Refeição padrão Michelin em casa: como restaurantes finos se viraram na pandemia

Impacto do isolamento foi particularmente difícil para restaurantes sofisticados, já que muitos nunca tinha oferecido serviço de entrega

De Nell Lewis, do CNN Business, em Londres
09 de agosto de 2020 às 07:00
Restaurante Saint Pierre
Saint Pierre, restaurante francês de Cingapura portador de duas estrelas Michelin
Foto: Divulgação

Com vista panorâmica da marina de Cingapura e cardápio de frutos do mar frescos vindos de Hokkaido, no Japão, o restaurante Saint Pierre, portador de duas estrelas Michelin, transborda luxo. Mas, quando a pandemia atingiu Cingapura e a ilha anunciou o lockdown, o futuro do restaurante foi posto em cheque.

Ao contrário de muitos outros estabelecimentos, o Saint Pierre não possuía um sistema de delivery. Suas refeições requintadas foram projetadas para ser provadas no próprio restaurante – com todos os pratos entregues frescos da cozinha e apresentados como uma obra de arte, em vez de no bagageiro de uma moto.

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Para sobreviver, o chef de cozinha e proprietário Emmanuel Stroobant sabia que isso tinha que mudar. Foi daí que ele, nascido na Bélgica, criou o Virtual Saint Pierre, uma experiência única em que os clientes podem saborear as criações do restaurante – de culinária francesa moderna com um toque asiático – enquanto estiverem em casa.

As refeições são servidas em caixas de laca de obentô e entregues em mãos por um garçom de gravata preta. Os comensais entram em uma sala de jantar virtual por meio de um link de videoconferência e comem junto com outras pessoas em seu grupo. Durante a refeição, o chef Stroobant aparece para apresentar o menu cuidadosamente selecionado.

Dessa forma, a experiência coletiva de comer fora não se perde, segundo o chef. “O objetivo do Virtual Saint Pierre é aproximar as pessoas. Somos criaturas sociais e queremos poder comer juntos".

Mesmo sendo feita em casa, a experiência é extravagante, custando no mínimo 180 dólares de Cingapura (US$ 130) por pessoa – já que esses não são pratos típicos de delivery.

“Tentamos evitar que as pessoas tenham que finalizar algo na cozinha ou aquecer alimentos em casa. Entregamos as caixas e depois voltamos para buscá-las e limpá-las. É de fato o mesmo serviço que você teria no restaurante, mas em casa”, diz Stroobant.

O jantar virtual veio para ficar?

O impacto do coronavírus na indústria de restaurantes de Cingapura tem sido enorme. De acordo com uma pesquisa feito pela Chope, uma plataforma de reservas de restaurantes, 93% dos restaurantes da ilha tiveram uma queda na receita, com 80% deles reduzindo o pessoal para cortar custos.

Sherri Kimes, professora da Escola de Administração de Hotéis da Cornell University e coautora do relatório, diz que o impacto tem sido particularmente difícil em restaurantes sofisticados, já que muitos nunca ofereceram entrega ou delivery.

“Eles tinham três opções, basicamente: desenvolver maneiras inovadoras de permanecer nos negócios, fechar temporariamente ou simplesmente interromper as operações”, relatou a pesquisadora à CNN Business.

O Saint Pierre não é o único restaurante sofisticado de Cingapura a escolher a primeira opção: o 28 HongKong Street convida os clientes a participar de festas online, levando coquetéis e canapés até as portas das casas; já o três estrelas Michelin Odette está oferecendo entregas em domicílio de seus pratos exclusivos, desde torta de trufas negras até lagosta azul.

Espera-se que essas ofertas virtuais sobrevivam à pandemia. Uma pesquisa feita pela Nielsen constatou que mais de 60% dos consumidores na China, Hong Kong, Malásia, Coreia do Sul e Vietnã planejam comer mais em casa.

“As pessoas ainda querem sair para jantar, mas o desconforto com a segurança de sair e as restrições sobre o tamanho do grupo à mesa ainda tornarão o jantar virtual popular por um tempo”, opina Kimes.

Para a pesquisadora, embora as refeições dentro de restaurantes ainda sejam permitidos em Cingapura, com restrições de lotação, muitos preferiram continuar fechados e desenvolveram entregas e ofertas virtuais. Eles "descobriram novos fluxos de receita que não haviam considerado no passado", diz ela.

O chef belga Emmanuel Stroobant concorda. Sem a experiência de jantar virtual, o Saint Pierre teria fechado as portas e a equipe estaria desempregada.

“Queríamos seguir e sair ilesos”, acrescentou.

(Texto traduzido, clique aqui para ler o original em inglês).

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