Microcrédito dá alívio na crise, mas exige cautela, dizem analistas


Luís Lima, do CNN Brasil Business
05 de junho de 2020 às 08:24 | Atualizado 05 de junho de 2020 às 17:00
Imagem mostra notas de dois, vinte e dez reais

Notas de real: O volume de concessão de microcrédito caiu 14% no país em março para subir 36% no mês seguinte

Foto: Agência Brasil/ Reprodução

Moradora do Rio de Janeiro, a vendedora Bruna de Oliveira teve o salário de R$ 1,2 mil suspenso por causa da crise do novo coronavírus e ficou com receio de não pagar o aluguel, que consome quase metade de sua renda. A quase 1,2 mil quilômetros dali, em Brasília, o recepcionista Gabriel da Costa perdeu o controle do orçamento e viu o seu salário, também de R$ 1,2 mil, não ser suficiente para pagar as contas do mês, estimadas em R$ 2,5 mil.

As duas histórias têm um ponto em comum: a busca por R$ 500 em microcrédito e a dificuldade de conseguir alguma instituição que emprestasse o dinheiro. Após muitas negativas, ambos receberam um “sim”, que deu o alívio necessário para que ambos não se comprometessem na crise. No caso da Bruna, uma das condições para a obtenção do dinheiro foi o oferecimento do celular como garantia. Já o Gabriel, após receber diversas negativas de diversas instituições, teve seu perfil aprovado pela mesma empresa, a SuperSim, que decidiu apostar em seu perfil de risco.

Em meio ao aumento do desemprego e à renda comprimida pela crise do novo coronavírus, empréstimos de pequenas quantias ganham relevância, pois ajudam a pessoas como Bruna e Gabriel a manter as contas em dia. No limite, pode se refletir positivamente no momento da esperada retomada econômica, já que tem um efeito multiplicador, ao permitir que brasileiros de classes menos favorecidas mantenham as contas em dia.

Por fim, mas não menos importante, ajuda a sustentar micro e pequenos negócios, que são muito dependentes da pessoa física no comando, inclusive por trabalhadores informais.

Bruna de Oliveira, 27 anos, vendedora  e Gabriel Castro da Costa, 26 anos vigila

Bruna de Oliveira, vendedora, e Gabriel da Costa, recepcionista, contraíram R$ 500 em crédito cada

Foto: Arquivo pessoal

A concessão de microcrédito oscilou durante a pandemia. Em março, após o susto com a Covid-19, o volume de concessão no país caiu 14%, para R$ 958 milhões, segundo os últimos números do Banco Central (BC). Em abril, voltou a subir, 36%, para R$ 1,3 bilhão. Quase a totalidade deste montante é voltada a microempreendedores, alvo principal da modalidade, e o restante, para consumo.

Atualmente, o estoque total disponível a esse tipo de operação gira em torno de R$ 6,9 bilhões. Este tipo de crédito tem juros relativamente menores a outros tipos, de no máximo 4% ao mês, e é focado em pessoas físicas, que desejam ter seu próprio negócio, e empresas com faturamento anual inferior a R$ 360 mil. Os bancos são obrigados a separar 2% dos depósitos de clientes para este tipo de crédito, que tem, portanto, recursos direcionados e regras específicas. 

De acordo com especialistas consultados pelo CNN Brasil Business, no entanto, o recurso deve ser usado com parcimônia e estratégia, com a ameça de cair na inadimplência, que pode complicar financeiramente o tomador no futuro.

“Recorrer ao microcrédito deve acontecer quando se tem um fluxo de caixa estruturado e saber como utiliza-lo para manter o capital de giro e sobreviver”, afirma Tirso Meirelles, presidente do Sebrae-SP, ao se referir a quem tem micro e pequenos negócios. Como alternativas, sugere a renegociação de aluguéis e postergação do pagamento de impostos. A instituição estruturou uma lista para orientar microempreendedores a enfrentar a crise. 

Entre as principais instituições de microcrédito no país estão o Banco do Nordeste e o Santander, além de instuições financeiras sem fins lucrativos classificadas como Oscip (Organização da Sociedade Civil de Interesse Público) pelo Ministério da Justiça. 

Concessão 'travada'

A concessão de microcrédito na crise atual se torna uma “questão de sobrevivência" a muitas pessoas que perderam o emprego ou tiveram a renda afetada, define Claudia Cisneiros, presidente da Associação Brasileira de Entidades Operadoras de Microcrédito e Microfinanças (Abcred). Mesmo assim, ela reconhece dificuldades na concessão, já que a análise do perfil de risco do tomador é feita de forma presencial por muitas operadoras, o que foi inviabilizado durante a quarentena. 

“O distanciamento foi um fator decisivo. A maioria das empresas que concede crédito nesse ramo não é digitalizadas. Muitas nem estavam acostumadas ao teletrabalho. Isso inviabilizou um aumento da demanda durante a crise”, explica Cisneiros. 

Para driblar este problema, outras empresas, mais digitalizadas, aproveitam para oferecer facilidades a quem necessita de forma totalmente online, como a SuperSim, solução encontrada por Bruna e Gabriel.

“Quando começamos, no fim do ano passado, não prevíamos a crise. Temos a missão de inserir pessoas no sistema financeiro, e ajudá-las a tomar empréstimo de maneira responsável”, conta Daniel Shteyn, co-fundador. Ele reconhece que trabalha com um público com perfil de risco maior, mas reforça que alguém tem que olhar para ele. Sobre o período anterior à crise, calcula que a demanda por empréstimos triplicou.

Também de olho nos públicos das classes C, D e E, a novata Conta Zap, ajuda pessoas sem conta bancária a fazer operações financeiras básicas pelo WhatsApp, como pagamentos e transferências, e pretende oferecer microcrédito até o fim do terceiro trimestre. “Iniciativas como essa ajudam as pessoas a volta a trabalhar, pegar ônibus, pagar contas, e a economia a girar”, resume o CEO, Roberto Marinho.

Suporte ao microempreendedor 

Para muitos microempreendedores e trabalhadores informais, o acesso ao microcrédito é fundamental para investir em áreas estratégicas, como a digital -- válvula de escape atual para a sobrevivência de muitos negócios. Na crise, muitos enfrentam desafios adicionais, por não terem feito essa aposta antes, e agora se veem diante de um cenário de demanda fraca, ausência de capital de giro e dificuldades para acesso a empréstimos, com regras mais rigorosas e juros elevados. 

Diante dos efeitos da pandemia, 76% de cerca de 400 micro e pequenos empresários consultados pela Boa Vista esperam redução do faturamento nos próximos 90 dias, de acordo com pesquisa divulgada nesta quarta-feira (3), sendo que 52% veem contração de mais de 50%.

Para mitigar os efeitos, e para além do auxílio emergencial de R$ 600, o governo federal sancionou no mês passado a lei que cria o Programa Nacional de Apoio às Microempresas e Empresas de Pequeno Porte (Pronampe). A inicativa abre crédito especial no valor de R$ 15,9 bilhões. A ideia é ajudar a socorrer empresas que hoje encontram dificuldades para contrair recursos. 

No estado de São Paulo, nove em cada dez (87%) micro e pequenas indústrias ainda não conseguiram ter acesso a crédito durante a pandemia. A dificuldade para obter empréstimo já se reflete na taxa de desemprego: 28% dessas indústrias já tiveram que demitir funcionários.

O risco de inadimplência é um dos principais agravantes, o que redobra a cautela de instituições financeiras de emprestar – e o dinheiro fica "empoçado". Ainda assim, em muitos casos, quando o tomador mostra que têm condições de pagar futuramente o empréstimo, o efeito potencial a médio e longo prazos é visto como positivo. Nas contas do governo federal, o país ultrapssou pela primeira vez na história a marca de 10 milhões de microempreendedores individuais (MEIs), em abril deste ano. 

“Eles têm uma importância extrema. Os negócios pequenos, em grandes centros e interior dos estados, são movimentados por microempreendores. É fundamental mantê-los em atividade para a ajudar na retomada econômica”, avalia Marcio Cesar Rossini, presidente da Amcred-Sul (Associação das Instituições de Microcrédito e Microfinanças da Região Sul).

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