A retomada será pelo investimento em infraestrutura, diz Vescovi, do Santander


Paula Bezerra, do CNN Brasil Business, em São Paulo
10 de agosto de 2020 às 15:39 | Atualizado 10 de agosto de 2020 às 15:47

O gargalo em infraestrutura e os avanços em pontos como marcos regulatórios, como em energia elétrica, saneamento e em telecomunicações, devem ser impulsionadores para a retomada econômica. É o que a ex-secretária do Tesouro Nacional e atual economista-chefe do Santander, Ana Paula Vescovi, avalia. 

Em entrevista exclusiva para o especial Economia Pós-Pandemia, do CNN Brasil Business, a economista afirmou que a ociosidade provocada pela pandemia do novo coronavírus em diversos setores da economia, somado ao grande leque de oportunidades para a infraestrutura, que vão desde grandes obras, até concessões em 5G, deve fazer com que a infraestrutura seja protagonista no processo de recuperação econômica. 

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“Os canais de investimento estarão obstruídos pelo excesso de capacidade ociosa que a crise trouxe” diz a economista. “Por isso eu vejo a retomada pela infraestrutura: pelas oportunidades de investimento a serem realizados, pelos empregos que as obras irão gerar, e assim em diante”, analisa. 

A avaliação de Vescovi não é à toa. O gargalo em infraestrutura no país é um chamariz para novos aportes. Prova disso é que, em 2019, o Brasil foi o país da América Latina que teve menos investimentos públicos em infraestrutura - o aporte no setor foi um pouco menos que 0,5% do PIB. O levantamento publicado pelo Banco Interamericano de Desenvolvimento (BID) neste segundo semestre, analisou os investimentos no setor feito por 21 países da região. Nele, o Brasil figurava em último lugar.

De acordo com o relatório, melhorias em infraestrutura e um aumento de investimento no setor impactariam não apenas no PIB do país, como, também, na redução da desigualdade. Isso porque, com o aumento na eficiência dos serviços e queda dos preços, o banco estima que a renda das pessoas pobres cresceria, em média, 28% a mais que a dos mais ricos em dez anos. 

O relatório também aponta que ganhos relativamente pequenos na eficiência dos serviços pelo aumento da digitalização de processos e outras ações podem dar um impulso de 5,7 pontos percentuais no PIB da região em 10 anos - algo como US$ 325 bilhões em receita adicional no período.

E, diante das oportunidades postas à mesa, Vescovi está de olho nos projetos já encabeçados pelo governo. Segundo a economista, a retomada dos leilões para o setor privado e a recente aprovação do marco regulatório no setor de saneamento trouxeram fôlego para que o setor privado e agentes internacionais voltassem a mirar no Brasil - e a aportar no local. 

A expectativa do governo federal, por exemplo, é de levantar algo como R$ 250 bilhões em contratos até o final de 2022 e realizar 100 leilões de concessões. Além disso, o ministério de infraestrutura estima que a execução das obras no setor gere cerca de dois milhões de empregos até 2023.

Foco no equilíbrio das contas 

Mas, para que o investimento privado seja atraído pelos leilões de concessão e vasta oportunidade no setor de infraestrutura do país, Ana Paula é clara: não podemos perder de vista as contas públicas do país.

Isso porque, diante de um ambiente recessivo e instável, principalmente pelas incertezas causadas pela pandemia, andar na direção contrária do ajuste fiscal e não manter em vista o teto de gastos pode afugentar os investidores estrangeiros. A conta é simples: um eventual descontrole nas contas públicas pode ser combustível para inflamar ainda mais o ambiente recessivo provocado pelo coronavírus. 

Por enquanto, estimativas da equipe econômica do país mostram que por mais que o déficit público esperado para 2020 seja de R$ 787,449 bilhões, o governo terá uma folga de R$ 2,804 bilhões no teto de gastos deste ano. 

Em 2020, a meta do déficit primário era de até R$ 124,1 bilhões. No entanto, com o aumento de gastos públicos para o combate da pandemia da Covid-19 e o estado de calamidade pública, o governo federal foi autorizado a descumprir a meta.

Segundo Vescovi, já está claro que estamos em um ambiente político mais pacificado. Agora, quanto mais demonstrarmos avanços nas condições financeiras e na agenda de reformas - além, claro, das atividades econômicas forem reagindo a retomada - construiremos um ambiente mais favorável e atraente. 

“Precisamos sempre reforçar o compromisso com a trajetória de sustentabilidade da dívida pública e o compromisso com o ajuste fiscal e com a sustentação do teto dos gastos”, reforça a economista.

Recuperação em raiz quadrada 

E, enquanto o mercado financeiro revisa, semanalmente, as expectativas de contração do PIB brasileiro em 2020, Ana Paula Vescovi se diz confortável com a projeção calculada pelo banco. 

No Boletim Focus publicado pelo Banco Central nesta segunda-feira (10), o mercado indicou que a retração da economia do país neste ano ficará em 5,62%. Essa foi a sexta semana consecutiva que o mercado melhora a expectativa de queda no PIB. Há um mês, a projeção era de tombo de 6,1%. 

Mesmo assim, a equipe do Santander, liderada por Vescovi, mantém a expectativa de retração de 6,4%, e esperam a volta do crescimento econômico por meio da “recuperação em raiz quadrada.”

Segundo a ex-secretária do Tesouro Nacional, após um tombo de 10% no PIB no segundo trimestre, a economia brasileira ganhará velocidade a partir de junho, mês em que grandes metrópoles do país iniciaram o processo de reabertura. O retorno a um nível pré-crise, porém, será gradual e não virá antes de 2022. 

“Até o momento, estamos confortáveis com nossa projeção de queda do PIB, pois calculamos que a reabertura viria a partir de junho”, diz a economista. “Então, contamos com uma recuperação a partir do terceiro trimestre e a normalidade mais ao final do ano. O que vemos é que estamos em um platô no Brasil há muito tempo.” 

Por isso, a expressão em raiz quadrada: após a queda, há uma rápida recuperação, seguida de um platô - quando o nível se mantém estável por um tempo. 

Já quando indagada sobre os riscos que podem travar a retomada do país - e recuperação em raiz quadrada – Vescovi reforça que, além da não conclusão e eficácia da tão esperada vacina, o não seguimento da trajetória de solidez e equilíbrio fiscal, bem como uma nova guerra comercial entre China e Estados Unidos, com aumento de tarifas, podem atrasar ainda mais o crescimento do país. 

“Dessa forma, manter uma trajetória crível de manutenção com a solidez fiscal e equilíbrio fiscal, é um fator importante para ter uma recuperação mais acelerada”, conclui.