Como a safra de balanços do 2º tri pode afetar as ações do Ibovespa


Matheus Prado, do CNN Brasil Business, em São Paulo
21 de julho de 2020 às 16:39
Pregão da B3

Operador observa painel da B3, em São Paulo, após pregão ser interrompido pelo circuit breaker 

Foto: Rahel Patrasso

O segundo trimestre de 2020, epicentro temporal da pandemia do novo coronavírus na economia, acabou no final de junho, pelo menos para o mercado financeiro. Com isso, até meados de agosto, empresas vão divulgar seus resultados do período e mostrar para os investidores o verdadeiro tamanho do buraco criado pela crise.

“Essa temporada de divulgação vai ser uma loucura, algo sem precedentes”, afirma Henrique Esteter, analista da Guide Investimentos. “Alguns setores terão seus piores resultados da história, como turismo e aviação. Já os frigoríficos, por exemplo, que mantiveram bons números por conta das exportações, podem apresentar dados super positivos.”

Outro exemplo positivo são as empresas de varejo com boa presença no e-commerce. Além do Magazine Luiza, a Via Varejo, que também já vinha numa escalada de valorização impressionante, disparou na bolsa no pregão de segunda-feira (20) após divulgação (irregular) de alguns dados do período.

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As mensagens publicadas no perfil da própria empresa no Twitter exaltavam o aumento galopante na venda online de itens como jogos, TVs e computadores. A ação da empresa subiu 7,35% e terminou o dia no maior valor da história, a R$ 21,17. Chegou ainda a subir mais 4% na manhã de terça (21), mas depois recuou. A Comissão de Valores Mobiliários (CVM) já analisa o caso em um processo administrativo. 

Apesar do caso relatado acima, entes do mercado entendem que grande parte dessa expectativa já foi precificada ao longo dos últimos meses, ou seja, que já está embutida nos preços atuais das ações. Podendo variar, é claro, em casos com resultados mais surpreendentes.

Especialista em renda variável da casa de análises Suno Research, Felipe Tadewald corrobora o sentimento e acredita que a empresa varejista representa um ponto fora da curva por conta de sua rápida recuperação. “O mercado esperava uma recuperação no terceiro ou no quarto semestre. Como, no caso da Via Varejo, isso veio já no segundo, os investidores ficaram eufóricos com os resultados”, diz.

Isso não impede, segundo afirma Régis Chinchila, analista da Terra Investimentos, “que os balanços tragam certa reprecificação dos ativos e aproximem o mercado financeiro da economia real”. Ele argumenta que só viu um descolamento tão grande entre o mercado e a economia durante a crise de 2009 e que os balanços costumam ser um “choque de realidade”.

Para tentar antecipar dos movimentos, o CNN Brasil Business conversou com analistas para entender como alguns dos principais setores da bolsa de valores nacional poderão reagir aos dados. 

Puxando para baixo

Entre os setores dos quais todo mundo espera resultados ruins, destaque para empresas aéreas, de turismo e viagem, administradoras de shoppings centers, construtoras e varejistas com forte presença no comércio físico. Sem surpresas, são algumas das empresas cujas cotações mais caíram na B3 e no mundo ao longo da crise. 

“Já houve, em boa parte destes papéis, uma precificação muito forte nos ativos em março. Apesar disso, os investidores podem decidir realizar seus lucros depois das apresentações a depender da revisão de expectativas por parte das companhias”, diz Chinchila, da Terra Investimentos.

Puxando para cima

Do outro lado do espectro estão varejistas com boa presença no e-commerce (como Magalu, Via Varejo e B2W, dona da Americanas.com e do Submarino), frigoríficos (JBS e Marfrig) e produtoras de commodities (Suzano e Vale), para citar algumas, que devem apresentar resultados melhores. 

“As varejistas são as vedetes da bolsa”, afirma Chinchila, enquanto Esteter, da Guide, argumenta que os frigoríficos podem apresentar “resultados recordes” no período. Com países vivendo diferentes momentos da pandemia, o setor conseguiu continuar escoando seus produtos para os consumidores.

Bancos

É um setor heterogêneo e, portanto, mais difícil de prever uma reação em bloco. Apesar disso, boa parte dos grandes bancos já apresentou números conservadores no primeiro trimestre, o que pode suavizar os resultados de agora. Esteter destaca que o mercado vai olhar “para um possível aumento na inadimplência” para avaliar esses papéis.

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Há ainda empresas como o BTG Pactual, que deve apresentar resultados fortes por conta da sua evolução interna. O banco de investimentos precificou, no final de junho, a R$ 74,40 por unit sua oferta primária, captando R$ 2,65 bilhões, que devem ser, em parte, destinados a acelerar o crescimento da área de varejo digital.

Petro e Vale

Responsáveis por parte significativa do Ibovespa (cerca de 20% do índice), Petro e Vale também podem responder positivamente ao período. Na mineração, segmento em que a Vale é uma das maiores do mundo, Esteter enxerga um “resultado bom apesar do volume baixo, por conta do preço robusto do minério de ferro”.

No mercado petrolífero, apesar dos momentos tensos em abril causados pela guerra entre Rússia e Arábia Saudita sobre a cotação da matéria-prima, ele também vê uma luz ao fim do túnel. “Os preços do petróleo já estão voltando e a Petrobras ainda está 20% abaixo do que estava no pré-crise. O mercado ainda vai olhar para os desinvestimentos (as vendas de ativos) na companhia”, diz.

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