Faz sentido o Mercado Livre ser mais valioso do que a Petrobras e a Vale?


André Jankavski, do CNN Brasil Business, em São Paulo
07 de agosto de 2020 às 21:43 | Atualizado 08 de agosto de 2020 às 12:25
Funcionários em escritórios do Mercado Livre

Funcionários em escritórios do Mercado Livre em São Paulo: empresa dobrou de valor de mercado em 2020

Foto: REUTERS/Nacho Doce

A notícia de que o Mercado Livre ultrapassou empresas do porte da mineradora Vale, da petroleiras Petrobras e o banco Itaú em valor de mercado mexeu com os investidores. Afinal, assim como acontece nos Estados Unidos, finalmente uma marca da ‘nova economia’ passou a valer do que empresas consolidadas e ligadas a ‘velha economia’. Mas ao contrário das empresas listadas na bolsa americana, a chegada ao topo do Mercado Livre conta com outros atributos.

O primeiro deles é a escalada do dólar frente ao real em 2020. De janeiro para cá, a moeda americana saiu de R$ 4,01, no primeiro pregão do ano, para R$ 5,41 atualmente. Ou seja, o dólar ganhou 35% frente ao real, o que impacta diretamente nesse resultado.

Isso acontece porque, como o Mercado Livre é listado na Bolsa de Nova York, a sua cotação já é em dólar. O mesmo não ocorre com Petrobras, Vale e os bancos nacionais, que estão na B3 e tiveram uma grande desvalorização em seu valor de mercado quando é realizada a conversão.

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“É lógico que, se tivermos uma desvalorização do dólar, isso impactará diretamente o valor de mercado das empresas listadas no Brasil como um todo”, diz Igor Cavaca, analista de renda variável da corretora Warren.

Uma prova disso pode ser vista no gráfico abaixo, feito pela consultoria Economática a pedido do CNN Business. A Vale, recentemente, alcançou a sua cotação histórica – mas isso não se reflete no valor de mercado em dólar. Se pegarmos o fechamento do pregão desta sexta-feira (7), a mineradora alcançou um valor de mercado de R$ 320 bilhões, 13% acima do registrado no início do ano. Porém, ao convertermos, a empresa passa a valer “apenas” US$ 57,1 bilhões.

O mesmo acontece com a Petrobras, que sai de R$ 301 bilhões para US$ 55 bilhões – porém, neste caso, a empresa acumula uma queda de quase 25% desde janeiro.

Isso quer dizer que o Mercado Livre está supervalorizado? Não necessariamente. A empresa vem entregando resultados trimestre após trimestre e tem se destacado, juntamente com o Magazine Luiza, como a empresa mais bem posicionada no comércio digital no Brasil.

Ao contrário da companhia comandada por Frederico Trajano, no entanto, ela também tem uma operação internacional robusta, especialmente na Argentina, seu país natal, e no México. Suas ações dispararam 108% desde o primeiro pregão de 2020.

Porém, caso o dólar comece a perder força frente ao real, Petrobras, Vale e outras empresas da bolsa brasileira ganharão valor de mercado automaticamente (na moeda americana, obviamente). Segundo o Boletim Focus, que reúne as previsões de bancos e corretoras no país, a moeda americana deve fechar o ano aos R$ 5,20. Caso fosse essa a cotação atual, a Vale já teria ultrapassado o Mercado Livre, ao valer R$ 61,5 bilhões.

É possível comparar?

Valor de mercado é valor de mercado – estando em dólar ou real. Mas uma coisa é fato: Petrobras e Vale continuam sendo empresas mais robustas, tanto pelo tempo de existência quanto em resultados. O Mercado Livre é uma empresa relativamente mais nova e que continua investindo forte para um crescimento acelerado – nem que isso represente um prejuízo ao final de cada trimestre.

Em 2019, por exemplo, o Mercado Livre faturou US$ 2,3 bilhões, um crescimento de quase 65% em comparação ao ano anterior. O seu prejuízo, no entanto, também deu um salto: US$ 172 milhões, 371% a mais do que em 2018. No primeiro trimestre deste ano, um crescimento de 38% nas vendas e uma inversão de um lucro de US$ 11,8 milhões para prejuízo de US$ 21,1 milhões.

A Vale, mesmo após as tragédias de Brumadinho e Mariana, reportou resultados bem diferentes do Mercado Livre. No primeiro semestre deste ano (o Mercado Livre só divulgará o resultado do segundo trimestre na próxima semana), a empresa teve uma receita de R$ 14,5 bilhões e um lucro de US$ 1,2 bilhão.

Isso quer dizer que a Vale é melhor do que o Mercado Livre? Não, na visão de Adeodato Volpi Netto, sócio da casa de análise Eleven Financial.

“Estamos comparando laranja com cacho de banana”, diz ele. “São empresas completamente diferentes, não comparáveis, em um mundo que transforma todas as métricas de valuation de tecnologia para uma realidade não comparável”, diz ele.

O que motivou isso foi o avanço das big techs na bolsa de valores. A Apple disparou em 2020 e já vale US$ 1,9 trilhão – mais do que o próprio PIB do Brasil. Recentemente, a empresa fundada por Steve Jobs se tornou a mais valiosa do mundo, ao ultrapassar a petroleira saudita Saudi Aramco. A Amazon não vem muito atrás, pois tem um valor de mercado de US$ 1,58 trilhão.

“As empresas de tecnologia tiveram um crescimento muito grande porque há a expectativa de que, em breve, vão divulgar resultados muito melhores”, diz Cavaca, da Warren. Logo, o mercado compra pensando no valor futuro.

“No caso do Mercado Livre, esse valor só vai ser confirmado se, efetivamente, a varejista apresentar esse crescimento constante. Aí, sim, vamos poder falar que o valor dela suplantou o das grandes empresas de commodities”, afirma o analista.

A expectativa pode ser diferente da realidade, é verdade. Mas diversos especialistas acreditam que o movimento de alta do Mercado Livre tem tudo para ser constante. No fim de julho, o Bradesco BBI fez um relatório afirmando que, durante a pandemia, a empresa argentina seria a “grande vencedora” do setor durante a quarentena – e recomendou a compra dessas ações.

Isso é um fator extremamente positivo. Afinal, nem mesmo grandes empresas estão conseguindo fazer frente ao Mercado Livre no mercado brasileiro. Um exemplo é a Amazon, que o próprio COO do Mercado Livre, Steleo Tolda, afirmou ao CNN Business que a empresa de Jeff Bezos ainda tem uma “presença tímida” por aqui.

O ponto positivo disso tudo? As empresas de tecnologia latinas estão mostrando que podem, sim, se destacar em serviço e em valor de mercado. E se "os dados são o novo óleo", quem sabe empresas locais também não se destaquem junto aos gigantes americanos de tecnologia.

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