SpaceX obtém quase US$ 900 mi do governo para banda larga em zona rural dos EUA

A empresa receberá um dos maiores subsídios concedidos pela Comissão Federal de Comunicações (FCC)

Jackie Wattles, do CNN Business, em Nova York
13 de dezembro de 2020 às 05:00
O foguete Falcon 9, da SpaceX: nas áreas rurais, três em cada cinco pessoas dizem que o acesso à banda larga ainda é questão angustiante
Foto: Bill Ingalls/Nasa (22.mai.2020)

O governo dos Estados Unidos planeja dar à SpaceX quase um bilhão de dólares para transmitir internet do espaço para pessoas que vivem nas áreas rurais dos Estados Unidos. Nessas regiões, três em cada cinco pessoas dizem que o acesso à banda larga ainda é uma questão premente.

A empresa receberá um total de US$ 856 milhões – um dos maiores subsídios concedidos pela Comissão Federal de Comunicações (FCC) – sob um novo programa criado para incentivar as empresas a estender o acesso de banda larga às áreas menos atendidas dos Estados Unidos nos próximos dez anos.

A vitória da SpaceX é notável porque a empresa competiu com provedores de serviços de Internet mais estabelecidos, como a Charter Communications e a CenturyLink, que contam com cabos de fibra óptica tradicionais para fornecer internet de alta velocidade aos clientes. O serviço de internet Starlink da SpaceX, que está em teste beta e ainda não está totalmente operacional, depende de um exame experimental de quase 1.000 satélites girando em torno da Terra a mais de 27 mil quilômetros por hora enquanto transmite a internet para antenas de alta tecnologia montadas nas casas das pessoas.

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A FCC concedeu a maior parte dos US$ 9 bilhões em subsídios a fornecedores mais tradicionais. A Charter, por exemplo, recebeu mais de US$ 1,2 bilhão para levar a internet de alta velocidade a mais de 1 milhão de bairros. Já o Consórcio Cooperativo Elétrico Rural, uma oferta conjunta de empresas regionais menores, recebeu US$ 1,1 bilhão para mais de 618 mil bairros.

Permitir que a SpaceX participasse do programa de subsídio foi um movimento controverso. Empresas tradicionais de telecomunicações e alguns defensores da banda larga argumentaram que a rede Starlink da SpaceX era muito nova e de tecnologia não comprovada. Essencialmente, a FCC apostou que o serviço Starlink da SpaceX funcionará exatamente como a empresa promete, mas, se não for esse o caso, isso pode significar atrasos mais longos na obtenção de cobertura de internet para algumas das áreas mais necessitadas dos Estados Unidos.

No entanto, se o serviço Starlink da SpaceX funcionar conforme o esperado, pode ser uma grande vantagem para as economias rurais dos Estados Unidos e de outros países, já que o sistema de satélite exclusivo da empresa foi projetado para cobrir todo o planeta em conectividade, ao invés de amarrar cabos em áreas rurais individuais.

Por que isso importa?

A Comissão Federal de Comunicações estima que 21 milhões de norte-americanos (cerca de uma em cada 15 pessoas) ainda não têm acesso à internet de alta velocidade. O número real pode ser muito maior, talvez até o dobro da estimativa da FCC, de acordo com um estudo da BroadbandNow. Já outra pesquisa da Pew Research de 2018 descobriu que o acesso de alta velocidade à internet é um problema para quase 60% dos norte-americanos nas áreas rurais.

Os problemas causados pela exclusão digital ficaram mais evidentes do que nunca na era da Covid-19. Algumas famílias foram forçadas a colocar cadeiras nos estacionamentos de escolas para que pudessem trabalhar remotamente, pesquisar empregos ou assistir a aulas online.

O problema com o serviço tradicional de internet de alta velocidade é que estender cabos subterrâneos em áreas onde não há muitos clientes é caro, demorado e não faz sentido financeiro para operadoras que estão focadas em lucros de curto prazo em vez de investimentos de longo prazo. É por isso que a FCC e um punhado de outros programas governamentais trabalham há anos para subsidiar os custos iniciais.

Enquanto isso, os serviços de internet baseados em satélite mais antigos têm uma reputação de velocidades lentas e tempos de latência frustrantes.

Na verdade, a FCC disse originalmente que os serviços de internet via satélite não seriam capazes de obter quaisquer subsídios. Mas a comissão reverteu o curso em junho após a SpaceX pressionar contra essa decisão.

A SpaceX está prometendo que sua rede será tão rápida quanto os melhores serviços baseados em fibra óptica. Seus satélites estão voando muito mais perto do solo do que a maioria dos outros satélites de telecomunicações, o que, segundo a empresa, eliminará os frustrantes tempos de latência.

Por enquanto, não está claro exatamente como a rede funcionará. Os testadores beta têm relatado velocidades impressionantes, mas também experimentam interrupções intermitentes porque a SpaceX não lançou satélites suficientes para garantir cobertura contínua. Também ainda não se sabe como o serviço da SpaceX será acessível. A CNBC relatou em outubro, citando e-mails compartilhados com aqueles que expressaram interesse em se tornar clientes do Starlink, que o serviço poderia custar cerca de US$ 99 por mês, mais uma taxa única de cerca de US$ 500 para o roteador e a antena.

Se a rede Starlink não funcionar como esperado, as pessoas nas áreas rurais que seriam as suas clientes podem nunca receber um serviço de internet de primeira linha, disse Shirley Bloomfield, CEO da NTCA - Associação de Banda Larga Rural, que representa centenas de provedores de telecomunicações baseados na comunidade.

“As pessoas não conseguirão obter mais apoio do governo para entrar e construir uma rede mais preparada para o futuro”, afirmou Bloomfield à CNN Business. “Temos que estar focados em como fazer certo da primeira vez”.

Alguns especialistas em políticas, incluindo Ernesto Falcon, conselheiro legislativo sênior da Electronic Frontier Foundation, uma organização sem fins lucrativos de defesa da Internet aberta com sede em São Francisco, também argumentam que não importa se a Starlink será bem-sucedida ou não. Para Falcon, se os cidadãos quiserem um serviço sustentável de alta velocidade e, eventualmente, uma rede 5G, então os cabos de fibra ótica são a única solução. E é por isso que ele diz que os fundos do RDOF [sigla para Fundo de Oportunidade Digital Rural] não deveriam ser usados em tecnologias alternativas.

“Não é preciso substituir os cabos [de fibra ótica] em qualquer momento da sua vida, uma vez que estejam construídos. Será algo que os filhos dos meus netos poderiam usar”, disse Falcon.

Mas outros, incluindo o comissário da FCC Mike O'Reilly, que ajudou a liderar o esforço para permitir que a SpaceX se juntasse ao programa de subsídios da FCC, argumentam que a Starlink poderia oferecer uma solução completa para um problema preocupante.

"A verdade é uma só: não temos dinheiro suficiente para conectar todas as casas à fibra. Isso não deve acontecer”, contou à CNN Business em uma entrevista em agosto.

Para O’Reilly, isso, é motivo suficiente para arriscar na SpaceX, uma empresa já conhecida por seus avanços tecnológicos e por provar que seus críticos estavam errados.

Além disso, se a rede Starlink for acessível e funcionar bem, disse O'Reilly, a recompensa pode ser enorme. Não só traria cobertura para as áreas que a FCC está almejando com seus subsídios RDOF, mas também da conectividade para todas as pessoas nos Estados Unidos e possivelmente no mundo.

“O segredinho é que, depois de finalizarmos [o RDOF], provavelmente estamos olhando para um conjunto de locais que são muito caros e difíceis de servir, e ninguém” vai quer pagar para levar serviço de Internet para lá, O'Reilly disse. “Como conseguir atender as áreas mais difíceis e da forma mais rápida possível? O satélite é uma dessas opções”.

Mesmo O'Reilly, entretanto, reconhece que, para as pessoas nas áreas que a Starlink deve servir por meio desse programa de subsídios, muito depende do sucesso da rede.

A aposta pode “realmente causar uma grande decepção”, disse O'Reilly. “Essa é a parte difícil para quem formula políticas”.

(Texto traduzido, clique aqui para ler o original em inglês)

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