O homem de US$ 8 trilhões de Wall Street: mercados estão 'cansados' do caos

“Eu acredito fortemente que o mercado deseja mais estabilidade, menos volatilidade”, disse Larry Fink, CEO da BlackRock

Matt Egan, CNN Business, em Nova York
19 de novembro de 2020 às 13:07 | Atualizado 19 de novembro de 2020 às 18:54
 
Foto: REUTERS/Brendan McDermid


Em Wall Street, a celebração pós-eleição não acontece apenas pelo alívio do fim de um governo dividido. Há também a esperança de uma liderança mais tranquila depois de quatro anos de caos em Washington.

Pelo menos, essa é a conclusão de uma das figuras mais poderosas de Wall Street: Larry Fink, CEO da BlackRock.

“Eu acredito fortemente que o mercado deseja mais estabilidade, menos volatilidade”, disse Fink durante uma conversa gravada que foi ao ar na noite de quarta-feira (18) no evento Bloomberg New Economy Forum.

Leia também:
Resgate econômico mundial está em US$ 19,5 trilhões – e vai subir
Tony Blair: Pandemia amplia pobreza na África, mas outros países podem ajudar

“Ele [o mercado] está procurando uma voz que modere, não uma que incite”, continuou o chefe da BlackRock, de acordo com uma transcrição assistida pelo CNN Business. “Eu realmente acredito que o presidente-eleito Biden pode ser a voz da razão.”

Os pilares pró-empresas da agenda de Trump, ou seja, cortes de impostos e desregulamentação, ajudaram a impulsionar os mercados. Mas os comentários de Fink ressaltaram algumas das desvantagens da era Trump:  imprevisibilidade na tomada de decisões, demissões de autoridades do alto escalão via tuíte e um aprofundamento das divisões políticas.

“Estamos todos cansados. Estamos cansados de volume alto que ouvimos de Washington”, afirmou Fink durante a conversa com David Rubenstein, o bilionário cofundador e presidente executivo do Carlyle Group.

“Um pouco mais de harmonia global”

O CEO da BlackRock acrescentou que acredita que os investidores estão “encorajados por ter um líder agora mais inclusivo, um líder que provavelmente poderia trazer um pouco mais de harmonia global”. 

Fink fez referência ao discurso da vitória em 8 de novembro, quando o presidente-eleito se comprometeu a não governar os estados azuis (democratas) ou vermelhos (republicanos), apenas os Estados Unidos.

“A todos aqueles de vocês que votaram no presidente Trump, eu entendo sua decepção esta noite”, disse Biden. “Eu também perdi algumas vezes. Mas agora, vamos dar uma chance uns ao outros”.

Depois de tropeçar na semana antes da eleição, o S&P 500 registrou seu melhor desempenho na semana eleitoral desde 1932. A subida foi impulsionada pelo alívio sobre a relativa calma da própria eleição, o surgimento de um vencedor e a esperança de que o desempenho dos republicanos mais forte do que o esperado no Senado manterá o governo dividido em 2021. O “impasse” em Washington significa que Biden provavelmente não será capaz de aumentar impostos ou promulgar políticas climáticas abrangentes.

“O mercado gosta de um governo dividido. Ele quer ter certeza de que há freios e contrapesos adequados.”

Em eleições, Fink contribuiu principalmente com dinheiro para os democratas, incluindo Hillary Clinton durante sua candidatura malsucedida em 2016 à presidência. Na época, o bilionário foi mencionado como um potencial secretário do Tesouro no governo Clinton. Mas ele também apoiou os republicanos, como o ex-presidente da Câmara, Paul Ryan.

A desigualdade está piorando

Maior gestora de ativos do mundo, a BlackRock supervisiona US$ 7,8 trilhões. Além disso, sua família de ETFs, a iShares, é incrivelmente popular, movimentando US$ 41 bilhões em ativos somente durante o terceiro trimestre.

Na verdade, a BlackRock é tão poderosa que o governo federal pediu sua ajuda durante cada uma das duas últimas recessões. Em março, o Federal Reserve fez história ao criar um veículo para fins especiais para comprar junk bonds e outras dívidas corporativas pela primeira vez. O Fed chamou a BlackRock para administrar o programa, o que ajudou a restaurar a confiança nos mercados financeiros.

Fink elogiou a resposta do Federal Reserve à crise como “nada além de incrível”.

No entanto, ele alertou que a pandemia está piorando a divisão entre ricos e pobres.

“Os pobres não possuem ativos financeiros, então a divisão por causa da força dos mercados de ações e as perdas de empregos que testemunhamos criaram ainda mais desigualdade de renda”, disse Fink. “Se vamos tentar reconstruir nossa economia de verdade, precisamos de um estímulo fiscal muito direcionado para aqueles que ainda estão desempregados”.

Fink afirmou que, se Biden pedisse seu conselho, ele incentivaria o próximo governo a se concentrar na criação de empregos por meio de um pacote de infraestrutura (há muito esperado) para consertar estradas e pontes em ruínas.

“Mais do que qualquer outro país, precisamos de uma conta de infraestrutura forte agora. Temos US$ 2 trilhões em manutenção adiada”.

Rubenstein perguntou ao chefe da BlackRock se ele consideraria deixar seu emprego para se tornar chefe do Fed, secretário do Tesouro ou outro cargo político importante. Fink mostrou relutância, mas não descartou.

“Já me comprometi com meus funcionários, com meu conselho e com minha família. Por enquanto, vou ficar em Nova York”.

(Texto traduzido, clique aqui para ler o original em inglês)