Presidente do Ipea recebe críticas da indústria ao propor desindustrialização

É como se os industriais fossem um bando de idiotas que dependem de subsídio para sobreviver, diz Fernando Pimentel

Por Eduardo Laguna, do Estadão Conteúdo
20 de janeiro de 2021 às 19:20
Presidente do Ipea
Presidente do Ipea, Carlos von Doellinger.
Foto: José Cruz / Reuters

Causou indignação na indústria de transformação a entrevista dada pelo presidente do Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada (Ipea), Carlos von Doellinger, ao Valor Econômico em que o economista defende a desindustrialização do Brasil ao sustentar que atividades de manufatura, com exceção do beneficiamento de recursos naturais, não são o melhor caminho para o país.

As declarações foram mal recebidas em grupos organizados que reúnem representantes de setores industriais, com alguns deles já defendendo, embora sem ainda mobilizar a maioria, que uma resposta institucional seja endereçada a Brasília.

Em geral, o comentário de Doellinger foi lido como uma opinião particular - dissociada do discurso de reindustrialização manifestado a empresários pelo comando da equipe econômica -, mas que não pode ser menosprezado por vir de um órgão com grande influência na formulação de políticas públicas.

"Estamos assistindo a uma discussão estéril que despreza um ativo valioso do país. É como se os industriais fossem um bando de idiotas que dependem de subsídio para sobreviver", comenta Fernando Pimentel, presidente da Abit, entidade que representa a indústria têxtil nacional.

"Eu sou fã da agropecuária e tenho orgulho da posição do Brasil no mercado internacional de commodities agrícolas, mas o setor agrícola não será sozinho capaz de tracionar a economia brasileira", acrescenta o executivo.

Na entrevista publicada na terça-feira pelo Valor, Doellinger defendeu que o Brasil priorize setores onde tem vantagens comparativas - casos de agronegócio, mineração e energia - e citou a Austrália como exemplo, por o país ter decidido há mais ou menos 15 anos acabar com a indústria de transformação para dar foco a sua vocação na produção de minérios e agropecuária, tornando-se também uma potência em serviços e tecnologia.

"Se isso fosse uma verdade, Japão e Coreia do Sul, que são países industrializados, não seriam economias desenvolvidas", rebate José Velloso, presidente da Abimaq, associação da indústria de máquinas e equipamentos.

Segundo Velloso, reduzir a indústria a setores em que há vantagem comparativa por abundância de recursos naturais, como sugeriu o presidente do Ipea, significaria desmontar parques de capital intensivo num país que investe pouco. 

"Se a gente fizer um estudo de impacto disso, certamente o saldo será negativo"

Afirma executivo

Para Pimentel, a sugestão de Doellinger remete à criticada política de "campeões nacionais" de governos petistas, na qual empresas eram selecionadas para competir no mercado internacional por meio de financiamento público.

A diferença é que agora a abordagem seria setorial. "É mais ou menos a mesma coisa quando o governo define os setores que devem ou não ser protagonistas da área industrial", assinala o presidente da Abit.