Brasileiros copiam movimento dos EUA usando o Telegram, e ação do IRB salta 17%

Investidores brasileiros decidiram tentar espelhar, nesta quinta-feira (28), o movimento de "short squeeze" que vem ocorrendo em Wall Street

Matheus Prado, do CNN Brasil Business, em São Paulo
28 de janeiro de 2021 às 15:37 | Atualizado 28 de janeiro de 2021 às 21:00
Sede da IRB-Brasil RE
Sede da IRB-Brasil RE
Foto: Divulgação

Investidores brasileiros decidiram tentar repetir, nesta quinta-feira (28), o movimento de "short squeeze" que vem ocorrendo em Wall Street em ações como GameStop e AMC. Por meio de um chat no Telegram chamado "Short Squeeze IRB", o grupo combinou de comprar ações da resseguradora para aumentar o seu valor e "expulsar os vendidos do papel", ou seja, aqueles que apostam na queda da ação.

Mais de 20 mil pessoas já faziam parte do movimento e os papéis da empresa fecharam o dia com alta de 17,8% na B3. Segundo discussões dos próprios membros, a ideia é segurar as ações até abril para alcançar o efeito desejado, que é fazer fundos que apostam contra o papel perderem dinheiro.

Nas mensagens, membros tentavam inclusive tomar precauções temendo possível enquadro da CVM (Comissão de Valores Mobiliários) por manipulação de mercados.“As postagens neste grupo não representam ordens de compra ou venda de ações. Tampouco visam o benefício individual de pessoas ou manipulação do mercado”, diz o texto.

"Não sou analista de valores mobiliários; não faço nenhum tipo de recomendação de compra ou venda de valores e ativos mobiliários; falo aqui exclusivamente minhas opiniões pessoais e da minha própria carteira de investimentos."

Em nota, a CVM afirma que "acompanha e analisa informações e movimentações envolvendo companhias abertas, tomando as medidas cabíveis, sempre que necessário. Ressalta ainda que possíveis casos concretos envolvendo a situação mencionada em sua demanda serão avaliados individualmente pela Autarquia, por meio de processos administrativos".

É possível replicar o movimento?

Apesar do mercado financeiro funcionar de forma semelhante em todo o mundo, há diferenças culturais que permeiam a atividade. "São mercados diferentes. Lá nos EUA o contigente de pessoas físicas [na bolsa] é muito maior, não acredito que seja possível replicar esse movimento no Brasil", disse Fernando Barbará, head de renda variável do Andbank Brasil.

"Outra diferença é que os fundos e gestores profissionais americanos utilizam muito mais as posições short do que os brasileiros. Mas, para além das questões técnicas, é preciso lembrar que manipulação de mercado é crime. Essa atitude pode acabar prejudicando mais os investidores de varejo do que os grandes players."

Para se ter uma noção, as ações da GameStop tinham 140% de short float, ou seja, havia mais ações vendidas a descoberto do que disponíveis para o mercado (lembrando que elas podem ser emprestadas mais de uma vez). No caso de IRB, esse número não chega a 9%, e a B3 não deixa passar de 20%. 

"Precisa ter a escassez do aluguel e uma alta no fluxo comprador para o short squeeze acontecer. Uma alta da casa dos 10% provavelmente não será suficiente para incomodar um investidor institucional", diz Rafael Panonko, analista chefe da Toro Investimentos. "Além disso, IRBR3 negocia em média R$ 320 milhões por dia. O volume financeiro para influenciar isso precisa ser muito forte." 

O gestor lembra que, nos EUA, a comunidade responsável pelo movimento tem mais de 2 milhões de investidores, enquanto os grupos brasileiros têm, no máximo, 30 mil.

O que é um short?

Short-sellers, ou vendedores a descoberto, são investidores que apostam que uma ação vai cair. Eles pegam ações emprestadas para vender no mercado, com a promessa de comprar essas ações de volta em uma data posterior. Se eles ganharem a aposta, venderam alto e compraram baixo, e vão embora com dinheiro no bolso.

Se perderem, isso é chamado de “short-squeeze”, ou o movimento repentino de forte alta do preço de uma ação, e os investidores a descoberto muitas vezes cobrem suas perdas comprando mais ações da empresa contra a qual apostaram.

O interesse por shorts da GameStop aumentou no final do ano, à medida que os investidores apostavam contra o potencial de lucro da empresa. Com um mega short-squeeze acontecendo, os vendedores a descoberto começaram a cobrir suas apostas, comprando mais ações para compensar suas perdas crescentes.