Bolsa a 90.000 pontos em uma economia em queda é uma bolha ou faz sentido?


André Jankavski, do CNN Brasil Business, em São Paulo
04 de junho de 2020 às 15:03 | Atualizado 04 de junho de 2020 às 17:34
bolsa china

Bolsa de valores na China: Alta do mercado internacional e liquidez dada pelos BCs globais ajudam no otimismo, mas o Brasil precisa se ajudar

Foto: Aly Song/Reuters

Quem observa as altas recentes da bolsa de valores no Brasil pode estar pensando que vive em um país totalmente fora da realidade atual. Afinal, o país segue batendo recordes diários de mortes causadas pelo novo coronavírus, os índices econômicos seguem mostrando que a economia real está bem longe da recuperação e, para completar, as tensões políticas entre os poderes em Brasília seguem longe do fim.

Mesmo assim, o Ibovespa, que é o principal índice da bolsa brasileira e que reúne as empresas mais importantes negociadas na B3, bateu os 93.000 pontos na quarta-feira (3). Há analistas que estão apostando que esse rally, mesmo que com uma certa volatilidade, pode ultrapassar os 100.000 pontos em breve. Isso, no entanto, traz uma dúvida: diante do tamanho do problema que o país enfrenta, essa alta é sustentável?

Especialistas se dividem e enquanto alguns afirmam que há motivos de sobra para não acreditar que existe uma bolha em formação, outros não enxergam espaço para tanto otimismo.

Começando pela ótica positiva, a alta recente do mercado internacional ajuda a explicar a escalada recente da bolsa. Nos últimos meses, com o avanço do coronavírus em países desenvolvidos – e grandes estragos feitos tanto na área de saúde quanto na economia, é bom lembrar –, os bancos centrais desses países começaram a injetar liquidez (ou seja, começaram a colocar muito dinheiro) no mercado.

O Federal Reserve, que é o banco central dos EUA, por exemplo, já anunciou trilhões de dólares em pacotes de socorro para evitar que a economia americana entre em colapso.

O mesmo aconteceu na Europa. Nesta quinta-feira (5), por exemplo, o Banco Central Europeu, capitaneado pela Alemanha e a França, anunciou a expansão do seu programa de compras emergenciais em € 600 bilhões, elevando a conta para € 1,35 trilhão. Movimentos como esse fizeram as bolsas em todo o mundo subirem, afinal, com a queda acentuada dos juros em todo o planeta, os investidores vão procurar por maiores retornos na bolsa.

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Para um efeito de comparação, em janeiro, as empresas listadas em bolsas do mundo inteiro tinham um valor de US$ 89,1 trilhões. Em fevereiro, menos de 20 dias depois desse pico, a conta caiu 30%, a US$ 61,5 trilhões. Porém, nesta última quarta-feira, o número já tinha se recuperado para US$ 79,3 trilhões – uma alta de 29%.

“Essa diferença de US$ 18 trilhões é exatamente toda a injeção de dinheiro feita pelos bancos centrais, como compras de títulos e pacotes de socorro”, diz Pablo Spyer, diretor da corretora Mirae Asset. Ou seja, há um lastro que justifica essa alta em todo o mundo.

A questão é que o Brasil está em um cenário diferente de Estados Unidos, China e outros países. Por aqui, a Covid-19 segue fazendo cada vez mais vítimas e a curva de infectados e mortos não para de subir. Lá, as economias estão reabrindo e, aparentemente, a doença está controlada – fundamental para que não haja novas quarentenas e fechamentos de comércio e indústrias.

Nos últimos dias, contudo, foi somado mais um fator de instabilidade no mundo: os protestos contra o racismo começaram nos Estados Unidos, devido ao assassinato de George Floyd que foi morto por um policial branco, e estão se espalhando pelo mundo. Os investidores ainda não precificaram qual vai ser o tamanho desses atos na economia (ou até mesmo se terá algum impacto de fato).

E o Brasil?

Logo, essa dinheirama poderia estar vindo para o Brasil também, correto? O problema é que os estrangeiros não estão permanecendo na bolsa brasileira. Ao contrário: o Brasil perdeu bilhões em investimento estrangeiro, de acordo com o Instituto de Finanças Internacionais (IIF).

Entre fevereiro e abril, saíram US$ 18,7 bilhões do mercado de títulos, o dobro do registrado na crise de 2007. Segundo o IIF, o movimento também foi visto em países emergentes, mas com menos força.

“O investidor estrangeiro está saindo do Brasil, mas também faz operações diárias por causa da liquidez. Então, ele vem e sai rapidamente com o capital especulativo”, diz Raphael Figueredo, analista da Eleven Financial.

Loja fechada em São Paulo

Homem em frente a lojas fechadas: enquanto mercado sobe, a economia real segue em queda livre

Foto: Amanda Perobelli/Reuters (20.mar.2020)

Complica ainda mais a situação o fato de o Brasil não estar com as contas públicas em dia – e que piorou com os gastos adicionais (ou a não cobrança de tributos) de R$ 700 bilhões para o combate ao coronavírus. O valor é bem menor do que o dos países desenvolvidos, mas não pode ser chamado de pequeno.

“O pacote do governo não é pequeno, mas tem países que podem se dar o luxo de dar pacotes maiores”, diz Juan Jensen, economista da 4E Consultoria. “Vínhamos de uma crise fiscal muito grande e que ficou um pouco menor com a reforma da Previdência.”

A conta, no entanto, deve piorar. O secretário do Tesouro Nacional, Mansueto Almeida, acredita que a dívida bruta chegará a 94% do PIB neste ano – especialistas, como o economista Marcos Lisboa, presidente do Insper, acreditam que a soma deve chegar a 100% do PIB em 2020.

Para se ter uma ideia do tamanho do problema, isso equivaleria a um rombo de R$ 1,2 trilhão nas contas públicas, um valor dez vezes maior do que o projetado pelo governo no início do ano.

Mas o que isso afeta o dia a dia da população? Com uma recessão batendo à nossa porta, o governo tem menos armas para reaquecer a economia. Ou seja, o país fica sem gasolina para andar. Com isso, depende do capital privado, que também sofre com os efeitos da pandemia e que ainda não está seguro para pensar em novos investimentos (e nem em contratações, por exemplo). Logo, a economia cai ainda mais e o desemprego cresce.

Reformas, mas com que clima?

Na visão dos especialistas ouvidos pelo CNN Business, o que poderia sustentar essa alta da bolsa e o otimismo dos mercados são as reformas macroeconômicas, como a administrativa, que ajudaria a diminuir os gastos do governo com a máquina pública, e a tributária, que simplificaria os impostos no Brasil, o que diminuiria gastos das empresas e, de quebra, aumentaria a produtividade do país.

O problema é que elas já não estavam andando aceleradamente antes da pandemia – imagine, então, agora. Para piorar a situação, o presidente Jair Bolsonaro segue em uma disputa com o Judiciário e o Legislativo, nesse caso, especialmente com o presidente da Câmara, Rodrigo Maia. Ele, aliás, que tem o poder de pautar as reformas ou não.

Por outro lado, um aceno bom ao mercado é, coincidentemente, desaprovado por parte dos apoiadores do presidente: a aliança com o chamado Centrão. Na visão dos investidores, essa aproximação ajudará tanto o presidente a ter força política para não correr um risco de impeachment, trazendo estabilidade política, quanto poderá ajudar no avanço das reformas.

“O problema é que o histórico do centrão é de aumentar o gasto público”, diz Sérgio Vale, economista-chefe da consultoria MB Associados. Então, se isso ocorrer, a conta do governo pode ficar mais cara na hora do pagamento. O ano eleitoral também não ajuda – afinal, diversos deputados podem querer concorrer a prefeituras ou, ao menos, apoiar correligionários.

Tá, mas e a bolsa?

Diante de todos esses problemas, a bolsa pode, sim, ter um movimento de correção em um futuro não tão distante, segundo especialistas. Por isso, agora, começam as apostas de como vai ser o movimento de recuperação da bolsa. Atualmente, estamos em um “V” (uma queda brusca seguida por uma alta acelerada). Outros, apostam no W (depois dessa alta acelerada, teremos mais baixa acentuada para, só depois, iniciar o processo de crescimento consistente).

Na visão de Igor Cavaca, analista de renda variável da corretora Warren, o otimismo é consistente. “Não acreditamos em um cenário negativo para o futuro, mas ele pode vir a ocorrer se houver uma alteração brusca tanto com relação a retomada da economia, como com os níveis de instabilidade política”, diz ele. Logo, para ele, só a política pode atrapalhar a recuperação em “V”.

Porém, Vale, da MB Associados, é bem mais pessimista. Ele não só enxerga uma recuperação econômica bem complicada para o Brasil, em formato de “L” (queda brusca e estagnação) ou no formato do logo da Nike (queda brusca e recuperação lenta), como acredita que o Ibovespa terminará o ano aos 75.000 pontos. Isso representaria uma queda de 20% no valor atual da bolsa. Já o banco americano Goldman Sachs acredita em um Ibovespa em 95.000 pontos, ou seja, não terá mais uma alta tão elevada.

Para Spyer, da Mirae, é praticamente impossível fazer previsões exatas de como estará a bolsa nos próximos meses. Segundo ele, o movimento ainda é de ajuste. “Os investidores ainda estão vendo, agora, se a bolsa brasileira caiu demais nesses meses ou se ela estava cara demais aos 120.000 pontos”, diz Spyer. 

Logo, a bolsa está no meio do caminho do apogeu e queda de 2020 – ainda faltam 30% para recuperar o pico. A questão é saber se e quando a economia real (e não a expectativa) vai impactar os planos dos investidores.

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