Ações da gravadora do BTS sobem 90% após IPO, mas são uma aposta arriscada


Julia Hollingsworth e Jake Kwon, do CNN Business, em Hong Kong
16 de outubro de 2020 às 11:25
Membros do BTS em vídeo para a ONU

BTS faz discurso em vídeo na Assembleia Geral da ONU

Foto: Reprodução/UNICEF

A gravadora por trás da maior sensação do k-pop do planeta transformou sua conquista em um sucesso no mercado de ações.

Mas a extrema dependência da Big Hit Entertainment no grupo musical BTS pode se tornar tanto uma desvantagem quanto um ativo.

A empresa levantou quase 963 bilhões de wones (US$ 840 milhões) com a venda de ações em sua oferta pública inicial, tornando-se o maior IPO da Coreia do Sul desde julho de 2017, de acordo com dados compilados pela Dealogic.

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Os investidores receberam as novas ações com entusiasmo na abertura das negociações em Seul, na quinta-feira (15). A ação fechou em 258 mil wones (US$ 225) – distante da alta da abertura do mercado, mas ainda assim 90% acima do preço do IPO de 135 mil wones (US$ 118).

A Big Hit agora vale cerca de 8,7 trilhões de wones (US$ 7,6 bilhões), o que a torna mais valiosa do que as três maiores gravadoras listadas do país juntas. E isso é quase inteiramente graças à ascensão meteórica do BTS. Formado por sete rapazes, o grupo foi responsável por 97% das vendas da Big Hit no ano passado.

Embora o BTS tenha estourado de uma forma que nenhuma outro grupo musical coreano tenha feito antes, existem alguns riscos gritantes, já que contar com a produção criativa de celebridades acarreta uma série de problemas potenciais, de escândalos a tragédias imprevistas. Além disso, o BTS tem uma complicação única que pode ameaçar os negócios: a Coreia do Sul impõe mais de um ano de serviço militar e os membros do grupo estão perto do prazo máximo para se alistar.

O grupo por trás da Big Hit

Antes da ascensão do k-pop, a indústria musical da Coreia do Sul era dominada por três gravadoras – JYP Entertainment, SM Entertainment e YG Entertainment – que lançaram os maiores artistas do gênero, incluindo Girls 'Generation, SHINee, GOT7, Big Bang e PSY.

Já o BTS, sigla que vem de Beyond the Scene (“Além da Cena”), foi criado pela pequena gravadora Big Hit, fundada em 2005 pelo produtor Bang Si-hyuk, também conhecido como “Hitman” Bang.

Nos sete anos desde sua estreia, o BTS tem quebrado vários recordes e se tornou uma força irrefreável na indústria. O septeto vendeu mais álbuns físicos nos Estados Unidos em 2020 do que Harry Styles, Billie Eilish ou Justin Bieber, e foi o primeiro grupo da Coreia do Sul a lotar arenas norte-americanas e ganhar um prêmio Billboard Music.

E sua corrida para o topo das paradas da Billboard Hot 100 (eles foram os primeiros artistas totalmente sul-coreanos a fazer isso) ajudou a contribuir com uma estimativa 1,7 trilhão de wones (US$ 1,5 bilhão) para a economia sul-coreana, impulsionando o turismo e aumentando a demanda por produtos do país, como cosméticos e alimentos, de acordo com o Instituto de Pesquisa do Ministério da Cultura e Turismo da Coreia.

O sucesso do grupo mudou a sorte da Big Hit. No ano passado, a gravadora registrou 587 bilhões de wones (US$ 512 milhões) em vendas, quase o dobro do total do ano anterior.

Mas também destaca a necessidade de diversificação do selo.

“Noventa por cento da receita da Big Hit Entertainment vem do BTS, então o risco está lá”, disse Park Ju-gun, analista de negócios da empresa de análise corporativa CEO Score. "No entanto, ela já começou a mudar sua estrutura de receita para um portfólio multifacetado”.

Durante o ano passado e um pouco antes disso, a empresa adquiriu outros selos para que pudesse trazer mais artistas para o portfólio, lançando a boyband TXT, ou Tomorrow X Together. A Big Hit também lançou uma plataforma chamada Weverse, na qual os fãs assistir conteúdo exclusivo e enviar mensagens para seus artistas favoritos. Segundo Ji In-hae, analista da corretora Hanwha, esse serviço que diferencia a empresa de outras grandes gravadoras.

As mudanças não foram revolucionárias. O BTS ainda representou quase 88% das vendas no primeiro semestre deste ano, de acordo com o prospecto de IPO da empresa publicado em setembro. E não há garantia de que novos grupos irão repetir o sucesso dos sete rapazes.

“Não sabemos se algum dia haverá outro grupo que possa atingir o nível de popularidade do BTS”, disse CedarBough Saeji, professora Universidade Bloomington, em Indiana, e especialista em k-pop.

Serviço militar e outros riscos

Enquanto isso, o BTS pode enfrentar uma grande interrupção no sucesso: o serviço militar obrigatório.

Na Coreia do Sul, quase todos os homens saudáveis são obrigados a se alistar no exército e servir 18 meses. As pessoas podem atrasar o serviço por motivos que incluem conclusão do ensino superior ou treinamento especial até os 28 anos de idade.

O membro mais velho do BTS, Kim Seok-jin (também conhecido como Jin) faz 28 anos em dezembro. Já o rapper Suga, cujo nome verdadeiro é Min Yoon-gi, faz 28 anos em março.

A Big Hit reconheceu que o serviço militar é um risco para os investidores. Mas a empresa também sugeriu que a banda ainda tenha algum tempo: a Big Hit disse ao CNN Business que Jin se matriculou em um programa de pós-graduação. Isso permitiria que ele adiasse seu serviço até pouco antes de seu 29º aniversário em 2021, de acordo com a lei sul-coreana.

Se o BTS e outros grupos pop deveriam cumprir seu mandato inteiro no exército tornou-se um tópico de debate nacional. Ao contrário de outros artistas, músicos eruditos e esportistas, as principais estrelas do k-pop não podem se isentar do serviço militar completo. 

“O valor de sua contribuição para a Onda Coreana e nosso país não pode ser subestimado”, afirmou Noh Woong-rae, deputador do Partido Democrata, em uma reunião da Assembleia Nacional no início deste mês. “Agora é a hora de discutir como esses jovens orgulhosos poderiam servir melhor à nossa nação”. O parlamento do país está considerando um projeto de lei que permitiria aos grupos k-pop atrasar o serviço militar por dois anos além do prazo atual.

No entanto, a forma como as leis estão escritas pode atrapalhar o grupo durante anos.

Isso provavelmente significa mais projetos solo, embora o grupo tenda a se sair melhor no coletivo.

O BTS é incrivelmente prolífico, com oito álbuns de estúdio em sete anos, além de vídeos musicais elaborados, vlogs sinceros, vídeos de bastidores, minisséries, projetos solos, mix tapes e aparições na televisão.

Os fãs coreanos de k-pop estão acostumados com o desaparecimento de seus ídolos para cumprir o serviço militar, mas este será um território desconhecido para fãs internacionais que foram apresentados ao gênero através do BTS. Saeji, a professora da Universidade de Indiana, disse que isso poderia significar um “período de transição desconfortável” – mas ela está otimista de que os fãs vão permanecer leais ao BTS durante a ausência.

A Big Hit também pensou na reputação do grupo como um risco potencial em seu negócio.

Outras gravadoras já sofreram com escândalos. No ano passado, as ações da YG Entertainment despencaram depois que um membro de um de seus grupos, Big Bang, foi investigado por uma série de acusações, incluindo suposta violação da lei sul-coreana de prostituição. O artista, Seungri, deixou o mundo da música e foi indiciado em crimes relacionados a prostituição e jogo em janeiro deste ano. De acordo com seu ex-advogado, Son Byoung-ho, Seungri afirma que é inocente, exceto por uma violação da lei de comércio de moeda estrangeira.

“Há fatos que podem acontecer e prejudicar profundamente uma empresa, e vimos isso com a YG Entertainment”, comentou a professora Saeji.

“Ninguém deveria investir na criatividade dos artistas e em sua conexão com os fãs sem entender que existem coisas inesperadas. Não é um esquema para enriquecimento”.

Os sete membros do BTS também têm um incentivo para evitar fazer qualquer coisa que prejudique o grupo. Cada um recebeu ações da Big Hit em agosto, que agora valem milhões de dólares por causa do IPO.

“A melhor maneira de preservar as ações seria continuar trabalhando e permanecer como um grupo de sete membros”, disse Saeji.

O que o futuro guarda?

Apesar dos riscos, a Big Hit tem muitos motivos para estar feliz com seus superstars.

Embora a pandemia de coronavírus tenha forçado o BTS a cancelar uma turnê mundial este ano, o grupo parece ter conseguido se tornar ainda mais popular.

Em junho, a banda transmitiu ao vivo um show chamado Bang Bang Con, que atraiu mais de 750 mil fãs de todo o mundo. O evento deu ao grupo o novo título do Recorde Mundial do Guinness para o maior número de espectadores de um show de música transmitido ao vivo. 

“O que eles estão oferecendo em termos de positividade está perfeitamente sintonizado com o momento em que vivemos”, afirmou Saeji.

A popularidade contínua do BTS salvou os resultados financeiros da Big Hit durante a pandemia. A receita de shows caiu quase 99% no primeiro semestre de 2020 em comparação com o mesmo período do ano anterior. Mas as vendas de álbuns aumentaram 80%. A receita geral caiu apenas 8% em relação ao ano passado.

“Se a empresa for altamente valorizada agora no meio de uma pandemia, será uma oportunidade de ganhar ainda mais impulso no próximo ano pós-pandemia”, disse Park, analista do CEO Score.

Contribuiram Joh Yunji, Yoonjung Seo e Gawon Bae

(Texto traduzido, clique aqui para ler o original em inglês).

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