Mercado Livre mais valioso na América Latina? Demorou para acontecer, diz COO


Marcelo Sakate, do CNN Brasil Business, em São Paulo
11 de agosto de 2020 às 16:51 | Atualizado 11 de agosto de 2020 às 18:19

O Mercado Livre se tornou há poucos dias a empresa mais valiosa da América Latina, à frente de gigantes que produzem commmodities, como Vale e Petrobras. Para o cofundador e executivo-chefe de Operações (COO) do Mercado Livre, Stelleo Tolda, não houve qualquer surpresa nesse acontecimento, a não ser o fato de que, na sua avaliação, isso tenha demorado tanto para acontecer.

"A gente já viu isso acontecer nos Estados Unidos e na China, onde as empresas de tecnologia são as que mais crescem e as que melhor se adaptaram à inovação e a esse movimento de digitalização", disse Tolda ao programa Panorama, do CNN Brasil Business.

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"Isso é refletido no valor de mercado dessas empresas. A gente viu isso acontecer com o Mercado Livre e a expectativa é que aconteça com outras empresas de tecnologia no futuro", completou.

As ações da companhia negociadas na Nasdaq subiram 130% desde o fim de março.

Tolda conversou com o CNN Brasil Business no dia de divulgação dos resultados trimestrais, que revelaram forte crescimento em diferentes métricas, como vendas de mercadorias (+49%), receitas (+61%), lucros (245%), pagamentos pelo Mercado Pago (72%) e usuários únicos (45%). 

O crescimento foi alavancado pela performance vigorosa dos dois principais negócios do Mercado Livre: as vendas online do marketplace (nome dado à plataforma virtual em que vendedores e compradores negociam entre si) e os serviços financeiros digitais oferecidos pelo Mercado Pago.

São resultados que, na avaliação de Tolda, devem se sustentar mesmo com o relaxamento das medidas de quarentena, como as que determinam restrições à abertura do comércio. 

"A expectativa é muito positiva para os próximos meses. Temos um visto um movimento tanto de novos consumidores como daqueles que são recorrentes e passaram a comprar mais vezes. É um impacto que acreditamos que não irá embora depois da pandemia", disse o executivo.

Dois anos em três meses

Já se tornou recorrente para empresas de tecnologia dizer que o crescimento alcançado na pandemia representou o que era esperado em um período muito mais extenso de tempo. Com o Mercado Livre não foi diferente.

"Podemos dizer que pelo menos dois anos aconteceram em um período de três meses. Projetávamos que esse crescimento do e-commerce e do Mercado Livre iria acontecer porque o nível de penetração (das vendas online) ainda é baixo, mas em ritmo mais lento", afirma Tolda.

Para o cofundador e principal executivo do Mercado Livre no país, os resultados positivos são em parte consequência dos investimentos feitos desde o início do ano, quando a empresa anunciou que investiria R$ 4 bilhões no país, principalmente na expansão e no aperfeiçoamento da malha logística.

A logística se traduz na capacidade da companhia de fazer entregas no menor tempo possível, de modo a melhorar a experiência de compra e de uso do serviço pelos usuários.

"O principal fator que vai trazer o consumidor de volta é uma experiência excelente do início ao fim", afirma Tolda.

Segundo ele, é uma avaliação que o consumidor faz a partir do momento em que navega e faz a busca de produtos no aplicativo e no site e quando faz o pagamento - "daí a importância do Mercado Pago, a nossa fintech". Tem a ver com uma oferta ampla de produtos a preços competitivos. Passa pela experiência de entrega. E, por fim, pelo pós-venda, caso haja necessidade de devolução da mercadoria.

Desafio: desenvolvedores

Mas o crescimento acelerado nos próximos anos não vai se dar sem sobressaltos. Uma das preocupações para a empresa de tecnologia, como Tolda define o Mercado Livre, será conseguir ampliar o quadro de mão de obra qualificada no ritmo desejável para manter a expansão.   

"O principal desafio é crescer a nossa capacidade de atrair talentos, principalmente nesse segmento de desenvolvedores. Existe uma concorrência grande pelos bons profissionais. E o mercado brasileiro tem uma quantidade limitada de profissionais que são formados no segmento", diz.

Segundo ele, para atacar esse problema, o Mercado Livre tem trabalhado com outras empresas e instituições de educação para formar mais profissionais de tecnologia. 

São desafios que não tiram o otimismo do executivo. "Ainda temos um caminho de crescimento muito promissor. Antes da pandemia, falava-se em uma penetração de 6% do e-commerce em relação ao varejo brasileiro. Alguns analistas estimam que esse número chegou a 8%. Mesmo assim, esse número fica muito abaixo de outros países onde o e-commerce é mais desenvolvido", diz Tolda.

É uma referência a mercados como os Estados Unidos e países da Europa e da Ásia, nos quais a participação do e-commerce vai de 10% a 20% do varejo como um todo.

Supermercados e moda

Os impactos da pandemia no comportamento da população fizeram o Mercado Livre antecipar planos. Foi o caso da venda de produtos diretamente da indústria para o consumidor, de olho na corrida de brasileiros a supermercados para abastecer a casa antes do início da quarentena, em março e abril. 

"Tínhamos o plano de lançar essa categoria na segunda metade deste ano. Já havíamos lançado em outros países, como o México, onde vimos resultados muito bons. A pandemia nos fez lançar antes. E os bons resultados têm se repetido aqui", disse o executivo, sem abrir os dados.

Segundo ele, a categoria de produtos vendidos em supermercados tem uma importância estratégica dentro do comércio eletrônico, porque atrai novos compradores. E é uma categoria também de recorrência, nome dado à frequência de compras e de uso do aplicativo. "Isso é importante para que estabeleçamos um relacionamento mais próximo dos nossos consumidores", afirma.

Tolda antecipa um dos próximos focos da companhia quando se trata de ampliar ainda mais o sortimento de mercadorias oferecidas: "O Mercado Livre procura trazer novas categorias que sejam atraentes para o consumidor. Eu posso citar o segmento de moda. Ela já está presente no Mercado Livre de forma importante, mas acreditamos que tenha um potencial muito grande."

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