Consumo dos mais ricos é lento e cresce menos onde pandemia é pior, diz BC

Levantamento mostra que os gastos dos mais pobres já recuperaram níveis pré-pandemia, enquanto dos mais ricos ainda está 17% menor

Juliana Elias, do CNN Brasil Business, em São Paulo
24 de setembro de 2020 às 16:53
Loja em Brasília: Consumo está menor em estados onde não há queda nas mortes por Covid-19
Foto: Marcello Casal/JrAgência Brasil

O nível de consumo da parte mais pobre da população, durante a pandemia, caiu menos e também se recuperou mais rápido do que o visto na parcela mais rica. Além disso, entre os mais abastados, essa retomada das compras está sendo ainda mais lenta em estados onde não há tendência significativa de queda no número de mortes diárias por coronavírus.

As conclusões fazem parte de um levantamento feito pelo Banco Central considerando gastos mensais realizados pelos 25% mais pobres e pelos 25% mais ricos do país.

No grupo de baixo, os gastos realizados em julho já ultrapassavam os níveis de janeiro, pré-pandemia, enquanto no quartil mais alto ainda estavam até 17% menor. O estudo faz parte do Relatório Trimestral de Inflação do BC, divulgado nesta quinta-feira (24)

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A ajuda do auxílio emergencial como impulso para os mais pobres, assim como a severidade da pandemia, como limitador do lado mais rico, estão entre as hipóteses levantadas pelo BC para justificar a diferença nas tendências. 

Para chegar aos números, o levantamento observou os gastos com cartão de crédito à vista e com boletos bancários de cada um dos quartis. O um quarto mais pobre é formado por aqueles que ganham menos de R$1.239 por mês, e a renda média desse grupo é de R$ 946. 

Em janeiro, esse grupo de baixo gastou um total de R$ 3,1 bilhões em compras à vista pelo cartão de crédito. No pior mês, abril, isso caiu para R$ 2,3 bilhões, retração de 26%. Em julho, já estava em R$ 3,2 bilhões novamente.  

No caso do quartil mais rico, a queda nos gastos com cartão de crédito foi bem maior, de 39% entre janeiro e abril. Eles saíram de R$ 70,3 bilhões em janeiro para R$ 43,2 bilhões em abril. Em julho, haviam voltado para R$ 58,6 bilhões, ainda 16,7% abaixo do registrado no começo do ano.  

Apesar de corresponder apenas 25% da população, essa turma responde por cerca de 70% de tudo que é gasto. E, como essa parcela demora para retomar seus níveis de consumo para próximo do patamar de pré-pandemia, acaba puxando o resultado final inteiro para baixo: em julho, o país todo gastou R$ 84 bilhões, ainda consideradas as compras feitas via cartão de crédito e à vista. É 34% menos que no começo do ano (R$ 96,6 bilhões). 

Já no caso dos pagamentos feitos por boleto, o grupo mais rico ainda estava desembolsando 1,8% menos em julho (R$ 33 bilhões) que em janeiro (R$ 33,6 bilhões). Já no quartil da base da pirâmide, esses volumes já estavam 19% maiores em julho (R$ 3,1 bilhões) na comparação com o que foi gasto em janeiro (R$ 2,6 bilhões).

“Considerando que a renda média do primeiro quartil é R$ 946, é provável que a atenuação da queda do consumo nesse grupo esteja associada ao auxílio emergencial a pessoas em situação de vulnerabilidade”, escreveu o BC em seu relatório. 

“Já o consumo dos indivíduos do grupo de renda mais alta teve queda mais acentuada e recuperação mais lenta”, diz o texto. “Há evidências de que a queda no consumo dessa parcela da população está correlacionada com a severidade local da pandemia.” 

Consumo maior onde há queda de mortes

Para verificar a relação entre o ritmo de retomada dos gastos dos mais ricos e a severidade da pandemia, o BC verificou o comportamento do consumo deles em diferentes estados. Também foram observados os gastos com cartão de crédito à vista e com boletos bancários para isso.

Os cruzamentos mostraram que os estados que reduziram os números de mortes diários estão hoje com um nível mais alto de consumo que os que seguiram com os óbitos em alta.

De um lado, foram observados quatro estados – Amazonas, Ceará, Pará e Pernambuco – que tiveram picos altos no número de mortes diárias por Covid-19, entre abril e junho, mas seguidos por uma tendência forte de redução nos meses seguintes. Em todos eles foi considerado o número de óbitos a cada 1 milhão de habitantes.

Nesses estados, a queda nos gastos das famílias mais ricas foi maior em um primeiro momento, mas subiu mais rápido e a níveis mais altos depois. 

No segundo grupo, ficaram estados que tiveram picos menores de mortes, mas que seguiram em trajetória de estabilidade ou alta depois. É o caso do Distrito Federal, Mato Grosso, Minas Gerais e São Paulo. Neles, o consumo cai menos, mas também sobe mais devagar depois, sendo ultrapassado pelo outro grupo. 

“A queda dos gastos no primeiro grupo de estados foi mais acentuada em abril e maio, período de maior impacto da Covid-19 nas unidades que compõem esse grupo”, explica o relatório. 

“Posteriormente, contudo, o consumo nesses estados se aproxima mais rapidamente do patamar pré-crise, caracterizando a correlação negativa entre a recuperação do consumo e a intensidade da pandemia.”

De acordo com o BC, foi escolhido observar apenas o comportamento da parcel mais rica neste recorte, "porque ela representa aproximadamente 70% do total (...) e deveria ser menos influenciada pelas medidas de transferência direta de renda, que podem ter impactos diferentes nos dois grupos de unidades da federação selecionados".

Estados com tendência de queda e de alta ou estabilidade nas mortes por Covid-19
Foto: Banco Central/Reprodução
Evolução de gastos das famílias mais ricas em cada grupo de estados
Foto: Banco Central/Reprodução

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