com um artigo do Boston Globe na época.

De acordo com o jornal, a admissão desencadeou uma enxurrada de processos contra a PerSeptive, acusando a empresa de emitir declarações falsas, em um esforço para aumentar as vendas de suas ações e subir o preço.

O empresário negou as alegações ao Boston Globe na época, chamando-as de "completamente falsas".

Os registros da SEC mostram que a PerSeptive foi envolvida em ações penais que somaram US$ 15,5 milhões em 1995, parte delas relacionada à resolução de litígios de acionistas quanto aos resultados corrigidos.

Afeyan vendeu a maior parte de sua participação na PerSeptive, que abriu o capital em meados de 1992, antes que as ações caíssem durante a controvérsia, informou o Boston Globe.

A corrida para desenvolver uma vacina
O médico Amesh Adalja, pesquisador sênior focado em doenças infecciosas emergentes do Centro de Segurança em Saúde da Universidade Johns Hopkins, disse que, embora tenha achado que a exuberância inicial na imprensa sobre a vacina da Moderna talvez fosse prematura, os resultados foram encorajadores.

“Eles mudaram um pouco o cenário, pois mostram que [a vacina] é segura", opinou. “Aguardo ansiosamente os dados dos testes da Fase 2, o que é muito mais útil para tentarmos demonstrar se essa vacina será ou não eficaz."

(A Moderna  anunciou no dia 30 de maio  que já aplicou as doses nos primeiros pacientes na Fase 2, que deve incluir 600 participantes.)

O pesquisador da Johns Hopkins disse que entende por que a Moderna se sentiu compelida a divulgar os resultados encorajadores.

“Acho que ela cedeu à grande pressão sobre os desenvolvedores de vacinas para liberarem informações o mais rápido possível, porque sabemos que o único caminho de volta a qualquer tipo de normalidade é através de uma vacina", afirmou. “Acredito ser recompensador tentar amplificar boas notícias quando a maioria das nossas preocupações na pandemia são más notícias."

Clique aqui e siga a página do CNN Brasil Business no Facebook