Funcionários da Adidas querem investigação no RH por questões raciais

Clare Duffy, do CNN Business, em Nova York
20 de junho de 2020 às 10:48
Funcionários querem investigação na Adidas: alvo seria falta de atenção da chefe de RH com o racismo na empresa
Foto: Camilla Carvalho/Unplash

Um grupo de funcionários da Adidas no mundo todo está pedindo à empresa que investigue sua diretora de recursos humanos por racismo. A solicitação é parte de um esforço mais amplo para pressionar a empresa a tomar medidas adicionais no tratamento da desigualdade racial em seus níveis de hierarquia.

Uma carta enviada a três executivos da Adidas no dia 15 de junho pede ao Conselho Fiscal da empresa que verifique se Karen Parkin, chefe de RH da Adidas, lidou com questões raciais dentro da empresa de forma correta, de acordo com uma cópia obtida pela CNN Business.

A carta foi assinada por 83 funcionários de cinco filiais da empresa – na Alemanha, Estados Unidos, Austrália e no Panamá. A gigante do setor de vestuário esportivo conta com cerca de 60 mil funcionários em todo o mundo.

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A carta também pede a criação de uma plataforma anônima na qual os funcionários possam denunciar casos de racismo e discriminação e obter proteção contra retaliações.

"Nossos funcionários levantaram suas vozes com coragem para pessoas em posições de poder; eles expressaram o fato de que não representamos as comunidades com as quais lucramos e nos falta liderança, processos e metas que nos permitam chegar lá," diz a carta.

A carta também pede ao Conselho Fiscal da empresa que "investigue se a abordagem e postura por parte da diretora de recursos humanos são adequadas para enfrentar esse problema dentro da Adidas".

Ainda acrescenta que os funcionários acreditam que "é importante que nossa abordagem para enfrentar essas questões seja moldada a partir das nossas lideranças do alto escalão, especialmente em RH, cujo objetivo é a saúde e o desempenho da organização".

A Adidas, que também é dona da Reebok, afirmou em um comunicado que "rejeita todas as declarações" feitas na carta dos funcionários. A empresa disse na semana passada que tem uma política de tolerância zero para a retaliação e que designou um investigador terceirizado para garantir que essa política seja mantida.

"A Adidas e a Reebok sempre foram e sempre serão contra a discriminação em todas as formas e estamos unidos contra o racismo", disse a empresa em um comunicado à CNN. "Nossos funcionários negros têm liderado a conduta que continuaremos a implementar juntos, com a qual estamos comprometidos como empresa. Agora, estamos concentrando nossos esforços em progredir e criar mudanças efetivas imediatamente".

Parkin é uma funcionária antiga, atuando como chefe global de recursos humanos há mais de três anos, de acordo com seu perfil do LinkedIn.

Ela não respondeu a um pedido de comentário sobre esta matéria diretamente. No entanto, a Adidas disse que Parkin está atualmente trabalhando com uma coalizão de funcionários nos compromissos globais de diversidade e inclusão da empresa.

"Vocês todos viram nossos comunicados nos últimos dias descrevendo nossos compromissos para enfrentar as forças culturais e sistêmicas que sustentam o racismo", disse Parkin em um comunicado divulgado aos funcionários da Adidas na semana passada. "Sabemos que devemos fazer mais para criar um ambiente em que todos se sintam seguros, ouvidos e tendo a mesma oportunidade de avançar em suas carreiras".

Esforço pela igualdade

Após vários dias de protestos dos funcionários contra a cultura da empresa, a Adidas anunciou na semana passada que está tomando várias medidas com o intuito de aumentar o número de pessoas negras em sua força de trabalho nos EUA e tornar seu local de trabalho mais inclusivo.

]Isso inclui um investimento de US$ 120 milhões em comunidades negras e o compromisso de preencher pelo menos 30% das novas vagas nos EUA com funcionários negros ou de origem latina. A empresa também condenou o racismo e expressou apoio ao movimento Black Lives Matter nas redes sociais.

Muitas empresas têm adotado medidas semelhantes nas últimas semanas em meio ao momento no país de acerto de contas por injustiças raciais desencadeado pela morte de George Floyd.

"Tivemos que olhar para nós mesmos como pessoas e nossa organização e refletir sobre sistemas que desfavorecem e silenciam indivíduos e comunidades negras", disse o CEO da Adidas, Kasper Rorsted, em um comunicado na semana passada. "Embora tenhamos falado sobre a importância da inclusão, precisamos fazer mais para criar um ambiente em que todos os nossos colaboradores se sintam seguros, ouvidos e tenham a oportunidades iguais de progredir em suas carreiras".

A empresa também reconheceu no anúncio da semana passada que suas medidas podem ser "muito poucas e tarde demais".

"Exaltamos atletas e artistas da comunidade negra e utilizamos sua imagem para nos definir culturalmente como marca, mas nossa mensagem se perde ao refletirmos tão pouca representação dentro de nossas paredes", diz o comunicado da empresa.

Alguns funcionários da Adidas acreditam que as ações da empresa sejam insuficientes. Eles estão pedindo aos líderes para que façam um pedido explícito de desculpas pelo racismo dentro da empresa e que sejam transparentes sobre as medidas adicionais que planejam tomar.

"Todos os compromissos da marca até o momento são mudanças sintomáticas e não reconhecem nem descobrem por que nossos funcionários continuam a sofrer racismo e discriminação", diz a carta. "O pedido de desculpas e o reconhecimento públicos são necessários como o início de um trabalho contra o racismo, sendo a base para qualquer uma de nossas 'medidas', que, enquanto empresa, podemos efetivamente tomar."

Em uma reunião da empresa em Boston no ano passado, Parkin teria dito que o racismo era um "ruído" discutido apenas nos EUA, relatou o Wall Street Journal na semana passada.

Em sua declaração aos funcionários nesta semana, Parkin disse que "deveria ter escolhido uma palavra melhor" durante a reunião e pediu desculpas se havia ofendido alguém.

Como membro da diretoria responsável pelo RH, era minha responsabilidade deixar clara nossa posição definitiva contra a discriminação, e isso eu não fiz", disse Parkin. "Minha equipe e eu estamos totalmente comprometidos em melhorar a cultura da nossa empresa para garantir justiça, diversidade e oportunidade. Essa é uma promessa. Essa é a minha promessa."

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