Huawei volta atrás em patente para identificar etnias em reconhecimento facial

Em comunicado, a empresa diz que se opõe à discriminação de todos os tipos, incluindo o uso de tecnologia para realizar a discriminação étnica

Ben Westcott, do CNN Business*
16 de janeiro de 2021 às 05:00
Selfie
Foto: Steve Gale / Unplash


A empresa de tecnologia chinesa Huawei voltou atrás em um pedido de patente de um sistema de reconhecimento facial destinado a distinguir uigures de outras etnias chinesas. Registrado em julho de 2018 pela Huawei e pela Academia Chinesa de Ciências, afiliada ao governo, o pedido de patente dizia que a “identificação dos atributos dos pedestres é muito importante” na tecnologia de reconhecimento facial.

Um dos trechos do pedido dizia: "Os atributos do objeto-alvo podem ser de gênero (masculino, feminino), idade (como adolescente, meia-idade, idoso) [ou] raça (han, uigur)”. A revelação foi feita pela BBC e pelo IPVM, grupo independente que monitora a tecnologia de videovigilância.

Um porta-voz da Huawei disse em um comunicado à CNN Business que a empresa iria “alterar” sua patente, acrescentando que o recurso de identificação étnica “nunca deveria ter se tornado parte do pedido”.

"A Huawei se opõe à discriminação de todos os tipos, incluindo o uso de tecnologia para realizar a discriminação étnica", disse o porta-voz. “Estamos trabalhando continuamente para garantir que novas tecnologias sejam desenvolvidas e aplicadas com o máximo de cuidado e integridade”.

O uso de tecnologia de reconhecimento facial no policiamento e na segurança nacional é comum em toda a China, mas especialmente na região oeste de Xinjiang, onde até 2 milhões de uigures e outras minorias étnicas muçulmanas foram supostamente colocadas em campos de detenção, de acordo com o Departamento de Estado dos EUA.

 

O governo chinês afirma que os campos são centros de treinamento vocacional que ajudam a desradicalizar os cidadãos. Mas os exilados uigures descreveram a repressão como “genocídio cultural”, com ex-detentos dizendo que sofreram abuso e doutrinação.

O diretor político do IPVM, Conor Healy, disse que a Huawei precisa explicar, em primeiro lugar, por que o recurso fazia parte do pedido de patente.

"Que razão poderia haver para entrarem com o pedido de patente e desenvolverem um sistema de reconhecimento facial que literalmente envolve horas e horas de treinamento de um computador para detectar a raça de alguém?" disse ele à CNN Business.

"Existem poucos usos para esse tipo de tecnologia que são um benefício para a humanidade."

A Huawei não foi a única empresa que o grupo de monitoramento disse ter entrado com um pedido para esse tipo de patente.

De acordo com o IPVM, a startup de tecnologia chinesa Megvii apresentou um pedido de patente em junho de 2019 para um sistema que mencionava uma "classificação de etnia" que incluiria "han, uigur, não-han, não-uigur e desconhecida".

Em um comunicado à CNN Business, a Megvii disse que "retiraria" o pedido de patente de 2019, que estava "sujeito a mal-entendidos". A empresa afirmou ainda que “a Megvii não desenvolveu e não irá desenvolver ou vender soluções de rotulagem racial ou étnica”.

O IPVM também descobriu que outra startup de tecnologia chinesa, a Sensetime, mencionava em um pedido de patente de julho de 2019 que poderia identificar pessoas por etnia, especificamente destacando a “uigur” como uma possibilidade.

A Sensetime disse à CNN Business que a referência aos uigures era "lamentável", acrescentando que era “um dos exemplos dentro do pedido que visava ilustrar os atributos que o algoritmo reconhece”.

“Não foi projetado nem tinha a intenção de discriminar de nenhuma maneira, o que é contra nossos valores”, disse um porta-voz em um comunicado. "Vamos atualizar a patente na próxima oportunidade".

O relatório do IPVM é o mais recente de uma série de revelações sobre as práticas questionáveis de reconhecimento facial dos gigantes da tecnologia chineses.

Em dezembro, o Alibaba disse que não tentaria mais identificar rostos por etnia depois que o IPVM relatou que uma divisão da empresa mostrou a seus clientes como o sistema de reconhecimento facial poderia detectar uigures.

No mesmo mês, o jornal “The Washington Post” alegou que a Huawei havia testado um software de reconhecimento facial capaz de enviar “alarmes uigures” automáticos às autoridades governamentais se um membro da minoria étnica fosse detectado por seus sistemas de câmeras.

Na época, a Huawei negou que iria "desenvolver ou vender sistemas que identificassem as pessoas por seu grupo étnico".

“Não toleramos o uso de nossas tecnologias para discriminar ou oprimir membros de qualquer comunidade”, disse a empresa em um comunicado publicado em seu site.

O último relatório surge no momento em que governos de todo o mundo pressionam cada vez mais as empresas cujos produtos podem estar ligados a supostos campos de trabalhos forçados em Xinjiang.

Na quarta-feira (13), o governo dos Estados Unidos anunciou que baniria todos os produtos de algodão e tomate de Xinjiang. Um dia antes, o Reino Unido declarou que multaria as empresas que ocultassem conexões econômicas com Xinjiang, uma vez que o governo tenta reprimir a entrada de produtos de trabalho forçado no país.

Em sua análise no último relatório, o IPVM disse que a inclusão do rastreamento de uigures nos pedidos de patentes das principais empresas de tecnologia da China mostrou “o quanto essa tecnologia racista é prevalente” no país.

“Este é um claro exemplo de abuso dos direitos humanos pela República Popular da China contra o povo uigur, e também representa um risco de longo prazo para a reputação do setor de videovigilância”, concluiu o IPVM.

*Com Michelle Toh

(Texto traduzido, clique aqui para ler o original em inglês).