Vovó investidora? Ex-Credit Suisse usou os dados da avó e é multado por operação

Senhora de 92 anos fez 340 operações na bolsa e teve lucro de R$ 400 mil em 8 meses – mas a CVM identificou que se tratava de fraudes envolvendo o neto dela

André Jankavski, do CNN Brasil Business, em São Paulo
24 de setembro de 2020 às 15:24 | Atualizado 24 de setembro de 2020 às 16:05
Idosa nos Estados Unidos: esta senhora não é da avó de Luiz Mori
Foto: Alex Havery/Unsplash

Uma senhora de 92 anos de idade fez 340 operações de day trade na bolsa entre junho de 2012 e fevereiro de 2013. No total, ela conseguiu um lucro de R$ 404 mil. Essa poderia ser mais uma história de uma novata (nem tanto assim, é verdade) que conseguiu um tremendo sucesso na renda variável. Mas não foi bem o que aconteceu.

O seu neto Luiz Mori utilizou os dados da vovó para fazer operações irregulares na bolsa de valores. Ex-funcionário do Credit Suisse USA, Mori atuava como operador do banco suíço. Os lucros, segundo a Comissão de Valores Mobiliários (CVM), também foram irregulares: Mori utilizava informações privilegiadas que tinha no banco para antecipar o movimento do mercado. Ele foi multado em R$ 500 mil.

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Algumas coisas também chamaram a atenção da Bolsa na época. O primeiro ponto foi a idade da investidora. Além disso, o endereço era o mesmo de Luiz Mori e o cadastro dela nas corretoras ocorreu pouco antes do início das operações de day trade. Para completar, tudo era feito por “ela” mesma (sem procuradores ou representantes) e tudo por meio de um moderno home broker.

Outro ponto que chamou bastante atenção da autarquia: 41% do volume das vendas lucrativas de ativos tinha envolvimento dos clientes do Credit Suisse Brasil, onde Mori já tinha atuado como operador. Na época da fraude, no entanto, ele era funcionário do Credit Suisse Securities (USA).

O que aconteceu, segundo a CVM, foi que Luiz Mori comandou um esquema de “front running”. Basicamente, ele aproveitava das informações de grandes ordens de compra do Credit Suisse que ele tinha acesso para antecipar movimentos no mercado – e ter grandes retornos em um espaço de um dia.

A vovó (chamada de M.H. no processo), no entanto, não ficava com nenhum lucro: tudo era depositado na conta de Mori.

A XP, uma das corretoras em que a vovó tinha conta, não identificou as irregularidades. Segundo o processo, a XP afirmou que as movimentações “estariam dentro dos limites operacionais e seriam compatíveis com seu perfil de investimento “moderado-agressivo”.

Procurado, o Credit Suisse não quis comentar.

Não foi só o neto

Além da multa de R$ 500 mil para Mori, a CVM também condenou Rafael Spinardi e Catarsis Investimentos a uma multa de R$ 250 mil cada um. Spinardi, segundo o processo, se passava pela vovó em alguns momentos. Foram identificados depósitos da conta da vovó para Spinardi entre o final de abril e maio de 2013 no total de R$ 48 mil.

Porém, um fator que chamou a atenção da investigação foi que foram realizados cinco depósitos com valores abaixo de R$ 10 mil.

“A proximidade das datas das transferências e os valores pouco abaixo de R$ 10.000,00 (dez mil reais) foram interpretados pela Acusação como indícios de uma 'tentativa de ocultar as operações do Conselho de Controle de Atividades Financeiras (COAF)'”, diz o processo.

Detalhe: um dia após a transferência, Spinardi começou a operar R$ 48 mil em sua conta pessoal e a ter resultados similares ao da vovó. A Catarsis, no caso, era uma empresa que tinha Spinardi como titular.

No processo, ainda aparece o nome de Bruno Guisard, operador do Deutsche Bank, como um possível informante. A autarquia, no entanto, inocentou Guisard por falta de provas.

A vovó M.H. não foi responsabilizada pela CVM.

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